Momentos decisivos

LUTERO – Os documentos decisivos de 1520

Depois que Lutero publicou estas três obras, não havia mais como voltar atrás.

Toca a trombeta pela reforma

Já que a cúria romana não reformaria a Igreja, disse Lutero, os príncipes alemães tinham o direito e a responsabilidade de fazê-lo. Apelando para o senso de orgulho nacional dos líderes alemães, ele insistiu com eles para implementar duas dúzias de reformas na Igreja. No processo, Lutero anunciou a famosa doutrina de que todo crente é um sacerdote. A primeira grande impressão da obra se esgotou em duas semanas.

Neste extrato, Lutero explica como os “romanistas” fizeram, ao redor de si, barricadas contra a reforma – e então ele as demole.

À hora do silêncio já passou, e à hora de falar chegou…

Os romanistas construíram muito claramente três paredes ao seu redor. Até aqui ele se protegeram com estas paredes de tal modo que ninguém foi capaz de reformá-los. Como resultado, toda a cristandade caiu abominavelmente.

Em primeiro lugar, quando pressionados pelo poder temporal, eles fizeram decretos e declararam que o poder temporal não tinha jurisdição sobre eles, mas que, pelo contrário, o poder espiritual está acima do temporal.

Em segundo lugar, quando se faz uma tentativa de reprová-los com as Escrituras, eles levantam a objeção de que somente as pessoas fazem objeção, dizendo que só o papa pode interpretar as Escrituras.

Em terceiro lugar, se ameaçados com um concílio, alegam que ninguém pode pedir um concilio senão o papa.

Atacando a primeira parede

Comecemos atacando a primeira parede. É pura invenção de que o papa, bispos, padres e monges sejam chamados o estado espiritual, enquanto príncipes, lordes, artesãos e fazendeiros sejam chamados de o estado temporal. Isso é uma hipocrisia e um engano. Que ninguém seja intimidado por isso, e, por esta razão, todos os cristãos são verdadeiramente o estado espiritual, e não há diferença entre eles, a não ser de ofício. Paulo diz em 1Coríntios 12.12–13 que somos todos um corpo, embora todos os membros tenham sua própria função, pela qual serve aos outros. Isto se dá porque nós todos temos um batismo, um evangelho, uma fé e somos todos cristãos do mesmo jeito; pois o batismo, o evangelho e a fé somente nos fazem espirituais e um povo cristão.

O papa ou bispo unge, raspa a cabeça, ordena, consagra e determina um modo de vestir de maneira diferente dos leigos, mas ele nunca poderá fazer um homem um cristão ou um homem espiritual assim fazendo. Ele pode também transformar um homem num hipócrita ou em um impostor e cabeça-dura, mas nunca será um cristão ou um homem espiritual. Pelo que sabemos, somos todos consagrados sacerdotes no batismo, como Pedro diz em 1Pedro 2.9.

Atacando a segunda parede

A segunda parede é ainda mais frouxa e menos substancial. Os romanistas querem ser mestres das Escrituras Sagradas, embora eles nunca aprendam nada da Bíblia em sua vida inteira. Sua alegação de que só o papa pode interpretar as Escrituras é um ultraje e uma fábula. Eles não podem mostrar uma única letra [das Escrituras] para manter que a interpretação ou confirmação das Escrituras pertencem somente ao papa. E, embora eles aleguem que este poder foi dado a Pedro quando as chaves lhes foram dadas, fica claro que as chaves não foram dadas a Pedro apenas, mas a toda a comunidade.

Além disso, as chaves não foram ordenadas para doutrina ou governo, mas apenas para ligar ou desligar os pecados. O que mais, além disso, ou qualquer outra coisa que eles deleguem para si com base nas chaves é mera invenção. Mas as palavras de Cristo a Pedro, “Mas eu orei por você, para que a sua fé não desfaleça” (Lucas 22.32), não podem ser aplicadas ao papa, já que a maioria dos papas não tem fé, como eles mesmos devem confessar. Além disso, não foi apenas por Pedro que Jesus orou, mas também pelos apóstolos e cristãos, como ele diz em João 17.9, “Eu rogo por eles. Não estou rogando pelo mundo, mas por aqueles que me deste, pois são teus.” Não está claro o suficiente?

Atacando a terceira parede

A terceira parede cai sozinha quando as primeiras duas já caíram. Os romanistas não têm base bíblica para sua alegação de que apenas o papa tem o direito de convocar ou confirmar um concílio. Isso é apenas uma regra deles, e só é válida enquanto não prejudica a cristandade ou contraria as leis de Deus. Agora, quando o papa merece punição, esta regra não mais se aplica, pois não puni-lo pela autoridade de um concílio é ferir a cristandade.

Portanto, nós lemos em Atos 15 que não foi Pedro que pediu o concílio apostólico, mas os apóstolos e os anciãos. Mesmo o Concílio de Nicéia, o mais famoso de todos, não foi nem convocado nem confirmado pelo bispo de Roma, mas pelo imperador Constantino. Muitos outros imperadores depois dele fizeram o mesmo, e ainda assim estes concílios foram os mais cristãos de todos. Mas se apenas o papa tem o direito de convocar concílios, então, estes teriam sido todos heréticos. Além do mais, quando examino os concílios que o papa ordenou, acho que eles não eram de grande importância.

Portanto, quando a necessidade exigir, e o papa for uma ofensa ao cristianismo, o primeiro homem que estiver em condições deve, como um membro verdadeiro do corpo, fazer o que puder para trazer um concílio verdadeiramente livre.

