{"id":2131,"date":"2016-06-25T20:12:26","date_gmt":"2016-06-25T22:12:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/?p=2131"},"modified":"2017-12-31T10:52:36","modified_gmt":"2017-12-31T12:52:36","slug":"marciao-suas-heresias-e-a-finalizacao-do-canone-sagrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/?p=2131","title":{"rendered":"Marci\u00e3o, suas heresias e a finaliza\u00e7\u00e3o do c\u00e2none sagrado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 pelo ano 140 d.C. a igreja em Roma recebeu a visita de um homem chamado Marci\u00e3o, natural da \u00c1sia Menor que por este tempo se engajara em controv\u00e9rsias doutrin\u00e1rias com alguns dos l\u00edderes de sua regi\u00e3o. Exp\u00f4s seus pensamentos aos presb\u00edteros de Roma, e quando o que ele exp\u00f4s se tornou inaceit\u00e1vel aos presb\u00edteros, ele se afastou da comunh\u00e3o com eles e come\u00e7ou sua pr\u00f3pria igreja.<!--more--><br \/>\nFalaremos um pouco mais sobre este homem adiante (ver p 251).<br \/>\nDestacamos aqui que Marci\u00e3o repudiava totalmente a autoridade do Antigo Testamento, e tamb\u00e9m n\u00e3o aceitava a autoridade dos ap\u00f3stolos de Jesus, a n\u00e3o ser Paulo. Ele afirmava que os demais ap\u00f3stolos e seus disc\u00edpulos haviam corrompido o ensinamento de Jesus, misturando-o com as cren\u00e7as judaicas. Na realidade ele cria que o pr\u00f3prio Jesus, longe de aceitar a autoridade do Antigo Testamento veio para liberar as pessoas da escravid\u00e3o do Deus do AT, revelando-lhes um Deus superior, bondoso e misericordioso, a quem Jesus chamava de Pai e que esta verdade teria ficado obscurecida nos registros dos evangelhos por corrup\u00e7\u00f5es judaizantes. Os escritos de Paulo, o \u00fanico dos ap\u00f3stolos que n\u00e3o se apostatou dos ensinamentos de Jesus, tamb\u00e9m sofreu a influ\u00eancia dos judaizantes, e precisavam, portanto, do discernimento e do escrut\u00ednio de Marci\u00e3o para que fossem restaurados ao seu texto verdadeiro e original. Na realidade, Marci\u00e3o compilou um c\u00e2none das escrituras para substituir o c\u00e2none do Antigo Testamento, que para ele fazia parte de uma ordem abolida e obsoleta. Este novo c\u00e2none consistia de duas partes: Uma parte chamada de \u201co evangelho\u201d (uma edi\u00e7\u00e3o \u201cpurificada\u201d do evangelho de Lucas, mais condizente), e a outra chamada de \u201cO ap\u00f3stolo\u201d (uma edi\u00e7\u00e3o similar \u201cpurificada\u201d das primeiras dez ep\u00edstolas paulinas).<br \/>\nA compila\u00e7\u00e3o deste Canon foi um desafio e um incentivo \u00e0 igreja de Roma e as demais igrejas que tinham a mesma doutrina. Se essas igrejas negassem que o c\u00e2none de Marci\u00e3o era verdadeiro, ent\u00e3o, tinham pela frente o desafio de mostrar qual era o verdadeiro c\u00e2none b\u00edblico. Assim, reagindo aos ensinamentos de Marci\u00e3o \u00e9 que encontramos as mais antigas e expl\u00edcitas declara\u00e7\u00f5es pelo lado da igreja de Roma a respeito da defini\u00e7\u00e3o do c\u00e2none crist\u00e3o. Isto n\u00e3o quer dizer que os l\u00edderes da igreja cat\u00f3lica (at\u00e9 esse tempo a igreja era cat\u00f3lica, isto \u00e9, universal, e n\u00e3o romana. NT) n\u00e3o tivesse um c\u00e2none definido e reconhecido. De fato, alguns gn\u00f3sticos concordavam substancialmente com os l\u00edderes da igreja em Roma quanto aos limites do c\u00e2none do Novo Testamento. Portanto, sobre o testemunho de Tertuliano, o l\u00edder gn\u00f3stico Valentino, contempor\u00e2neo de Marci\u00e3o, aparentemente usava o c\u00e2none completo da igreja cat\u00f3lica \u2013 evidentemente um c\u00e2none maior do que o de Marci\u00e3o. E o testemunho de Tertuliano foi confirmado depois que se descobriu o texto Evangelho da Verdade de Valentino. \u201cAo redor de 140-150 d.C., uma cole\u00e7\u00e3o de escritos ficou conhecida em Roma e aceitas como verdadeiras e que eram id\u00eanticos aos do nosso Novo Testamento\u201d [1]<br \/>\nA resposta comum da igreja em Roma \u00e0s rea\u00e7\u00f5es de Marci\u00e3o foi: N\u00e3o rejeitamos os livros do Antigo Testamento, n\u00f3s os aceitamos porque Cristo os citou com muita autoridade. A autoridade divina dos livros dessa nova era (referindo-se ao NT), n\u00e3o anula nem supera a do AT, mas caminha lado a lado com ele. Quanto a esses livros \u201cOs Evangelhos\u201d, que reconhecemos conter n\u00e3o apenas um relato do evangelho, mas quatro relatos, incluindo a verdadeira vers\u00e3o que Marci\u00e3o publicou completamente mutilado. \u201cO Ap\u00f3stolo\u201d que reconhecemos que cont\u00e9m as treze ep\u00edstolas de Paulo, mas dos