{"id":2137,"date":"2016-07-25T20:24:34","date_gmt":"2016-07-25T22:24:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/?p=2137"},"modified":"2016-07-25T20:25:23","modified_gmt":"2016-07-25T22:25:23","slug":"sermao-da-sexagesima-do-padre-antonio-vieira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/?p=2137","title":{"rendered":"Serm\u00e3o da Sexag\u00e9sima do Padre Ant\u00f4nio Vieira"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apresenta\u00e7\u00e3o: <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este serm\u00e3o foi pregado na capela real no ano de 1655 logo de seu regresso do Estado do Maranh\u00e3o. Este grande orador reverbera em seu serm\u00e3o os desvarios da linguagem dos pregadores de seu tempo e serve de compara\u00e7\u00e3o ao estilo fluente e moderno dos dias atuais. O serm\u00e3o \u00e9 uma das pe\u00e7as mais v\u00edvidas da eloq\u00fc\u00eancia de Vieira e nele pode se ver os tra\u00e7os evidentes da teoria da orat\u00f3ria que na antiguidade resplendia na prega\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As compara\u00e7\u00f5es e as alegorias que revestem o serm\u00e3o resumem os exemplos mais cl\u00e1ssicos que devem unir a variedade e a unidade de um serm\u00e3o. Abre este serm\u00e3o a s\u00e9rie de toda gloriosa obra orat\u00f3ria do Padre Vieira, n\u00e3o apenas pela natureza de seu tema, mas porque o pr\u00f3prio Vieira resolveu usar uma linguagem cl\u00e1ssica na primeira publica\u00e7\u00e3o de seus serm\u00f5es que ele mesmo revisou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta publica\u00e7\u00e3o atualiza-se o portugu\u00eas para uma linguagem mais atual sem perder a ess\u00eancia do discurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o A. de Souza Filho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Serm\u00e3o da Sexag\u00e9sima<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-1-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Queira Deus que este t\u00e3o ilustre e t\u00e3o numeroso audit\u00f3rio saia daqui desenganado da prega\u00e7\u00e3o, como vem enganado com o pregador! Ou\u00e7amos o evangelho e ou\u00e7amo-lo todo, porque esta \u00e9 raz\u00e3o que me trouxe de t\u00e3o longe. <em>Eis que o semeador saiu a semear, <\/em>disse Jesus. O pregador evang\u00e9lico saiu a semear a palavra divina. O texto n\u00e3o fala apenas do semear, mas tamb\u00e9m do sair. <em>Saiu<\/em>, porque no dia da colheita haver\u00e3o de medir o quanto colhemos e tamb\u00e9m contar\u00e3o o eito que colhemos. O mundo n\u00e3o leva em conta o quanto se gasta com sementes nem se preocupa o quanto de terra foi semeado pelo semeador. Deus n\u00e3o \u00e9 assim. Para quem lavra com Deus at\u00e9 o sair \u00e9 semear, porque colhe frutos de suas passadas. Entre os semeadores do evangelho existem aqueles que saem a semear, e existem outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear s\u00e3o os que v\u00e3o pregar na \u00cdndia, no Jap\u00e3o; os que semeiam sem sair s\u00e3o os que se contentam em pregar em sua p\u00e1tria. Todos ter\u00e3o sua raz\u00e3o, mas, tudo tem seu pre\u00e7o. Aos que t\u00eam a seara em casa, receber\u00e3o pela semeadura; os que v\u00e3o buscar a seara t\u00e3o longe, sua semeadura ser\u00e1 medida e seus passos contados. Ah! Dia do ju\u00edzo! Ah! Pregadores! Os daqui ser\u00e3o achados com mais pa\u00e7o; os de l\u00e1, <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> com mais passos: <em>Saiu a semear.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, daqui mesmo vejo que voc\u00eas notam \u2013 e me notam \u2013 que o Cristo disse que o semeador do evangelho saiu; por\u00e9m, n\u00e3o diz que retornou, porque os pregadores evang\u00e9licos, os homens que professam pregar e propagar a f\u00e9 costumam sair, mas nem sempre retornam. Aqueles animais do livro de Ezequiel que estavam no carro triunfal da gl\u00f3ria de Deus, e significavam os pregadores do evangelho, que propriedades possu\u00edam? <em>Nec revertebantur cum ambularent<\/em>, <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> \u201cn\u00e3o se viravam quando iam\u201d. Uma vez que iam n\u00e3o retornavam! Eram governados pelas r\u00e9deas do \u00edmpeto do Esp\u00edrito, como diz o texto. Esse Esp\u00edrito