Deus nos dá a todos uma mente cristã, e concede à nobreza cristã da nação alemã em particular, uma verdadeira coragem espiritual para fazer o melhor que podem pela pobre Igreja. Amém.

Sobre o cativeiro babilônico da Igreja

Atacando um assunto difícil

O amigo de Lutero, Georg Spalatin, pediu-lhe para escrever sobre os sacramentos. Lutero o fez, e reduziu os tradicionais sete sacramentos a três; ele rejeitou a confirmação, o casamento, o clero e a extrema unção. No fim de sua obra, Lutero fez da penitência, embora útil, menos que um sacramento. Isso deixou apenas o batismo e a Ceia do Senhor. Lutero então desafiou o entendimento tradicional da Ceia do Senhor: a) que os leigos não deveriam receber o cálice; b) que os elementos passam por transubstanciação no corpo e sangue de Cristo; c) que a missa é um sacrifício.

O título da obra refere-se ao cativeiro da nação judaica pelo Império Babilônico (no século 6 a.C.). Então, no seu tempo, Lutero argumentou, os cristãos tinham sido levados para longe das Escrituras e ficado sujeitos ao papado. Se o papado não libertasse as igrejas dos abusos dos sacramentos, então ele seria “idêntico ao reino da Babilônia e ao próprio Anticristo”.

Nessa obra, Lutero não somente atacou os abusos dos sacramentos, mas os redefiniu totalmente. Ele chamou seu livro de uma “pequena canção sobre Roma e os romanistas. Se seus ouvidos estão coçando ao ouvi-la, eu vou tocá-la no tom mais alto!”

Para começar, devo negar que haja sete sacramentos, e afirmo que há apenas três: batismo, penitência e o pão (comunhão). Todos os três foram sujeitados a um cativeiro miserável pela cúria romana, e a Igreja tem sido roubada de toda sua liberdade.

Primeiro cativeiro

Agora, referindo-me ao sacramento do pão em primeiro lugar, o primeiro cativeiro deste sacramento, portanto, se refere a sua substância ou plenitude, que a tirania de Roma tem tirado de nós. Não que aqueles que usam apenas um elemento pequem contra Cristo, pois Cristo não nos ordenou o uso de nenhum elemento, mas deixou isto para ser a escolha de cada indivíduo quando disse: “…façam isso sempre que o beberem em memória de mim” (1Coríntios 11.25). Mas eles são pecadores, que proíbem a entrega dos dois elementos àqueles que desejam exercer essa escolha. A falta reside não no laicato, mas nos sacerdotes. O sacramento não pertence aos sacerdotes, mas a todos os homens. Os sacerdotes não são senhores, mas servos, que têm o dever de administrar ambos os elementos para aqueles que os desejam, como muitas vezes desejam…

Segundo cativeiro

Quando os evangelistas escreveram claramente que Cristo tomou o pão e deu graças, temos que pensar no pão real e no vinho real, assim como pensamos sobre um copo real. (até mesmo porque eles não dizem que o copo foi transubstanciado). Sendo assim, uma vez que não é necessário imaginar uma transubstanciação feita pelo poder divino, deve ser considerada como uma ficção da mente humana, pois não tem base nem nas Escrituras, nem na razão.

Talvez eles dirão que o perigo da idolatria exige que o pão e o vinho estejam realmente presentes. Que ridículo! Os leigos nunca estiveram familiarizados com sua filosofia inconsistente de substância e acidentes, e não poderiam entender, mesmo que eles os ensinassem.

Terceiro cativeiro

O terceiro cativeiro deste sacramento é de longe o mais vil de todos, em conseqüência de não haver um pensamento mais aceito pelas pessoas em geral, ou mais aceito na Igreja hoje em dia, que a missa é uma boa obra e um sacrifício. E este abuso trouxe muitos outros abusos a reboque, de modo que a fé desse sacramento tornou-se totalmente extinta, e o sacramento sagrado foi transformado em mercadoria, um mercado e um lugar de se fazerem lucrativos negócios. Aqui, participações, irmandades, intercessões, méritos, aniversários de casamento, dias especiais e os produtos semelhantes são vendidos e comprados, trocados e permutados na Igreja. Os sacerdotes e monges dependem disso para toda sua subsistência.

Estou atacando um assunto difícil, um abuso talvez impossível de desenraizar, uma vez que por séculos o costume e o consentimento comum dos homens o tornaram tão firmemente enraizado que seria necessário abolir a maioria dos livros agora em voga, e alterar quase toda a forma externa das igrejas e introduzir, ou melhor, reintroduzir, um tipo de cerimônia totalmente diferente. Mas meu Cristo vive e nós devemos ser cuidadosos para dar mais crédito à Palavra de Deus do que a todos os pensamentos dos homens e dos anjos.

Sobre a liberdade de um cristão

O coração da vida cristã

Este tratado, Lutero mesmo admitiu, foi o mais conciliatório dos três, “um livro pequeno, se considerar seu tamanho”. Entretanto, “ele contém toda a vida cristã em uma forma breve”. Ele o enviou com uma carta aberta ao papa Leão X, uma vez que escreveu, “eu sou um pobre homem e não tenho outro dom a oferecer”. Ele provou ser a tentativa final de Lutero de se reconciliar com Roma.

Um cristão é um senhor de todos, perfeitamente livre, sujeito a ninguém.

Um cristão é um servo de todos perfeitamente obediente, sujeito a todos.