demais ap\u00f3stolos tamb\u00e9m. E conectando \u201co Evangelho\u201d e \u201cO Ap\u00f3stolo\u201d, percebe-se uma \u00eanfase especial no segundo volume da hist\u00f3ria escrita por Lucas, que Marci\u00e3o n\u00e3o incluiu em seu c\u00e2none (O livro de Atos). Este documento, conforme \u00e9 apresentado, comprova irrefutavelmente o apostolado de Paulo e apresenta evid\u00eancias do apostolado de outros ap\u00f3stolos tamb\u00e9m. Esse eixo funcional do c\u00e2none crist\u00e3o \u00e9 apreciado agora, como n\u00e3o era antes, e tal fun\u00e7\u00e3o \u00e9 enfatizada por haver sido colocado entre \u201cO Evangelho\u201d e \u201cO Ap\u00f3stolo\u201d. \u00c9 daquele tempo, sem d\u00favida, que veio a ser chamado de \u201cAtos dos Ap\u00f3stolos\u201d, ou ainda, como um documento anti-marcionita exageradamente o chama de \u201cAtos de Todos os Ap\u00f3stolos\u201d.<br \/>\nA primeira men\u00e7\u00e3o que se conhece do t\u00edtulo \u201cAtos dos Ap\u00f3stolos\u201d vem de uma s\u00e9rie de pref\u00e1cios escritos para os quatro evangelhos, como parte da rea\u00e7\u00e3o aos ensinamentos de Marci\u00e3o. S\u00e3o conhecidos como Pr\u00f3logos Anti-Marci\u00e3o aos Evangelhos, e tinha como alvo estabelecer as raz\u00f5es de se reconhecer os quatro evangelhos como can\u00f4nicos. Foram escritos primeiramente em grego, no \u00faltimo quarto do segundo s\u00e9culo. O pr\u00f3logo de Mateus desapareceu; os de Marcos e Jo\u00e3o existem em tradu\u00e7\u00f5es latinas, e quanto a Lucas permanece no original grego bem como em latim.<br \/>\nO pr\u00f3logo ao evangelho de Marcos \u00e9 incompleto, e um fragmento diz:<br \/>\n\u201cAssim, Marcos afirma, o Marcos chamado de \u201cselo-indicador\u201d porque seus dedos eram curtos comparados \u00e0 propor\u00e7\u00e3o f\u00edsica do seu corpo. Ele era o int\u00e9rprete de Pedro, e depois da partida de Pedro entregou-se \u00e0 tarefa de escrever o evangelho em alguma parte da It\u00e1lia\u201d.<br \/>\nEste relato do evangelho de Marcos \u00e9 baseado nas declara\u00e7\u00f5es de Papia, bispo de Hier\u00e1polis na Frigia, nos primeiros anos do segundo s\u00e9culo, que escreveu uma obra em cinco volumes intitulada An Exposition of the Dominical Oracles. Mas, a informa\u00e7\u00e3o de que Marcos era chamado de \u201cselo-indicador\u201d n\u00e3o sobreviveu aos fragmentos dos escritos de Papias. [2] O apelido pode ter surgido devido ao que constava no pr\u00f3logo. Recentemente surgiram relatos de que a ponta de seus dedos foram decepadas quando ele se interp\u00f4s diante de uma espada no Jardim do Gets\u00eamane na noite em que Jesus foi preso. [3] Mas, possivelmente o ep\u00edteto pode ter sido atribu\u00eddo, n\u00e3o \u00e0s suas m\u00e3os, mas ao Evangelho que escreveu, porque o final de seu evangelho parece que foi mutilado. O ep\u00edteto, neste caso, n\u00e3o deveria ser dado ao evangelista, mas ao seu evangelho, porque o final do evangelho parece ter sido mutilado [4] era fruto de uma tradi\u00e7\u00e3o que o escritor do pr\u00f3logo n\u00e3o entendeu corretamente.<br \/>\nEnt\u00e3o, neste pr\u00f3logo vem uma longa descri\u00e7\u00e3o de Lucas:<br \/>\n\u201cLucas era natural de Antioquia da S\u00edria, m\u00e9dico, disc\u00edpulo dos ap\u00f3stolos. Mais tarde se juntou a Paulo at\u00e9 que este foi decapitado, servindo ao Senhor sem empecilhos porque n\u00e3o tinha esposa nem filhos. Morreu na Be\u00f3cia (distrito da Gr\u00e9cia) aos 84 anos de idade, cheio do Esp\u00edrito Santo. Assim, depois que dois evangelhos haviam sido escritos \u2013 Mateus na Jud\u00e9ia e Marcos na It\u00e1lia, Lucas escreveu seu evangelho na Acaia, por inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo\u201d.<br \/>\n\u201cLucas afirmavam que os outros evangelhos foram escritos antes do dele, mas que ele tinha a obriga\u00e7\u00e3o de enviar aos crentes gent\u00edlicos um relato completo do curso dos acontecimentos, e deveria faz\u00ea-lo o mais corretamente poss\u00edvel. Seu objetivo era evitar que os gentios ficassem cativos das f\u00e1bulas judaicas, e enganados por heresias e imagina\u00e7\u00f5es v\u00e3s, afastando-se, assim, da verdade. Portanto, logo no come\u00e7o, Lucas nos relatou a hist\u00f3ria do nascimento de Jo\u00e3o Batista como a parte mais importante do relato evang\u00e9lico, porque Jo\u00e3o marca o come\u00e7o do evangelho, pois ele foi o precursor de nosso Senhor, associando-se com ele na prepara\u00e7\u00e3o do Evangelho, na administra\u00e7\u00e3o do batismo e na comunh\u00e3o do Esp\u00edrito. Este minist\u00e9rio de Jo\u00e3o foi predito pelos doze profetas. [5] Mais tarde o mesmo Lucas escreveu os Atos dos Ap\u00f3stolos. Mais tarde ainda o ap\u00f3stolo Jo\u00e3o escreveu o Apocalipse na ilha de Patmos, e depois o seu evangelho na \u00c1sia.