tinha impulsos para os levar, n\u00e3o havia regresso para os trazer, porque, quem sai para regressar melhor ser\u00e1 n\u00e3o sair. Assim, arg\u00fais com plena raz\u00e3o, e eu tamb\u00e9m assim o digo. Mas, pergunto: E se esse semeador evang\u00e9lico quando saiu, encontrasse o campo tomado; e se armassem contra ele os espinhos; e contra ele se levantassem as pedras e se lhe fechasse o caminho, o que poderia ele fazer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses obst\u00e1culos de que falo e todas essas contradi\u00e7\u00f5es experimentaram-no o semeador do nosso evangelho. Cristo disse que ele come\u00e7ou a semear, mas com pouca ventura (sorte). Uma parte do trigo caiu entre os espinhos, e estes o afogaram. Outra parte caiu sobre as pedras, e secou-se nas pedras por falta de umidade. Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens e comeram-no os p\u00e1ssaros. Ora, veja como todas as criaturas do mundo se armaram contra esta sementeira. Todas as criaturas existentes no mundo resumem-se a quatro g\u00eaneros: As criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas, como os animais; criaturas vegetais, como as plantas e criaturas insens\u00edveis, como as pedras. Somente estas! Faltou mais alguma que se armasse contra o semeador? Nenhuma!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A natureza insens\u00edvel o perseguiu nas pedras; os vegetais, nos espinhos; a sensitiva nas aves; a racional, nos homens. Observe a desgra\u00e7a do trigo, que onde esperava encontrar raz\u00e3o, maior agravo encontrou. As pedras secaram-no, os espinhos o afogaram; as aves o comeram, e os homens? Pisaram-no! Quando Cristo enviou seus ap\u00f3stolos a pregar pelo mundo, disse-lhes assim: \u201cV\u00e3o pelo mundo inteiro e anunciem o evangelho a todas as pessoas\u201d. <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Preguem a todas as criaturas. Como assim, Senhor? Os animais n\u00e3o s\u00e3o criaturas? As \u00e1rvores n\u00e3o s\u00e3o criaturas? As pedras n\u00e3o s\u00e3o criaturas? Quer dizer que os ap\u00f3stolos pregar\u00e3o tamb\u00e9m \u00e0s pedras? Pregar\u00e3o aos troncos? Pregar\u00e3o aos animais? Sim, diz S\u00e3o Greg\u00f3rio, depois de Santo Agostinho. Porque como os ap\u00f3stolos sa\u00edam a pregar a todas as na\u00e7\u00f5es do mundo, muitas delas b\u00e1rbaras e incultas, encontrariam homens degenerados em todas as esp\u00e9cies de criaturas: Haveriam de achar homens, homens; encontrariam homens brutos; enfrentariam homens truculentos; e haveriam de achar homens como pedras. E quando os pregadores evang\u00e9licos saem a pregar a toda criatura, todas se armam contra ele. Grande desgra\u00e7a!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, a desgra\u00e7a do semeador do nosso evangelho n\u00e3o foi a maior. A maior \u00e9 a que se tem experimentado na seara para onde fui e de onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, l\u00e1 padeceram os semeadores. Se puderem entender, aqui tem trigo mirrado, trigo mocho, trigo bichado, trigo comigo e trigo pisado. Tudo isso padeceram os semeadores evang\u00e9licos na miss\u00e3o de semear no Maranh\u00e3o. Houve mission\u00e1rios afogados, porque uns se afogaram na grande boca do grande rio das Amazonas; houve mission\u00e1rios comidos, porque foram devorados pelos canibais na ilha dos Aroans; houve mission\u00e1rios mirrados, porque os tais voltaram da jornada do Tocantins, mirrados pela fome e pela doen\u00e7a, onde houve um caso em que, perdidos vinte e dois dias nas brenhas mitigava sua sede com o orvalho que lambia das folhas. E que dizer se, depois de mirrados, afogados e devorados sejam ainda pisados e perseguidos pelos homens? N\u00e3o me queixo, nem o digo, Senhor, pelos semeadores; s\u00f3 pela seara o digo e pela seara o sinto. Para os semeadores isso s\u00e3o gl\u00f3rias; mirrados, sim, mas, por amor de voc\u00eas mirrados; afogados, sim, mas por amor de voc\u00eas, afogados; comidos, sim, mas por amor de voc\u00eas, comidos. Pisados e perseguidos, sim, mas por amor de voc\u00eas perseguidos e pisados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retorno agora \u00e0 minha primeira pergunta: E que faria neste caso ou o que o semeador evang\u00e9lico devia fazer depois de