Estas duas sentenças parecem se contradizer. Entretanto, se elas se encaixarem, servirão nosso propósito lindamente. Ambas são afirmações de Paulo, que diz em 1Coríntios 9.19, “Porque, embora seja livre de todos, fiz-me escravo de todos”, e em Romanos 13.8, “Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros.” O amor por sua própria natureza é pronto para servir e ser sujeito àquele que ama. Então, Cristo, embora fosse Senhor de todos, foi “nascido de mulher, nascido debaixo da Lei” (Gálatas. 4.4), e, portanto, foi ao mesmo tempo um homem livre e um servo, “embora sendo Deus” foi “servo” (Filipenses 2.6–7).

Mas comecemos com algo mais remoto de nosso assunto, porém mais óbvio. O homem tem duas naturezas, uma espiritual e uma humana; … (e) estes dois homens no mesmo homem se contradizem, “Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne”, de acordo com Gálatas 5.17.

Primeiro, consideremos o homem interior para ver como um cristão honrado, livre e piedoso, ou seja, um homem novo e espiritual se torna o que ele é. É evidente que nenhuma coisa externa tem qualquer influência que a faça capaz de produzir um cristão honrado ou liberdade. Uma coisa, e somente uma coisa, é necessária para uma vida cristã de honradez e liberdade. Esta coisa é a Santa Palavra de Deus, o evangelho de Cristo.

Pregar Cristo significa alimentar a alma, fazê-la honrada, deixá-la livre e salvá-la, desde que creia na pregação. Portanto, está claro que, como a alma necessita somente da Palavra de Deus para sua vida e justiça, então ela é justificada apenas pela fé e não por quaisquer obras; pois se ela pudesse ser justificada por qualquer outra coisa, não haveria necessidade da Palavra, e, nem conseqüentemente, da fé.

Assim, uma vez que essa fé pode governar apenas no homem interior, e uma vez que a fé sozinha justifica, fica claro que o homem interior não pode ser justificado, liberto ou salvo por qualquer obra externa, e que estas obras, qualquer que seja seu caráter, não tem nada a ver com este homem interior. Dessa forma, a primeira preocupação que todo cristão deve ter é pôr de lado toda confiança nas obras e pouco a pouco fortalecer apenas a fé e, através dela, crescer no conhecimento, não nas obras, somente de Cristo Jesus.

Revolucionário por acidente

Em sua busca por paz espiritual, Lutero não tinha idéia do tumulto que traria para seu mundo.

Dr. James M. Kittelson é professor de História na The Ohio State University, Columbus, Ohio, e autor de Luther the Reformer [Lutero, o reformador] (Augsburg, 1986).

Um conselheiro de turistas do século 16 afirmava que as pessoas que voltassem de suas viagens sem ver Martinho Lutero e o papa “não tinham visto nada”. Mais tarde, este homem tornou-se bispo da Igreja Católica Romana e um dos oponentes de Lutero.

Outra pessoa leu os trabalhos de Lutero e declarou: “A igreja nunca viu maior herege!” Mas depois de alguma reflexão, declarou: “Somente ele está certo!” Este homem tornou-se um reformador e Lutero regularmente se confessava com ele.

Como pôde um frei e professor evocar tais reações conflitantes?

A resposta é a própria simplicidade. Este homem, que continua a falar depois de meio século, ou ensinou a base da fé cristã corretamente ou ainda está desviando almas. Como ele mesmo disse, “Outros antes de mim contestaram a prática. Mas, contestar a doutrina, isso sim é pegar um ganso pelo pescoço!”

Infância comum

Ao contrário de algumas especulações românticas, a infância de Lutero não teve quase nada a ver com o fato de ele tornar-se um teólogo revolucionário. Ele nasceu quase em trânsito em 10 de novembro de 1483, em Eisleben (cerca de 220 quilômetros ao sudoeste da moderna Berlim), onde seus pais podem ter trabalhado como empregados domésticos.

Dentro de um ano, a família mudou-se para Mansfeld, onde seu pai, Hans Luder (como era pronunciado na região), encontrou trabalho nas minas de cobre locais. Hans subiu rapidamente, talvez com a ajuda de parentes, a proprietário, ou sócio de várias minas e fundições. Até mesmo tornou-se um membro do conselho da cidade. A pintura de Cranach, do Luder mais velho, mostra-o num casaco finamente tecido com uma gola de pele.

Lutero lembra de sua infância em parte por (nos termos de hoje) seu abuso físico. Ele apanhava de seus pais de modos aterradores. Ele distanciou-se tanto de seu pai que, em uma ocasião, que seu pai lhe pediu perdão. Mas como Hans veio até seu filho, Lutero também se lembra que “ele me queria bem.” Talvez a dura disciplina refletisse apenas uma família que desejava ser bem-sucedida, e o foi. Não havia, com certeza, nada de incomum nisso.

Também não há evidência de nada incomum ou rebelde acerca da piedade da família. Margaretha, a mãe de Lutero, tinha as superstições comuns da época. Por exemplo, ela culpava uma vizinha pela morte de um de seus filhos, pois a considerava uma bruxa. Hans se unia a ela, buscando uma indulgência especial para a igreja local. Quando jovem, Lutero absorveu uma religião na qual uma pessoa tinha que lutar pela futura salvação da mesma forma que tinha que trabalhar pela sobrevivência material.

Uma decisão perspicaz

Neste ponto, dois assuntos comuns mudaram o rumo de Lutero.