\u201d<br \/>\nA declara\u00e7\u00e3o de que Lucas escreveu seu evangelho na Acaia para os crist\u00e3os gregos, talvez tenha como objetivo dar aos crist\u00e3os gregos um dos evangelhos sin\u00f3pticos, sendo que os demais foram escritos para os judeus da Jud\u00e9ia e da It\u00e1lia respectivamente. A \u00eanfase do pr\u00f3logo anti-marcionita \u00e9 \u00f3bvia quando refletimos que Marci\u00e3o cortou (dentre outras coisas) todo o relato do nascimento e do minist\u00e9rio de Jo\u00e3o Batista de sua edi\u00e7\u00e3o do evangelho de Lucas, j\u00e1 que o relato ligava intimamente a hist\u00f3ria de Jesus com a ordem do Antigo Testamento, que Marci\u00e3o repudiava. A refer\u00eancia aos \u201cAtos dos Ap\u00f3stolos\u201d, a primeira ocorr\u00eancia desse nome \u2013 lembra-nos da omiss\u00e3o desta obra do c\u00e2none de Marci\u00e3o, da\u00ed a import\u00e2ncia que a igreja deu ao livro de Atos.Quanto \u00e0s refer\u00eancias ao ap\u00f3stolo Jo\u00e3o, que est\u00e1 em destaque no pr\u00f3logo anti-marcionita do evangelho de Jo\u00e3o, e que deixa a todos intrigados \u00e9:<br \/>\n\u201cO evangelho de Jo\u00e3o foi publicado e entregue \u00e0s igrejas pelo pr\u00f3prio Jo\u00e3o quando ele ainda estava vivo, conforme o relato de Papia de Hier\u00f3polis, disc\u00edpulo amado de Jo\u00e3o cujo relato est\u00e1 em seus cinco livros exeg\u00e9ticos. Ele escreveu o evangelho de Jo\u00e3o ditado pelo pr\u00f3prio Jo\u00e3o. Mas, o her\u00e9tico Marci\u00e3o era rejeitado por Jo\u00e3o, depois ser desaprovado em seus pontos de vista contr\u00e1rios. Marci\u00e3o havia levado cartas de seus escritos a ele de seus irm\u00e3os no Ponto\u201d.<br \/>\nAgora, aqui est\u00e1 o ber\u00e7o dos mais fascinantes problemas. O texto latino, onde este pr\u00f3logo ficou preservado, est\u00e1 inintelig\u00edvel ou corrupto em v\u00e1rias partes. Fizemos uma emenda t\u00e1cita numa das corruptelas onde diz \u201cseus cinco livros exeg\u00e9ticos\u201d. Ali a fonte da corruptela \u00e9 evidente e a emenda tamb\u00e9m. A refer\u00eancia \u00e9 sobre o texto acima mencionado de Papia, Exposition of the Dominical Oracles em cinco volumes. Era Papia realmente um disc\u00edpulo de Jo\u00e3o como afirma o pr\u00f3logo? Irineu que conhecia as obras de Papia em sua forma original (e n\u00f3s n\u00e3o a conhecemos como ele na \u00e9poca), e que se utilizou dos textos, afirma que, de fato, Papia era disc\u00edpulo de Jo\u00e3o. Eus\u00e9bio tamb\u00e9m o confirmava, ainda que n\u00e3o admirasse a intelig\u00eancia de Papia e n\u00e3o gostasse de seus pontos de vistas escatol\u00f3gicos.<br \/>\nComo Papia (70-150) era contempor\u00e2neo de Policarpo, n\u00e3o existe problema cronol\u00f3gico nesta declara\u00e7\u00e3o, e dever\u00edamos aceit\u00e1-la como verdade. Ser\u00e1 que Papia agiu sob as ordens de Jo\u00e3o como um amanuense? \u00c9 poss\u00edvel, mas mais prov\u00e1vel \u00e9 que o pr\u00f3logo esteja baseado num mal entendimento de Papia, que disse, na realidade, que \u201celes\u201d (isto \u00e9, o c\u00edrculo \u00edntimo dos disc\u00edpulos de Jo\u00e3o) escreveram o evangelho de Jo\u00e3o sob a instru\u00e7\u00e3o deste, e n\u00e3o que Papia tivesse escrito sozinho. Mas, e as refer\u00eancias a Marci\u00e3o? Foi ele contempor\u00e2neo de Jo\u00e3o? Mesmo que distingu\u00edssemos dois Jo\u00e3o neste per\u00edodo residentes em \u00c9feso, Jo\u00e3o o ap\u00f3stolo e Jo\u00e3o o presb\u00edtero, e supondo que este \u00faltimo fosse o motivo do pr\u00f3logo (que acredito n\u00e3o seja), pode-se datar a atividade her\u00e9tica de Marci\u00e3o na \u00e9poca de Jo\u00e3o, o presb\u00edtero? [6] Creio que n\u00e3o. \u00c9 mais prov\u00e1vel que esta declara\u00e7\u00e3o do pr\u00f3logo seja fruto de uma leitura mal feita de Papia, e devemos inferir de que n\u00e3o foi Jo\u00e3o, mas o pr\u00f3prio Papia que denunciou Marci\u00e3o quando o heresiarca chegou a Hier\u00e1polis vindo da prov\u00edncia de Ponto. (Em v\u00e1rios lugares temos registros [7] de que, quando Marci\u00e3o perguntou a Policarpo de Esmirna se o reconhecia, Policarpo teria respondido: \u201cSim, reconhe\u00e7o o primog\u00eanito de Sat\u00e3!\u201d). Conclu\u00edmos, portanto, que o escritor ou um dos copistas de nosso pr\u00f3logo era uma pessoa ignorante, mas \u00e9 melhor enxergar pela \u00f3tica errada de um ignorante, do que visualizar a forma original de uma declara\u00e7\u00e3o que foi corrigida, por um homem inteligente que quer que se concorde com o que ele pensa ser a verdade. Certamente que todo esfor\u00e7o foi feito para mostrar como Marci\u00e3o e suas obras foram repudiadas pelas autoridades respeit\u00e1veis da \u00e9poca.