fracassarem seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Deixar-se-ia ficar ocioso no campo s\u00f3 porque l\u00e1 se encontra? Parece que n\u00e3o! Mas, caso retornasse pra casa a fim de buscar alguns instrumentos para limpar a terra das pedras e dos espinhos seria isto desistir? Seria isto tornar atr\u00e1s? Certo que n\u00e3o. No mesmo texto de Ezequiel temos a prova. J\u00e1 vimos, como dizia os textos que aqueles animais da carruagem de Deus, quando iam n\u00e3o voltavam: \u201cn\u00e3o se viravam quando iam\u201d. Leiam dois vers\u00edculos adiante e vejam o que diz o mesmo texto, que aqueles animais tornavam \u00e0 semelhan\u00e7a de um raio ou de um corisco: <em>Ibant, et revertebantur in similitudinem fulguris coruscantis<\/em> ou \u201cas criaturas viventes corriam e voltavam como a apar\u00eancia de um raio\u201d <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Pois se os animais iam e tornavam \u00e0 semelhan\u00e7a de um raio; como diz o texto que, quando iam n\u00e3o retornavam? Porque quem vai e torna como um raio, n\u00e3o torna. Ir e voltar como um raio n\u00e3o \u00e9 tornar, mas ir adiante. Assim o fez o semeador de nosso evangelho. N\u00e3o ficou desanimado nem pela primeira, pela segunda ou pela terceira perda; continuou adiante a semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e \u00faltima parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas dos demais: Nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu, mediu e achou-se que por um gr\u00e3o cem deles multiplicaram. <em>Et fecit fructum centuplum, <\/em>isto \u00e9, \u201ce deu fruto: a cem&#8230;\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oh! Que grandes esperan\u00e7as me d\u00e1 esta sementeira! Veja que grande exemplo nos d\u00e1 este semeador! D\u00e1-me grandes esperan\u00e7as a sementeira, porque ainda que se perderam os primeiros trabalhos, os \u00faltimos dar\u00e3o lucro! D\u00e1-me grande exemplo o semeador, porque depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo aproveitou a quarta e \u00faltima, e colheu dela muito fruto. J\u00e1 que se perderam as tr\u00eas partes da vida, pois uma parte da idade a levaram os espinhos; outra parte levaram as pedras e outra parte levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e \u00faltima parte, este \u00faltimo quartel da vida, por que se perderia tamb\u00e9m? Por que n\u00e3o dar\u00e1 fruto? Por que n\u00e3o ter\u00e3o os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Por que n\u00e3o ter\u00e1 tamb\u00e9m a vida o seu outono? Umas flores caem, outras murcham, outras se secam e outras o vento as leva. Aquelas poucas que se pegam ao tronco e se transformam em frutos, s\u00f3 essas s\u00e3o as venturosas; s\u00f3 essas s\u00e3o as discretas, s\u00f3 essas s\u00e3o as que duram, somente essas \u00e9 que se aproveitam; s\u00f3 essas as que sustentam o mundo. Ser\u00e1 que o mundo morrer\u00e1 de fome? Ser\u00e1 que os \u00faltimos dias ser\u00e3o sem flores? N\u00e3o \u00e9 bom, nem Deus quer que assim seja, nem haver\u00e1 de ser. Por isso disse no come\u00e7o que voc\u00eas vieram enganados quanto ao pregador, e para que voc\u00eas saiam desenganados com o serm\u00e3o trarei nele uma mat\u00e9ria de grande peso e import\u00e2ncia. Servir\u00e1 como pr\u00f3logo aos serm\u00f5es que lhes hei de pregar e a todos os que me ouvirem durante a quaresma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-2-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Semen est Verbum Dei<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trigo que o pregador evang\u00e9lico semeou, disse Jesus, \u00e9 a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a boa terra em que o trigo caiu s\u00e3o os diversos cora\u00e7\u00f5es humanos. Os espinhos s\u00e3o os cora\u00e7\u00f5es embara\u00e7ados com cuidados, riquezas, com del\u00edcias, e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras s\u00e3o os cora\u00e7\u00f5es duros e obstinados, e nestes seca-se a palavra de Deus, e caso germine, n\u00e3o cria ra\u00edzes. Os caminhos s\u00e3o os cora\u00e7\u00f5es inquietos e perturbados com o desfile e com o tropel das coisas do mundo; umas que v\u00e3o e outras que v\u00eam, outras que atravessam, mas todas passam. E nestes \u00e9 pisada a palavra de Deus, porque ou a ignoram ou a desprezam. Finalmente, a terra boa s\u00e3o os cora\u00e7\u00f5es bons, ou os homens de bom cora\u00e7\u00e3o, e nestes a palavra divina se prende e frutifica com tanta fecundidade e abund\u00e2ncia que se colhe a cento por um: <em>Er fructum fecit centumplum.