Primeiro, Hans (que poderia ter ficado satisfeito quando o menino aprendeu a ler, escrever e fazer cálculos e então entrar no negócio da família) mandou o menino para estudar latim, e finalmente para a universidade de Erfurt. Ao tomar esta decisão perspicaz, Hans foi ambicioso não apenas por seu filho, mas pela família inteira. Se fosse bem-sucedido, o jovem Lutero se tornaria advogado, que, fosse numa igreja ou na corte, traria um bom sustento para os pais e irmãos.

Segundo, o jovem deixou o lar antes de fazer 14 anos e provou ser extraordinariamente inteligente. Concluiu o bacharelado e o mestrado no menor tempo permitido pela lei. Ele provou ser tão adepto a disputas (debates públicos era a maneira principal de ensinar e aprender) que ganhou o apelido de “O Filósofo”. Hans ficou tão feliz que deu ao seu filho um presente caro: o texto principal para estudos legais da época, o Corpus Juris Civilis.

Da lei ao legalismo

Infelizmente, para os planos de Hans, o estudante novato de direito começou a ter dúvidas sobre o estado da sua alma e também sobre a carreira que seu pai tinha assegurado para ele. Em 1505, quando ainda não tinha 22 anos, ele tirou uma licença oficial, mas inexplicada, da universidade. Ele visitou sua família para buscar, aparentemente, conselho sobre seu futuro. No seu retorno para Erfurt, quando lutava contra uma severa tempestade, um raio atingiu o chão perto dele.

“Me ajude, Santa Ana!”, Lutero gritou. “Eu me tornarei monge.”

Depois deste voto a Santa Ana, a conhecida padroeira dos mineiros, Lutero passou várias semanas discutindo sua decisão com seus amigos. Então, em Julho de 1505, como era a exigência para entrar na vida monástica, ele doou todos os seus bens – seu alaúde, com o qual bastante tinha habilidade; seus muitos livros, incluindo o Corpus Juris Civilis; suas roupas e utensílios para comer – e entrou para o Black Cloister of the Observant Augustinians (Mosteiro Negro dos Vigilantes Agostinianos). Como de costume, ele passou mais de um mês examinando sua consciência e sendo interrogado pelas autoridades competentes antes de proceder ao noviciato (um ano adicional de escrutínio antes de se tornar um frei).

Com toda evidência, Lutero foi extraordinariamente bem-sucedido (“impecável” foi a descrição) como um agostiniano, assim como quando foi estudante. Ele não começou simplesmente a jejuar, orar e fazer práticas devotas (como ficar sem dormir, suportar o frio cortante sem cobertor e se flagelar), ele os fazia dedicadamente. Como comentou mais tarde: “Se alguém pudesse ter herdado o céu pela vida de um monge, teria sido eu.”

Ele tornou-se um padre em menos de dois anos depois de entrar para o Mosteiro Negro. Foi mandado a Roma como companheiro de viagem de um irmão mais velho a negócios, que seriam cruciais para os agostinianos na Alemanha. Além disso, seus superiores ordenaram que estudasse teologia para que pudesse se tornar um dos professores da ordem.

Digno de estudo

Naquele momento, o próprio Lutero começou a ser alguém digno de estudo. Os medos e ansiedades que o dirigiram para o Mosteiro Negro o deixaram durante seu primeiro ano lá, mas então se intensificaram. Embora buscasse amar a Deus com todo seu coração, alma, mente e força, ele não achava consolo. Ficava cada vez mais com medo da ira de Deus: “Quando é tocada por esta inundação que vem do eterno, a alma só se alimenta e bebe da eterna punição e nada mais.”

A ordem para estudar a teologia acadêmica significava que ele podia investigar suas lutas intelectualmente. Lutero, mais tarde, comentou que foi “aonde as tentações me levaram”, querendo dizer que ele ousou investigar as questões que mais o atormentavam. Mas isso acontecia devagar: “Eu não aprendi minha teologia toda de uma vez… mas como Agostinho, através de muito estudo, ensino e escrita.”

No processo, os ataques de dúvida de Lutero acerca de sua salvação tornaram-se uma realidade objetiva que ele estudou – quase da maneira que um matemático se debruça sobre um problema difícil.

O dilema de Lutero

Como um iniciante no estudo da teologia, Lutero foi ensinado sobre a ortodoxia predominante, e parte de suas palestras iniciais como professor mostra que ele cria nisso.

Seus professores, seguindo a Bíblia, ensinaram que Deus exigia absoluta justiça, como na passagem, “sejam perfeitos, como é perfeito vosso Pai que está no céu”. As pessoas precisavam amar a Deus absolutamente e seus próximos como a elas mesmas. Elas deviam ter a fé inabalável de Abraão, que estava disposto a sacrificar o próprio filho.

Além do mais, quando não eram perfeitas, as pessoas deviam se arrepender de um modo totalmente contrito, e não pelo propósito egoísta de salvar a si mesmas. E onde o indivíduo não pudesse ser absolutamente justo, a Igreja entraria com a graça dos sacramentos.

Lutero declarou mais tarde: “Eu estava tão bêbado, aliás, tão submerso nas doutrinas do papa, que eu teria alegremente matado (ou cooperado com alguém que matasse) quem quer que tirasse uma sílaba da obediência devida a ele.”

Mas Lutero foi atacado por um problema, e finalmente este o levou para longe do que havia sido ensinado. Os seres humanos são incapazes de ter os atos e estado da mente sem o egoísmo que as Escrituras exigem. O mais difícil para Lutero era a obrigação perfeita das Escrituras de ser contrito e se arrepender.