<br \/>\nTexto muratoriano<br \/>\nOutro resultado da rea\u00e7\u00e3o anti-Marci\u00e3o, n\u00e3o t\u00e3o anti-Marci\u00e3o como estes pr\u00f3logos aos evangelhos, \u00e9 uma lista dos livros do Novo Testamento que possivelmente represente o c\u00e2none aceito em Roma no fim do segundo s\u00e9culo. Esta lista foi encontrada em 1740 pelo antiqu\u00e1rio L. A. Muratori, e \u00e9 chamado de c\u00e2none Muratoriano. \u00c9 um texto em latim, mas o texto original era em grego. Est\u00e1 mutilado no come\u00e7o, mas como as partes seguintes chamam Lucas de terceiro evangelho, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil assegurar que Mateus e Marcos foram originalmente chamados de primeiro e segundo evangelhos. Abaixo uma tradu\u00e7\u00e3o da parte que p\u00f4de ser lida:<br \/>\n\u201c\u2026 O terceiro livro dos evangelhos, conforme Lucas, foi escrito em ordem por Lucas o m\u00e9dico, em seu pr\u00f3prio nome logo depois da ascens\u00e3o de Cristo, quando Paulo o levou consigo como disc\u00edpulo e companheiro de viagem: Ele (Lucas) nunca viu nosso Senhor na carne. Lucas, ent\u00e3o, at\u00e9 onde p\u00f4de tra\u00e7ar o curso dos acontecimentos, come\u00e7a sua narrativa do nascimento de Jo\u00e3o Batista\u201d.<br \/>\n\u201cO quarto evangelho \u00e9 o de Jo\u00e3o, um dos disc\u00edpulos. Quando os disc\u00edpulos de Jo\u00e3o e os bispos lhe solicitaram que escrevesse, ele disse: \u201cJejuem comigo durante tr\u00eas dias, come\u00e7ando hoje, e o que for revelado a qualquer um, ser\u00e1 compartilhado uns com os outros\u201d. Na mesma noite Andr\u00e9, um dos ap\u00f3stolos teve uma revela\u00e7\u00e3o de que Jo\u00e3o deveria se dedicar a escrever a hist\u00f3ria, e eles juntos fariam a revis\u00e3o. E assim, mesmo que os v\u00e1rios evangelhos tenham come\u00e7os diferentes, feitos por eles, diferen\u00e7a alguma faz para a f\u00e9 dos crist\u00e3os, porque o mesmo Esp\u00edrito controlador estava com eles durante toda a hist\u00f3ria do nascimento do Senhor, sua paix\u00e3o, ressurrei\u00e7\u00e3o, sua conversa com os disc\u00edpulos e seus dois adventos \u2013 o primeiro humilde e sem honra, que \u00e9 sua primeira vinda; o segundo em poder real e em gl\u00f3ria, sua segunda vinda. O que os maravilhou \u00e9 que Jo\u00e3o em suas ep\u00edstolas fala de suas experi\u00eancias, uma a uma, dizendo: \u201cO que era desde o princ\u00edpio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos pr\u00f3prios olhos, o que contemplamos, e as nossas m\u00e3os apalparam, com respeito ao Verbo da vida\u201d (1 Jo 1.1 e ss.). Porque nessas palavras Jo\u00e3o n\u00e3o se apresenta apenas como um espectador e ouvinte, mas como escritor de todas as maravilhosas obras pela ordem.\u201d<br \/>\n\u201cEnt\u00e3o, os Atos de todos os ap\u00f3stolos foram escritos em um livro. Lucas fala ao \u201cexcelent\u00edssimo Te\u00f3filo\u201d de que os v\u00e1rios acontecimentos tiveram lugar em sua presen\u00e7a, e de fato ele omite a morte de Pedro, bem como a viagem de Paulo quando este saiu de Roma em direitura da Espanha.\u201d<br \/>\nAgora, as ep\u00edstolas escritas por Paulo por si mesmas relatam a quem quiser onde eles estavam, para onde foram enviados e por que. Em primeiro lugar pro\u00edbe aos cor\u00edntios de se envolverem em divis\u00f5es e heresias; aos g\u00e1latas pro\u00edbe a circuncis\u00e3o, mas aos romanos escreveu demoradamente a respeito da sequ\u00eancia das escrituras, destacando que Cristo era o tema principal. N\u00e3o sem faz necess\u00e1rio que examinemos os detalhes, j\u00e1 que o aben\u00e7oado Paulo, ele mesmo, seguindo o plano de Jo\u00e3o, ap\u00f3stolo antes dele, escreveu nominalmente para sete igrejas na seguinte ordem: (1) Aos corintos, (2) aos ef\u00e9sios; (3) aos filipenses; (4) aos colossenses; (5) aos g\u00e1latas; (6) aos tessalonicenses e (7) aos romanos. (Aos cor\u00edntios e aos tessalonicenses, de fato, ele escreveu em duas partes, s\u00f3 pelo fato de algu\u00e9m querer contradizer). E a igreja espalhada pelo mundo \u00e9 reconhecidamente uma, pois Jo\u00e3o, no Apocalipse, mesmo escrevendo \u00e0s sete igrejas, fala, de fato, para todas elas\u201d.<br \/>\n\u201cAl\u00e9m disso, uma ep\u00edstola (de Paulo) foi escrita a Filemom, uma para Tito e duas para Tim\u00f3teo, de boa-vontade e como amizade, para honra da igreja cat\u00f3lica, a fim de p\u00f4r em ordem os procedimentos eclesi\u00e1sticos. Existe tamb\u00e9m uma poss\u00edvel ep\u00edstola enviada aos de Laodic\u00e9ia e outra aos alexandrinos \u2013 ambas em nome de Paulo conforme a heresia de Marci\u00e3o, e muitas outras que n\u00e3o podem ser admitidas na igreja cat\u00f3lica, pois n\u00e3o se pode misturar veneno com mel\u201d.