Os jardins de Satã

Faz tempo que não ouço uma pregação bíblica tratando de arrependimento de obras mortas, necessidade de confissão de pecados; necessidade de salvação, da existência de céu e inferno; de galardão e condenação eterna.
Observo que a partir do ano 2000 começou um esvaziamento da verdadeira pregação bíblica em detrimento de temas que agradam os ouvintes em suas necessidades diárias, como vencer as dificuldades da vida; resolver problemas da família e mensagens de prosperidade através da fé e de Jesus Cristo.

Por que o ano 2000? Porque em minhas reflexões sobre a história, o mundo espiritual e a igreja venho observando que a mudança de milênio não correu apenas na esfera do cronós – palavra grega para tempo finito, tempo do calendário – mas também na esfera espiritual. Penso que o que tanto temíamos e combatíamos a partir da década dos anos 1970 – Nova Era, Satanismo etc. – não chegou como esperávamos. Aquela geração pensava que a apostasia viria diretamente dessa esfera visível, quando na realidade veio de uma esfera invisível.
As mudanças no mundo espiritual pegaram a igreja de surpresa, porque a “invasão” de demônios para dentro do seio da igreja veio de forma sutil, às vezes em forma de cultura, outras vezes como desculpa de que é preciso fazer mudanças e mudar os meios de se alcançar as pessoas, mudando-se o invólucro. Só que houve também uma mudança de conteúdo. Não foi só o invólucro ou a estampa que mudou, mas o conteúdo também.
Ao longo de meus cinquenta e um anos de ministério acompanhei muitas mudanças culturais e participei de muitas delas, como na área do louvor e adoração, da música, da pregação, dos usos e costumes etc. Mas, confesso que foram todas mudanças positivas ou reformistas trazendo a igreja para o centro de sua fé, e o louvor foi usado para isto com canções que expressavam doutrina cristã, fé e se cantava a Bíblia. Até mesmo as danças em algum momento de festividade eram uma expressão meramente cultural/teatral com o fim de comunicar uma verdade. Pois que tudo era feito sob intensa graça de Deus, com manifestações do poder de Deus na cura, libertação e derramamento do Espírito Santo sobre as pessoas.
Hoje, no entanto, as mesmas coisas estão acontecendo sem resultados positivos, sem salvação, enchimento do Espírito Santo e transformação de vida, mas, devo confessar que os cultos apelam para os sentimentos de alma e não para as necessidades do Espírito. Até mesmo a teatralidade antes usada para conversão e enchimento do Espírito é hoje usada para diversão e adaptação cultural da igreja ao sistema do mundo.
As mudanças no mundo espiritual a partir do ano 2000 foram entrando na igreja de forma sutil, colorida e alegre e, aos poucos foi afastando a presença do Espírito Santo de sua missão transformadora na igreja. O que outrora era o jardim de Deus agora se tornou jardim do diabo – com o colorido atraente do mundo que encanta, mas não transforma.
Por outro lado, as redes sociais desviaram os olhos dos cristãos para o que é político colocando-os a favor ou contra; para o que é de seu gosto pessoal e a rede foi invadida por um apelo a uma igreja mais conivente, perdoadora e conciliadora – se por um lado isto é bom, porque os crentes passaram a respeitar as opiniões diversas, por outro é mais perverso que bom! Perverso, porque não confronta o pecado das pessoas que são batizadas na igreja, enchem os templos, mas continuam as mesmas. Apenas mudaram de religião como se muda de clube.
O que mudou a partir do ano 2000? Vou tentar nominar alguns fatos:
1. Faltam mensagens de confrontação ao pecador. Consequentemente os chamamentos a aceitar a Cristo e a fazer uma confissão de fé, que era sempre feito no fim do culto depois da pregação deu lugar a um chamamento mais coletivo, para que ninguém venha sozinho à frente e sentir-se o único pecador.
3. As pregações tornaram-se menos bíblicas – ainda que se usem textos bíblicos, e mais amenas, sem confrontação com o pecado.
4. Observa-se uma falta de profundidade teológica nas pregações. Passa-se ao ouvinte aspectos culturais da época bíblica, mas quase nada do que o texto significa para os dias atuais.
5. Vários elementos dos movimentos neopentecostais entraram na igreja, como cultos de libertação e cura, como se num culto normal não se possa orar pelos enfermos, nem se ore por libertação e se expulsem os demônios; entraram as mensagens de prosperidade e de fé que foram inseridas na pregação deixando-se de lado a mensagem da cruz.
6. Falta de tempo de oração antes ou durante o andamento do culto. Aquilo que era comum na igreja primitiva – orar, adorar e compartilhar a palavra de Deus – agora virou departamento na igreja. O departamento da oração tem seu dia de orar; o culto de louvor e ações de graças é em algum dia especial da semana. E, assim, departamentalizou-se o culto eliminando-se a oração para outro dia; apelos para que as pessoas sejam cheias do Espírito Santo podem interferir no horário de se terminar o culto, porque, e se o Espírito resolver operar? Existe certo medo de que o culto se prolongue demais se isto acontecer!
7. No aspecto cultural é onde reside o maior perigo. Porque nem sempre as novas culturas são próprias para uma igreja que prega arrependimento e mensagem do reino de Deus. Já escrevi aqui sobre cultura e espiritualidade e afirmei que é possível as duas coisas andarem juntas, no entanto, quando falta a espiritualidade, a tendência é que prevalece apenas o que é cultural, geralmente travestido de uma falsa espiritualidade.
E por aí vai!