No fim da Idade Média, o arrependimento ocorria mais comumente no curso dos sacramentos da confissão e da penitência. De acordo com o que o pecador confessasse, era perdoado e então cumpria as ações de penitência que lhe fossem ordenadas e o processo estava completo. Mas Lutero sabia que no meio deste ato crucial era justamente quando ele era mais egoísta. Estava confessando seus pecados e cumprindo sua penitência apenas pelo instinto humano de salvar a sua pele. E, também, pela tendência humana de pecar, ele não conseguia se confessar o suficiente.

Este assunto crítico permaneceu vívido na mente de Lutero. Ele comentou depois: “Se alguém confessasse seus pecados na hora certa, ele teria que carregar um confessor no seu bolso!” Como seus professores sabiam, ele de fato podia levar ao desespero (ou como acreditavam então, o pecado contra o Espírito Santo). No caso de Lutero, ele era de vez em quando levado ao desespero mesmo.

Quem pode ser justo?

Durante seus anos iniciais, quando Lutero lesse o famoso “Texto da Reforma” — Romanos 1.7 — seus olhos seriam levados não para a palavra fé, mas para a palavra justo. Quem, afinal, podia “viver pela fé”? Somente aqueles que já eram justos. O texto era claro sobre o assunto: “O justo viverá pela fé.”

Lutero observou: “Eu odiava aquela frase, ‘a justiça de Deus’, pela qual eu tinha sido ensinado de acordo com o uso e costume de todos os professores… [que] Deus é justo e pune o pecador injusto.” O jovem Lutero não podia viver pela fé porque não era justo – e ele sabia disso. Durante sua confusão, Lutero muitas vezes abordou Johann von Staupitz, seu superior, sobre as suas dúvidas, pecados e ódio de um Deus justo. Ele fazia isso tão freqüentemente que uma vez Staupitz o mandou sair e cometer um pecado de verdade: “Você quer ficar sem pecado, mas você não tem pecados de verdade… o assassinato de um dos pais, vícios públicos, blasfêmia, adultério, coisas assim… Você não deve inflar os seus pecados mancos, artificiais e fora de proporção!”

Mas Lutero não se conformou: “Mesmo que minha consciência nunca me dê segurança, ainda assim sempre duvidei e disse, ‘Você não fez aquilo corretamente. Você não confessou tal coisa’.”

Contradizendo tudo

O momento, ou melhor, os momentos críticos na vida de Lutero resultaram de uma decisão de seus superiores. Eles, particularmente Staupitz, ordenaram que ele fizesse seu doutorado e se tornasse um professor bíblico na Universidade de Wittenberg. Dependendo do ponto de vista, esta foi a mais brilhante ou a mais estúpida decisão da história do cristianismo latino.

Lutero resistiu ao chamado, dizendo, “Será a minha morte!”, mas finalmente aceitou. Ele logo adquiriu sua própria identidade madura como professor ou doctor ecclesiae (ou professor da igreja), na qual freqüentemente buscava refúgio, até mesmo ao ponto de assinar seu nome normalmente, D. Martinus Lutherus.

Mais importante que isso, a revolução em seu pensamento teológico ocorreu na sala de palestra e estudo dos professores, de 1513 a 1519. Ele começou reinterpretando a justiça de Deus e então estendeu sua interpretação para questões centrais da teologia cristã.

No fim de 1513, início de 1514, quando chegou ao Salmo 72, explicou aos seus alunos: “Isto é o que é chamado julgamento de Deus: como a justiça ou força ou sabedoria de Deus, é com isto que somos sábios, justos e humildes ou pelo qual somos julgados.”

Esta é uma frase notável: a última frase é sobre o que ele foi ensinado; era a ortodoxia daquele tempo: Deus julga por sua justiça. Mas a primeira frase – Deus nos dá justiça – é a que ele ensinaria cada vez mais. De fato, um pouco mais tarde, durantes as palestras, rejeitou totalmente a doutrina comum e afirmou o contrário, ao dizer que todos os atributos de Deus, – “verdade, sabedoria, salvação, justiça” – eram “as coisas com as quais ele nos faz fortes, salvos, justos e sábios”.

Junto com estas mudanças vieram outras. A Igreja não era mais a instituição que se gabava de sucessão apostólica; pelo contrário, era a comunidade daqueles que tinham recebido a fé. A salvação não vinha pelos sacramentos por si só, mas pelo seu papel em nutrir a fé. A idéia de que os seres humanos tinham uma faísca de bondade (suficiente para buscar a Deus), não era uma fundação em teologia, mas ensinada pelos tolos, que não conheciam teologia. A humildade não era mais a virtude que ganhava graça, mas uma resposta necessária ao dom da graça. A fé não mais consistia em obedecer aos ensinos da Igreja, mas em confiar nas promessas de Deus e nos méritos de Cristo.

Em resumo, Lutero trabalhou numa revolução que contradisse tudo o que lhe havia ensinado. Como certos revolucionários em seu próprio tempo, estava tudo ali, pronto para explodir, e nem mesmo o líder principal tinha consciência de seu potencial.

Reação em cadeia

De fato, o que aconteceu foi mais uma longa e poderosa reação em cadeia do que uma explosão repentina. Começou na Noite de Todos os Santos, em 1517, quando Lutero fez uma objeção formal ao modo como o pequeno e atarracado Johann Tetzel estava pregando uma indulgência plenária.