<br \/>\n\u201cUma ep\u00edstola de Judas e duas j\u00e1 mencionadas escritas por Jo\u00e3o est\u00e3o inclu\u00eddas na lista cat\u00f3lica, e tamb\u00e9m o livro de Sabedoria escrito pelos amigos de Salom\u00e3o em sua mem\u00f3ria. [8] Chegaram at\u00e9 n\u00f3s o apenas o Apocalipse de Jo\u00e3o e as cartas de Pedro, mas alguns recusavam a ler estas \u00faltimas na igreja.\u201d<br \/>\n\u201cQuanto ao Pastor este foi recentemente escrito na cidade de Roma por Hermas, durante o tempo em que seu irm\u00e3o Pio era bispo da cidade de Roma. E, portanto, deveria ser lido, mas n\u00e3o deve ser publicado \u00e0s pessoas da igreja juntamente com os profetas, cujo n\u00famero \u00e9 completo, ou com os ap\u00f3stolos dos \u00faltimos dias. Mas os escritos de Arsinoite Valentino e seus associados n\u00e3o s\u00e3o admitidos de forma alguma. Escreveram um novo livro de Salmos para Marci\u00e3o juntamente com Basilides e o asi\u00e1tico fundador de uma seita na Frigia\u201d.<br \/>\nAs informa\u00e7\u00f5es miscel\u00e2neas referidas nesta lista sobre a origem individual dos livros do Novo Testamento n\u00e3o t\u00eam valor algum; suas declara\u00e7\u00f5es a respeito dos evangelhos, por exemplo, merecem menos considera\u00e7\u00f5es que aquelas do pr\u00f3logo anti-Marci\u00e3o. O valor do documento est\u00e1 na declara\u00e7\u00e3o de que v\u00e1rios livros foram reconhecidos como can\u00f4nicos na igreja de Roma no final do segundo s\u00e9culo. \u2013 Os quatro evangelhos, Atos, as treze ep\u00edstolas de Paulo, juntamente com a ep\u00edstola de Judas, duas ep\u00edstolas de Jo\u00e3o (possivelmente) a segunda e a terceira eram reconhecidas como sendo uma apenas; e o Apocalipse de Jo\u00e3o. E foi inclu\u00eddo um segundo Apocalipse atribu\u00eddo a Pedro. Conhecemos este livro. Outros escritores crist\u00e3os relatam que era lido nas igrejas, e o retrato l\u00farido dos tormentos dos que s\u00e3o condenados permeiam a imagem medieval do tema, como aquelas do Inferno de Dante. O que surpreende \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o da primeira ep\u00edstola de Pedro no c\u00e2none romano. Zahn achava que a refer\u00eancia ao Apocalipse de Pedro era uma corruptela das ep\u00edstolas de Pedro. Ele sugeriu que as palavras em it\u00e1lico ca\u00edssem fora, como segue: \u201cO Apocalipse de Jo\u00e3o e a ep\u00edstola de Pedro. Existe outra ep\u00edstola de Pedro, que algumas pessoas recusam a ler nas igrejas\u201d. [9] Mas aqui o texto dos fragmentos n\u00e3o precisa de emendas, e parece que 1 Pedro foi deixado de lado acidentalmente por algum escriba. O Pastor de Hermas que j\u00e1 mencionamos, recomenda sua leitura com o prop\u00f3sito de devo\u00e7\u00e3o e edifica\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o foi inclu\u00eddo entre os escritos can\u00f4nicos \u2013 os dos ap\u00f3stolos e profetas. (Existe a id\u00e9ia de que, se a lista dos escritos prof\u00e9ticos n\u00e3o tivesse sido encerrada, o Pastor se encaixaria no c\u00e2none dos escritos apost\u00f3licos). Os escritos de Marci\u00e3o e os livros gn\u00f3sticos foram banidos juntamente.<br \/>\nEm resumo, temos aqui o reconhecimento de praticamente o mesmo Novo Testamento que usamos. A omiss\u00e3o da ep\u00edstola aos Hebreus \u00e9 digna de nota, porque Clemente j\u00e1 a conhecia um s\u00e9culo antes; provavelmente a igreja de Roma no final do segundo s\u00e9culo sabia que n\u00e3o se tratava da obra de um ap\u00f3stolo. Tiago e 2 Pedro tamb\u00e9m foram perdidos.<br \/>\nIrineu, cujos escritos s\u00e3o contempor\u00e2neos da lista Muratoriana, apresenta a mesma lista. As evid\u00eancias de Irineu s\u00e3o importantes por causa de seus contatos universais: Ele passou a juventude na \u00c1sia Menor e a idade adulta em Gaul, e estava em contato sempre com a igreja de Roma. Al\u00e9m de reconhecer os quatro evangelhos, ele confirma a canonicidade de Atos, das ep\u00edstolas paulinas (exce\u00e7\u00e3o de Filemon, que ele n\u00e3o teve oportunidade de mencionar), de 1 Pedro, 1 Jo\u00e3o e Apocalipse. Ele menciona o Pastor de Hermas como \u201cescritura\u201d, mas n\u00e3o o inclui na lista dos escritos apost\u00f3licos.