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este frutificar grandioso da palavra de Deus chama minha aten\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes em forma de d\u00favida ou de admira\u00e7\u00e3o que me deixa em suspense e confuso depois que subo ao p\u00falpito. Se a palavra de Deus \u00e9 t\u00e3o eficaz e poderosa, como se v\u00ea t\u00e3o pouco fruto da palavra de Deus? Ora, o pr\u00f3prio Cristo afirmou que a palavra de Deus frutifica a cem por um e eu ficaria satisfeito se frutificasse um por cento. Se com cada cem serm\u00f5es se convertesse uma pessoa e emendasse seu caminho, o mundo seria santo. Este argumento de f\u00e9, fundado na autoridade de Cristo, pode ser visto na experi\u00eancia comparando-se os tempos passados com os presentes. Leiam as hist\u00f3rias eclesi\u00e1sticas e ver\u00e3o que est\u00e3o repletas de admir\u00e1veis resultados da prega\u00e7\u00e3o da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudan\u00e7a de vida, tanta mudan\u00e7a nos costumes em que os grandes desprezando as riquezas e as vaidades do mundo e os reis renunciando seus cetros e suas coroas; os jovens e as pessoas gentis metendo-se pelos desertos e pelas cavernas. E hoje? Nada disto. Nunca na igreja de Deus ouve tantos pregadores e tantas prega\u00e7\u00f5es como nos dias de hoje. Pois, se tanto se semeia a palavra de Deus, por que se colhe t\u00e3o pouco fruto? N\u00e3o h\u00e1 um homem que ao ouvir um serm\u00e3o caia em si e resolva mudar de vida; n\u00e3o h\u00e1 um mo\u00e7o que se arrependa; um velho que mude de ideia. O que \u00e9 isto? Assim como Deus n\u00e3o \u00e9 hoje menos Onipotente, assim a sua palavra n\u00e3o \u00e9 hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus \u00e9 t\u00e3o poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, por que n\u00e3o vemos hoje nenhum fruto da palavra? Esta t\u00e3o grande e t\u00e3o importante d\u00favida ser\u00e1 a mat\u00e9ria do serm\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero come\u00e7ar pregando pra mim mesmo. Prego pra mim e tamb\u00e9m pra voc\u00eas. Prego pra mim para aprender a pregar, e a voc\u00eas para que aprendam a ouvir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-3-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato de que a palavra de Deus quase n\u00e3o frutifica nos dias de hoje deve ser por causa de tr\u00eas princ\u00edpios importantes: A parte do pregador, a parte do ouvinte e a parte de Deus. Resumindo: O pregador, o ouvinte e Deus. Para que uma pessoa se converta por meio de um serm\u00e3o tr\u00eas coisas devem acontecer: O pregador deve contribuir expondo a doutrina, persuadindo. O ouvinte deve entrar com seu entendimento, percebendo; e Deus com sua gra\u00e7a, iluminando. Para um homem se ver a si mesmo s\u00e3o necess\u00e1rias tr\u00eas coisas: Olhos, espelho e luz. Se tiver espelho e \u00e9 cego, n\u00e3o pode se ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, mas \u00e9 noite, n\u00e3o pode se ver pela falta de luz, logo \u00e9 necess\u00e1rio haver luz, espelho e olhos. Que maravilha quando a alma pode conversar consigo mesma e se ver dentro do homem? Para que o homem se veja s\u00e3o necess\u00e1rios olhos, luz e espelho. O pregador concorre com o espelho, que \u00e9 a doutrina; Deus concorre com a luz, que \u00e9 a gra\u00e7a; o homem concorre com os olhos, que \u00e9 o conhecimento. Ora, supondo que a convers\u00e3o da alma por meio da prega\u00e7\u00e3o dependa desses tr\u00eas elementos, de Deus, do pregador e do ouvinte, qual deles ainda falta? Por parte do ouvinte, do pregador ou da parte de Deus?