As indulgências eram documentos preparados pela Igreja e comprados por indivíduos para si mesmos ou em favor dos mortos. Conseqüentemente, o comprador vivo ou morto seria liberado do purgatório por determinado tempo. No segundo exemplo, uma indulgência plenária, ou total, libertaria completamente a pessoa e raramente era oferecida. De qualquer modo, o dinheiro da venda de indulgências era usado para sustentar os projetos da Igreja, como por exemplo, no caso das vendas de Tetzel, a reconstrução da basílica de S.Pedro, em Roma.

Tetzel orquestrou cuidadosamente seus comparecimentos para excitar o interesse do público. Ele preparava seus sermões para agradar e persuadir, muitas vezes terminando com a famosa frase: “Quando uma moeda no cofre tilintar, uma alma do purgatório para o céu vai voar!”

Lutero simplesmente queria questionar o tráfico de indulgências da Igreja. Ele desafiou todos os que ali estavam para debater a prática do modo acadêmico adequado. Mas os eventos tomaram a questão das suas mãos.

Suas 95 Teses foram traduzidas para a língua popular e espalhadas pela Alemanha dentro de duas semanas. Lutero foi convidado para debater os aspectos teológicos em Heidelberg, durante o encontro regular dos agostinianos na primavera de 1518.  Então, ele passou por uma entrevista excruciante com o cardeal Cajetam, em Augsburg, naquele outono. Foi tão doloroso que, Lutero lembra, ele não podia nem andar a cavalo, porque seu intestino esteve solto da manhã à noite.

Oposição à autoridade

Lutero tinha boas razões para estar ansioso. O assunto rapidamente deixou de ser a respeito de indulgências, ou as indulgências de Tetzel, (que eram extraordinárias sob qualquer ponto de vista), mas a autoridade da Igreja: o papa tinha o direito de cobrar tais indulgências?

O assunto da questão original – se os seres humanos podem tirar do tesouro dos méritos de Cristo, confiados à Igreja, para alterar sua posição diante de Deus – não era uma grande preocupação para os oponentes de Lutero. Na verdade, eles eram repetidamente proibidos de debater com ele a esse respeito. A questão era, ao contrário, se a Igreja podia declarar que era assim e esperar obediência.

O assunto central do debate de Leipzig tornou-se público no fim de junho, em 1519, uma ocasião magnífica. Os estudantes de Wittenberg foram armados com bastões. O bispo local tentou proibir o debate, e o duque George da Saxônia, que o patrocinou, colocou uma guarda armada para garantir que tudo aconteceria dentro da ordem. No fim, ficou claro que Lutero estava formando uma revolução que atingiu a própria Igreja.

Em resumo, Lutero declarou que “um simples leigo armado com as Escrituras” era superior tanto ao papa e aos concílios sem elas. Dessa forma, Lutero ricamente mostrou-se merecedor da bula (documento papal), que o ameaçava de excomunhão, que veio em 1520. Ele respondeu a ela queimando tanto a bula quanto a lei do cânon.

Seus três ensaios mais importantes

Lutero, então, explicou nos mínimos detalhes as conseqüências práticas de sua teologia. Naquele verão ele escreveu os que são, indiscutivelmente, seus três tratados mais importantes: Discurso à nobreza cristã, O cativeiro babilônico da igreja e A liberdade do cristão. Com estes três ensaios, ele colocou a si mesmo e aos seus (então) muitos simpatizantes em oposição à quase toda a teologia e prática da cristandade no fim da Idade Média.

No primeiro, ele pede aos líderes que tomem em suas próprias mãos a reforma necessária da Igreja, ao mesmo tempo em que argumenta que todos os cristãos são sacerdotes.

No segundo, reduziu os sete sacramentos; primeiro a três (batismo, Ceia do Senhor e penitência), depois para apenas dois, enquanto alterava radicalmente seu caráter.

No terceiro, disse aos cristãos que eles eram livres da lei (em particular das leis da Igreja), ao mesmo tempo em que eram prisioneiros em amor do seu próximo.

“Não me retratarei”

A Dieta (ou encontro) de Worms, que aconteceu na primavera de 1521, foi, portanto, em um sentido, pouco mais do que um efeito marola de um navio que já havia zarpado. O imperador de Roma, Charles V, (que também era Charles I da Espanha) nunca tinha estado na Alemanha. Ele convocou a Dieta para encontrar os príncipes da Alemanha, os quais conhecia muito pouco e precisava cortejar desesperadamente. Mas este frei conhecido pelo nome de Lutero também precisava ser abordado.

Lutero deixou Wittenberg para estar presente na Dieta convencido de que finalmente teria a audiência que pediu em 1517. Quando foi introduzido na Dieta, Lutero ficou surpreso em ver o próprio imperador Charles V. Ele estava cercado pelos seus conselheiros e representantes de Roma, tropas espanholas, vestidos com seus melhores trajes de desfile, eleitores*, bispos, príncipes de território e representantes das grandes cidades. No meio desta augusta assembléia estava uma mesa com uma pilha de livros.

Lutero foi questionado se havia escrito os livros, e se havia alguma parte que ele desejava retratar. Ficou surpreso; aquilo não ia ser um debate judicial, mas um interrogatório. Lutero ficou bastante confuso, tropeçou e implorou por outro dia: “Isto toca Deus e sua Palavra. Isto afeta a salvação de almas. Eu imploro, dê-me mais tempo.”

Ele teve um dia e, de volta aos seus aposentos, escreveu: “Assim como Cristo é misericordioso, eu não retirarei nem um pingo do texto.”