<br \/>\nOr\u00edgenes de Alexandria, e mais tarde de Cesar\u00e9ia, escrevendo l\u00e1 por 230 nomeia esses mesmos livros (incluindo Filemon) como de canonicidade reconhecida, e acrescenta que Hebreus, 2 Pedro, e 2 e 3 Jo\u00e3o, Tiago e Judas, com a Ep\u00edstola de Barnab\u00e9, o Pastor de Hermas, a Didaqu\u00ea e o Evangelho segundo Hebreus eram disputados como epistolares. (A Ep\u00edstola de Barnab\u00e9 era um tratado escrito entre os anos 70 e 135 provando que os judeus confundiram o sentido real dos cerimoniais do Antigo Testamento ao interpret\u00e1-los literalmente. O Evangelho segundo Hebreus prece ter sido uma varia\u00e7\u00e3o do evangelho de Mateus usado por alguns grupos de judeus crist\u00e3os). Basicamente \u00e0 \u00e9poca de Or\u00edgenes j\u00e1 havia um consenso sobre a maioria dos livros do Novo Testamento; havia uma pequena margem de d\u00favida sobre alguns; alguns foram canonizados enquanto outros perderam confiabilidade e aceita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo come\u00e7o do quarto s\u00e9culo, Eus\u00e9bio de Cesar\u00e9ia menciona todos os livros de nosso Novo Testamento como universalmente aceitos nas igrejas, com exce\u00e7\u00e3o de cinco (Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 e 3 Jo\u00e3o), que, mesmo reconhecidos pela maioria, eram aceitos por outros (provavelmente as igrejas sir\u00edacas). Mais adiante no quarto s\u00e9culo encontramos a nossa lista de vinte e sete livros citados por Atan\u00e1sio de Alexandria (367), por Jer\u00f4nimo e Agostinho no Ocidente.<br \/>\nO c\u00e2none n\u00e3o \u00e9 fruto de uma decis\u00e3o de s\u00ednodo ou conc\u00edlio<br \/>\nDeve ficar claro, portanto, que nosso Novo Testamento de vinte e sete livros n\u00e3o \u00e9 fruto de uma escolha arbitr\u00e1ria feita por algum s\u00ednodo ou grupos que, ao redor de uma mesa, com um mont\u00e3o de documentos, disseram: \u201cAgora vamos decidir quais destes devem ser descartados por n\u00e3o terem autoridade apost\u00f3lica\u201d. Somente depois que os vinte e sete livros eram totalmente aceitos pelos crist\u00e3os ao redor do mundo \u00e9 que eles foram objeto de um decreto de um conc\u00edlio eclesi\u00e1stico \u2013 o s\u00ednodo do Norte da \u00c1frica de 393 [10] (cujas descobertas foram confirmadas pelo s\u00ednodo de Cartago quatro anos mais tarde). E, quando finalmente um conc\u00edlio da igreja deu a decis\u00e3o final sobre o tema, tudo o que fez foi ratificar o consenso universal dos crist\u00e3os que (e todos assim cremos) foram guiados a essa decis\u00e3o por uma sabedoria maior que a que possu\u00edam. (Sabedoria do Esp\u00edrito Santo, NT). A forma\u00e7\u00e3o do c\u00e2none n\u00e3o foi uma decis\u00e3o baseada em pesquisas, mas o reconhecimento de que eram livros aceitos em todo o mundo crist\u00e3o da \u00e9poca.<br \/>\nA canonicidade implica em suprema autoridade nas quest\u00f5es de f\u00e9. Ao incluir um documento no c\u00e2none os antigos crist\u00e3os afirmavam que o livro poderia ser usado no estabelecimento da doutrina, seja em debates com a pr\u00f3pria igreja de Roma ou em disputas com os hereges. Mas, tais livros foram inclu\u00eddos no c\u00e2none porque os crist\u00e3os reconheciam sua autoridade. Os livros n\u00e3o adquiriram autoridade ao serem inclu\u00eddos no c\u00e2none. Um dos crit\u00e9rios principais (e n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico), para o reconhecimento da autoridade e da qualidade can\u00f4nica de uma obra era sua autoria apost\u00f3lica. Isso \u00e9 t\u00e3o verdadeiro que v\u00e1rios grupos querendo trazer sua pr\u00f3pria linha doutrin\u00e1ria chamavam seus escritos de Evangelhos ou livro de Atos, ou ep\u00edstolas, e at\u00e9 mesmo Apocalipse e colocavam nele o nome de um ap\u00f3stolo. Por isso apareceu uma obra intitulada o Evangelho de Pedro com pontos de vista dos docetistas que era lido inocentemente por uma igreja sir\u00edaca no final do segundo s\u00e9culo, at\u00e9 que o bispo de Antioquia, Serapi\u00e3o ouviu falar sobre isso e proibiu seu uso.<br \/>\n\u00c9 fato que v\u00e1rios livros eram comumente lidos na igreja sem serem formalmente canonizados. Afinal, n\u00e3o havia muitas c\u00f3pias, e se o livro era para edifica\u00e7\u00e3o, a hora mais conveniente de edificar os irm\u00e3os era durante as reuni\u00f5es da igreja. Podemos comparar o que afirma o documento Muratoriano sobre o Pastor de Hermas. Alguns dos manuscritos mais importantes da B\u00edblia grega incluem no final, alguns dos livros que podem ser lidos pela igreja. O C\u00f3digo Sina\u00edtico cont\u00e9m a Ep\u00edstola de Barnab\u00e9 e parte do Pastor; o c\u00f3digo alexandrino cont\u00e9m as cartas de Clemente de Roma e uma antiga homilia comumente e erroneamente chamada de Segunda Ep\u00edstola de Clemente. [11]<br \/>\nExistiu tamb\u00e9m um livro her\u00e9tico de Atos chamado de Atos de Jo\u00e3o produzido na metade do segundo s\u00e9culo por Leukios, escritor que apresenta o ap\u00f3stolo Jo\u00e3o como um gn\u00f3stico, um mestre, e continha tamb\u00e9m um hino gn\u00f3stico interessante no qual Jesus acompanha seus seguidores, apresentando-se com dan\u00e7as. Este hino (que Gustav Holst) colocou uma m\u00fasica cont\u00e9m uma letra perfeita e ortodoxa, muito semelhante ao evangelho can\u00f4nico de Jo\u00e3o:<br \/>\nPara quem contempla, uma l\u00e2mpada eu sou;<br \/>\nTu que me conheces, espelho sou;<br \/>\nTu que bates, uma porta sou;<br \/>\nO caminho por onde segues.