No dia seguinte, os negócios da Dieta atrasaram o retorno de Lutero até tarde da noite. A luz das velas tremeluzia sobre a multidão de dignitários que se espremiam na grande sala.

Ele foi novamente questionado: “Você defende estes livros, todos juntos, ou você deseja retirar algo do que disse?” Lutero replicou com um pequeno discurso, o qual repetiu em latim.

Havia três tipos de livros na mesa, ele declarou. Alguns eram sobre a fé cristã e as boas obras, e estes ele certamente não corrigiria. Alguns atacavam o papado e corrigir estes seria encorajar à tirania. Finalmente, alguns atacavam o indivíduo (e, Lutero admitiu, talvez de maneira muito difícl), mas ainda estes não podiam ser corrigidos porque estas pessoas defendiam a tirania papal.

Com certeza, veio a resposta, um indivíduo não podia colocar dúvida na tradição de toda a Igreja! Então o examinador declarou: “Você deve dar uma resposta simples, clara e própria.. Você se retratará ou não?”

Lutero replicou: “A menos que eu possa ser instruído e convencido com evidências na Palavra de Deus ou com raciocínio aberto, claro e distinto… Então, não posso e não me retratarei, porque não é seguro ou sábio agir contra a consciência.”

Então, ele completou: “Isto é o que penso. Nada posso fazer diferente disso. Que Deus me ajude! Amém.”

Cavaleiro George

Quando as negociações não tiveram êxito em conseguir qualquer concessão, Lutero foi condenado. Ainda assim, recebeu salvo-conduto, como havia sido prometido antes de ele vir, mas somente por 21 dias.

Mas assim que Lutero e seus companheiros começaram a voltar para Wittenberg, quatro ou cinco cavaleiros armados sairam da floresta, arrancaram Lutero de sua carruagem e o arrastaram de lá às pressas. Rapidamente, ele foi informado de que fora seu príncipe, Elector Frederick, O Sábio, que o seqüestrara para mantê-lo a salvo. Logo chegou a Wartburg, um dos castelos de Frederick. Lutero era um fora-da-lei; qualquer um podia matá-lo sem temer represálias de uma corte da lei.

Lutero detestava sua estada forçada em Wartburg. Como “cavaleiro George” (sua nova identidade), ele agora comia como um nobre e sua nova alimentação irritava seu aparelho digestivo. Ele sentia falta de seus amigos em Wittenberg, e odiava ficar afastado da luta. Até fez planos de fazer uma visita à Universidade de Erfurt, onde estaria fora da jurisdição. Isto falhou, mas ele conseguiu um cavalo e fez uma viagem até Wittenberg, de onde retornou muito aliviado com o curso dos eventos entre seus amigos.

Apesar de suas reclamações sobre solidão forçada e sua própria “preguiça”, os dez meses no gelo de Lutero estão entre os mais produtivos de sua vida. As obras teológicas e acadêmicas continuaram, com seu Comentário sobre o Magnificat, tocante e quase autobiográfico, o incompleto Postillae e a tradução do Novo Testamento, do qual ele fez um rascunho em 11 semanas.

Mas o que começou com suas palestras e as 95 Teses estava agora virando um movimento popular. Ele sentia-se obrigado a responder às perguntas práticas das pessoas. Ele o fez sob forma de tratados, tais como Sobre a confissão, A abolição das missas particulares, e acima de tudo, Sobre os votos monásticos.

O último se destaca como um dos mais extraordinários trabalhos jamais escritos por uma figura pública. Por toda a Alemanha, em particular Wittenberg, monges e freiras estavam fugindo de seus monastérios e clausuras – alguns por razões de consciência, outros por pura conveniência. Desprezar a religião estava virando algo comum. Ao mesmo tempo, os defensores da velha Igreja insistiam na inviolabilidade dos votos monásticos.

Totalmente consistente com seu A liberdade do cristão, Lutero tomou uma estrada intermediária. Toda a questão era se e como alguém podia servir melhor ao próximo. Se alguém o fizesse sob as ordens sagradas, então que permanecesse assim. Por outro lado, os votos monásticos não eram uma prisão, e se alguém serve o próximo melhor fora do monastério ou da clausura, então que viva no mundo. A liberdade de servir, portanto, tornou-se um marco na Reforma Luterana Alemã.

Decisões controversas

Conforme sua revolução se expandia, Lutero foi cada vez mais se atirando na arena pública. Ele retornou abertamente a Wittenberg, no início da primavera de 1522, e sem pedir a permissão do eleitor, retomou o púlpito e pregou sobre a obrigação de amar o próximo. A decisão de retornar nasceu de sua convicção de que o movimento incipiente da Reforma (alguns afirmavam que os cristãos deviam se casar e que os monges e freiras deviam tornar-se leigos) não estava respeitando a liberdade cristã ou as consciências fracas.

Em tempo, Lutero foi forçado a tomar outras decisões, muitas das quais ainda são controversas.

Quando houve agitação, resultante da Guerra dos Camponeses, em 1524–1525, ele primeiro condenou os príncipes e depois os exortou a esmagar a revolta.

Quando Erasmus, famoso estudioso humanista, duvidou de que a verdade sobre se os humanos têm livre-arbítrio pudesse ser conhecida, Lutero replicou: “O Espírito Santo não é um cético”, e acusou Erasmus de não ser cristão.

Quando os reformadores suíços Zwingli e Oecolampadius questionaram se o corpo e sangue de Cristo estavam realmente nos elementos da Ceia do Senhor, Lutero respondeu: “Mera física!”, e ajudou a inflamar a controvérsia que por fim dividiu as Igrejas Luterana e Reformada.

Seu tremendo esforço em criar um novo clero e uma igreja reformada também trouxe as autoridades civis mais diretamente para o governo diário da Igreja.

Sua decisão de se casar com uma freira que fugiu, Katharina von Bora, escandalizou a muitos. Para Lutero, o choque era acordar de manhã com “tranças no travesseiro ao meu lado”.

Sobre o seu esforço contínuo de traduzir a Bíblia para o alemão, ele disse: “Se Deus quisesse que eu morresse pensando que sou um homem inteligente, não teria me colocado na missão de traduzir a Bíblia.”

Com todas estas decisões e ações, Lutero exibiu uma incrível consistência. O grande marco de sua vida é o modo como ele uniu sua personalidade e sua doutrina vigorosas. Para ele, a doutrina nunca foi uma questão meramente intelectual ou acadêmica. Pelo contrário, era a própria vida.  No prefácio de “Large Catechism” [Grande catequese], ele insiste em que os cristãos leiam e releiam suas catequeses para que “com tal leitura, conversa e meditação o Espírito Santo esteja presente e derrame sempre luz e fervor cada vez maiores e renovados”. Ele queria que todos os cristãos se tornassem pessoas ensinadas por Deus.

* No império romano, eleitor era qualquer príncipe alemão que podia votar e eleger um novo imperador. (N. da T.)

O que Lutero realmente disse nas 95 teses?

As 95 teses de Martinho Lutero são freqüentemente consideradas um “charter”, uma declaração corajosa da independência para a igreja protestante.

Mas quando ele escreveu quase 100 pontos de debate em latim, Lutero estava simplesmente convidando os seus companheiros acadêmicos para uma “Disputa sobre o poder e a eficácia das indulgências”, o título oficial da tese. (O debate nunca aconteceu, mas as teses foram traduzidas para o alemão e distribuídas largamente, criando um tumulto.)

O que eram indulgências? No sacramento da penitência, os cristãos confessavam pecados e achavam absolvição para eles. O processo de penitência envolvia satisfação – pagar a pena secular por aqueles pecados. Sob certas circunstâncias, alguém que estava realmente contrito e tinha confessado seus pecados podia receber remissão parcial (ou, raramente, completa) da punição secular comprando uma carta de indulgência.

Nas 95 teses, Lutero não atacou a idéia das indulgências, pois na tese 73 ele escreveu “… o Papa se levanta justamente contra aqueles que, por qualquer meio, planejam mal a venda de indulgências”.

Mas Lutero protestou fortemente contra o abuso das indulgências – mais recentemente sob a habilidosa venda de Johann Tetzel. E, no processo, Lutero derrubou, embora provavelmente não tenha percebido, os pilares que apoiavam muitas práticas no cristianismo medieval.

Afirmações-chave

Aqui estão treze amostras das teses de Lutero:

1. Quando nosso Senhor e Mestre, Jesus Cristo, diz “arrependam-se” etc, Ele quer dizer que toda a vida do fiel deve ser um arrependimento.

2. Esta afirmação não pode ser entendida do sacramento da penitência, isto é, da confissão e da satisfação, que é administrada pelo sacerdote.

27. Eles pregam a insensatez humana que finge que, ao ressoar o dinheiro no cofre, uma alma foge do purgatório.

32. Aqueles que acham que por causa de suas cartas de indulgências têm certeza da salvação, estarão eternamente perdidos junto com seus professores.

36. Todo cristão que se arrepende de verdade tem perdão total tanto da punição e culpa lançada sobre ele, mesmo sem as cartas de indulgência.

37. Todo cristão verdadeiro, seja vivo ou morto, tem uma parte nos benefícios de Cristo e da igreja, pois Deus tem lhe dado isto, mesmo sem cartas de indulgência.

45. Os cristãos devem ser ensinados que quem ver uma pessoa necessitada, ao invés de ajudá-la, usa seu dinheiro para uma indulgência, não obtém uma indulgência do Papa, mas o desprazer de Deus.

51. Os cristãos devem ser ensinados que o Papa deve dar – e daria – os seus próprios recursos para os pobres, de quem certos pregadores de indulgências extraem dinheiro, mesmo se ele tivesse que vender a Catedral de S. Pedro para fazer isso.

81. Esta pregação desavergonhada de perdões, torna difícil para qualquer homem instruído defender a honra do Papa, contra a calúnia ou responder as perguntas indubitavelmente sagazes dos leigos.

82. Por exemplo: “Por que o Papa não esvazia o purgatório por amor… pois afinal, ele libera incontáveis almas por dinheiro sórdido contribuído para construir uma catedral?”

90. Suprimir estes argumentos inteligentes por parte dos leigos, pela força ao invés de respondê-los com razões adequadas seria expor a igreja e o Papa ao ridículo de seus inimigos e trazer infelicidade aos cristãos.

94. Nós devemos alertar os cristãos a seguir a Cristo, seu Cabeça, através de punição, morte e inferno.

95. E assim, deixe-os por sua confiança em entrar no céu através de muitas tribulações ao invés de alguma falsa segurança e paz.

Dentro de dois meses, Johann Tetzel revidou com suas próprias teses, incluindo: “os cristãos devem ser ensinados que o Papa, por autoridade e jurisdição, é superior a toda a Igreja Católica e seus conselhos, e que eles devem obedecer humildemente seus estatutos”.

Fonte: Cristianismo Hoje

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