<br \/>\nOutro livro ap\u00f3crifo Atos de Paulo n\u00e3o era tanto uma composi\u00e7\u00e3o her\u00e9tica, mas uma obra de fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica escrito por um presb\u00edtero da \u00c1sia e influenciado por seu menos imaginativo irm\u00e3o, para quem \u201cuma novela era uma mentira\u201d. Ele se defendia de que escrevera por amor a Paulo, o que pode ser verdadeiro, mas devido a isso foi afastado do presbit\u00e9rio. Mesmo sendo uma obra de fic\u00e7\u00e3o jorra muita luz sobre o cristianismo na \u00c1sia Menor no segundo s\u00e9culo e preserva um retrato de Paulo que o descreve como uma pessoa de boa apar\u00eancia.<br \/>\nOutro problema no que diz respeito \u00e0 separa\u00e7\u00e3o entre a literatura can\u00f4nica e as demais surgiu durante a \u00faltima persegui\u00e7\u00e3o imperial. Como dissemos, durante as persegui\u00e7\u00f5es os soldados romanos vasculhavam as casas dos crist\u00e3os na tentativa de destruir os livros sagrados. Ent\u00e3o, quando a pol\u00edcia chegava numa igreja e exigia que os textos b\u00edblicos fossem entregues, os crist\u00e3os eram obrigados a entregar o que possu\u00edam. Um bom crist\u00e3o deveria defender os escritos sagrados com a pr\u00f3pria vida. Mas, a igreja podia ter outros livros que n\u00e3o faziam parte dos textos sagrados \u2013 Pastor de Hermas, por exemplo, ou um tratado da ordem interna da igreja. A pol\u00edcia n\u00e3o sabia distinguir o que era do c\u00e2none ou n\u00e3o, e ficava satisfeita quando lhes entregavam qualquer literatura. N\u00e3o seria bem melhor salvar os livros sagrados? Algu\u00e9m poder\u00e1 discutir se eles erravam ou n\u00e3o, fazendo isso. Claro, a quest\u00e3o n\u00e3o ajudava a fixar os limites can\u00f4nicos, e por este tempo (303 d.C.), os livros sagrados j\u00e1 estavam definidos.<br \/>\nMarci\u00e3o. [12]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O historiador Philip Schaff afirma que Marci\u00e3o era o cara mais honesto, pr\u00e1tico e perigoso entre os gn\u00f3sticos; cheio de energia e zelo pela reforma, incans\u00e1vel e exc\u00eantrico. Filho do bispo Sinope, de Ponto, converteu-se, doou suas propriedades para a igreja, mas foi excomungado por seu pr\u00f3prio pai, talvez por pregar heresias e o desprezo a autoridade. O zelo por um cristianismo puro levou-o a heresias. Ele foi a Roma ao redor do ano 140 para discutir com os bispos suas id\u00e9ias.<br \/>\n1. Ele somente via diferen\u00e7as superficiais nas escrituras, e n\u00e3o via a harmonia profunda.<br \/>\n2. Ele n\u00e3o valorizava a hist\u00f3ria e colocava o cristianismo em conflito com as revela\u00e7\u00f5es de Deus. Deus havia abandonado o mundo por milhares de anos at\u00e9 reaparecer em Cristo.<br \/>\n3. Ele escreveu um resumo do evangelho de Lucas e das ep\u00edstolas de Paulo, bem como uma obra contradizendo o antigo e o novo testamento.<br \/>\nIrineu relata que quando Marci\u00e3o se encontrou com Policarpo de Smirna lhe perguntou: Voc\u00ea sabe quem eu sou? Policarpo teria respondido: Sei sim, voc\u00ea \u00e9 o primog\u00eanito de Satan\u00e1s.<br \/>\n4. Marci\u00e3o pregava sobre duas ou tr\u00eas for\u00e7as principais: A for\u00e7a de um Deus bondoso; que Cristo mostrou ao mundo; as for\u00e7as do mal, governadas pelo Maligno, e o criador do mundo, que \u00e9 finito, imperfeito, e irado Deus dos judeus. (Daqui vem a teologia relacional).<br \/>\n5. Rejeitava todos os livros do AT e usava o texto de Mateus 5.17 como justificativa: \u201cN\u00e3o penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; n\u00e3o vim para revogar, vim para cumprir\u201d.<br \/>\n6. Ele acreditava que o cristianismo n\u00e3o tinha liga\u00e7\u00e3o com o passado, e que havia surgido abruptamente dos c\u00e9us. Cristo n\u00e3o era nascido, mas desceu repentinamente na cidade de Cafarnaum no d\u00e9cimo quinto ano de Tib\u00e9rio. E apareceu como algu\u00e9m que veio manifestar a Deus que o enviou. Jesus nada tem a ver com o Messias anunciado no AT; sua morte era uma ilus\u00e3o, ainda que tivesse um sentido real. Esta a id\u00e9ia do docetismo. Deus teria chamado a Paulo para pregar esta \u201cverdade\u201d.<br \/>\n7. Marci\u00e3o formou seu pr\u00f3prio Canon do NT que consistia de 11 livros, uma compila\u00e7\u00e3o mutilada do livro de Lucas e dez ep\u00edstolas de Paulo. Ele colocava por ordem de escritos G\u00e1latas, chamava Ef\u00e9sios de ep\u00edstola aos Laodicences; rejeitava as ep\u00edstolas pastorais, a ep\u00edstola aos hebreus, Mateus, Marco, Jo\u00e3o e Atos, as ep\u00edstolas universais e o Apocalipse.<br \/>\nEle retirou do evangelho de Lucas o nascimento e o minist\u00e9rio de Jo\u00e3o Batista.<br \/>\nTeria cortado os cap\u00edtulos 15 e 16 de Romanos, e os incorporado ao livro de \u00c9feso.<br \/>\n8. Pregava e praticava o ascetismo, como disciplina pessoal, n\u00e3o aceitava que se participassem de festas pag\u00e3s, e era contra o casamento, o comer carne e beber vinho. S\u00f3 aceitava batizar casados desde que estes se abstivessem de toda rela\u00e7\u00e3o sexual.<br \/>\n9. Eliminou o vinho da ceia, e manteve apenas o p\u00e3o, o b atismo em \u00e1guas, a un\u00e7\u00e3o com \u00f3leo e uma mistura de leite e mel que era dado aos rec\u00e9m-batizados. Marci\u00e3o realizava o batismo vic\u00e1rio (pelos mortos).<br \/>\n10. O posicionamento de Marci\u00e3o fez a igreja acelerar o c\u00e2none dos livros do NT.<\/p>\n<p>[1] W. C. van Unnik, em The Jung Codex. Editora F. L. Cross, 1955, p 124<br \/>\n[2] Texto dos escritos de Hipolito, Heresias, VII, 18<br \/>\n[3] Veja Marcos 14.51 e ss. cf. J. A. Robertson, The Ridden Romance of the New Testament (1920), p 35, Relatos mais extravagantes afirmam que ele teria amputado seu dedo para desqualificar-se para o service sacerdotal.<br \/>\n[4] Nossa evid\u00eancia n\u00e3o se baseia no texto original de Marcos 16.8 (os vv. 9-20 parecem vir de outra fonte), mas se o evangelho realmente termina no cap\u00edtulo 16.8 ou o final teria sido perdido ao longo dos anos.<br \/>\n[5] Isto \u00e9, profetas menores, uma refer\u00eancia a Malaquias 3.1<br \/>\n[6] O pr\u00f3logo anti marcionita de Lucas identifica a Jo\u00e3o, o evangelista, como sendo o ap\u00f3stolo.<br \/>\n[7] Irineu, Contra Heresias, III, 3.4<br \/>\n[8] \u00c9 surpreendente ver o livro de Sabedoria, dos ap\u00f3crifos do AT mencionado aqui. Pelo que se sabe, pertence ao per\u00edodo do NT e n\u00e3o do Antigo Testamento. O Te\u00f3logo Zahn acreditava que o t\u00edtulo original dizia: \u201cA Sabedoria de Salom\u00e3o, escrito em sua honjra por Filo\u201d (O fil\u00f3sofo judeu de Alexandria, cerca de 20 a. C. a 50 d. C). O comentarista do s\u00e9culo XV Hugh de St. Victor conhecia algumas pessoas que afirmavam que este livro fora escrito por Filo. O te\u00f3logo Mgr. R. A. Knox afirmou a este escritor que estava escrevendo uma tese de que os escritos eram de Paulo antes de se converter!<br \/>\n[9] Te\u00f3logo Zahn, Geschichte des neutestamentlichen Kanons, II, 1890, p. 142<br \/>\n[10] A igreja da qual Agostinho se tornou bispo em 395.<br \/>\n[11] Originalmente continha tamb\u00e9m a cole\u00e7\u00e3o de hinos judeus do primeiro s\u00e9culo a. C., conhecidos como Salmos de Salom\u00e3o.<br \/>\n[12] N.T. Esta parte sobre Marci\u00e3o foi acrescentada por este tradutor e historiador como um anexo extra\u00eddo de Church History de Philip Schaff.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(A seguir, a tradu\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo XXIII do livro The Spreading Flame, de F. F. Bruce).<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o A. de Souza Filho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e1 pelo ano 140 d.C. a igreja em Roma recebeu a visita de um homem chamado Marci\u00e3o, natural da \u00c1sia Menor que por este tempo se engajara em controv\u00e9rsias doutrin\u00e1rias&hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2132,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[15],"tags":[62],"class_list":["post-2131","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-joao-a-de-souza-filho","tag-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2131","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2131"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2131\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2132"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2131"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2131"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2131"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}