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiramente, por parte de Deus n\u00e3o falta nem pode faltar. Esta \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o de f\u00e9, definida no Conc\u00edlio Tridentino, e no nosso evangelho a temos. Do trigo que o semeador lan\u00e7ou na terra, uma parte frutificou e outras tr\u00eas se perderam. E por que tr\u00eas partes se perderam? A primeira se perdeu porque a sufocaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto \u00e9 o que Cristo falou, mas notem o que ele n\u00e3o disse. Ele n\u00e3o falou que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva. A causa porque ordinariamente se perdem as sementeiras \u00e9 pela desigualdade e pela intemperan\u00e7a do clima, ou porque tem pouca chuva ou chove demais, ou porque falta o sol ou tem sol demais. Pois, por que Cristo n\u00e3o colocou na par\u00e1bola do evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva? Porque o sol e a chuva s\u00e3o as influ\u00eancias da parte do c\u00e9u, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca \u00e9 por falta do c\u00e9u, mas por culpa nossa. Deixar\u00e1 de frutificar a sementeira, ou pelo embara\u00e7o dos espinhos, ou pela dureza das pedras ou pelos descaminhos dos caminhos, mas, por falta das influ\u00eancias do c\u00e9u, isso nunca \u00e9 nem pode ser. Da parte de Deus ele sempre est\u00e1 pronto, com o sol para aquecer e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos cora\u00e7\u00f5es assim o quiserem. <em>Qui solem suum oriri facit super bonos et malos et pluit super iustos et iniustos<\/em> <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Se Deus d\u00e1 o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negar\u00e1? Este ponto est\u00e1 t\u00e3o claro que n\u00e3o se precisa de mais provas. \u201cQue havia ainda a fazer \u00e0 minha vinha, que eu n\u00e3o lhe tenha feito?\u201d (Is 5.4), disse o mesmo Deus atrav\u00e9s de Isa\u00edas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo, pois, certo que a palavra divina n\u00e3o deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que, ou \u00e9 por falha do pregador ou por falha do ouvinte. Por qual ser\u00e1? Os pregadores colocam a culpa nos ouvintes, mas n\u00e3o \u00e9 assim. Se fosse por parte dos ouvintes, a palavra de Deus n\u00e3o daria muito fruto, mas n\u00e3o ter nenhum fruto ou nenhum efeito m\u00e3o \u00e9 por parte dos ouvintes. Provo. Os ouvintes, ou s\u00e3o maus ou bons. Se forem bons, a palavra de Deus neles frutifica. Se forem maus, ainda que n\u00e3o frutifiquem tem l\u00e1 seus efeitos. No evangelho os temos. O trigo que caiu nos espinhos nasceu, mas os espinhos afogaram-no. O trigo que caiu nas pedras, tamb\u00e9m nasceu, mas secou-se. O trigo que caiu em boa terra nasceu e deu frutos com grande multiplica\u00e7\u00e3o. <em>Et natum fecit fructum centuplum. <\/em>De maneira que o trigo que caiu na boa terra nasceu e frutificou; o trigo que caiu em terra ruim nasceu, mas n\u00e3o deu frutos, porque a palavra de Deus \u00e9 t\u00e3o fecunda que nos bons faz muito fruto e \u00e9 t\u00e3o eficaz, que nos maus, ainda que n\u00e3o fa\u00e7a fruto, tem l\u00e1 seus efeitos. Lan\u00e7ada nos espinhos n\u00e3o frutificou, mas at\u00e9 entre os espinhos nasceu. Lan\u00e7ada nas pedras n\u00e3o frutificou, mas no meio das pedras nasceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os piores ouvintes que existem na igreja de Deus s\u00e3o as pedras e os espinhos. E por que? Os espinhos por agudos; as pedras por serem duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas s\u00e3o os piores que existem. Os ouvintes de entendimentos agudos s\u00e3o maus ouvintes, porque vem s\u00f3 para ouvir sutilezas, esperando galanterias, querendo avaliar os pensamentos, e \u00e0s vezes tamb\u00e9m a machucar a quem n\u00e3o machuca. O trigo n\u00e3o picou os espinhos, antes os espinhos se espetaram nele. E o mesmo sucede aqui: Voc\u00eas acham que o serm\u00e3o os feriu, mas n\u00e3o \u00e9 assim. Voc\u00eas s\u00e3o os que ferem o serm\u00e3o. Por isso s\u00e3o maus ouvintes e de entendimentos agudos. Mas, os de vontade endurecida s\u00e3o ainda piores, porque um entendimento agudo pode ser picado pelos mesmos espinhos, e pode-se vencer um argumento com outro maior. Mas, contra vontades endurecidas para nada aproveita a agudeza, antes lhe causam maior dano, porque quando as setas s\u00e3o mais pontudas, com mais facilidade tocam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que s\u00e3o ainda piores que as pedras. A vara de Mois\u00e9s abrandou as pedras, mas n\u00e3o p\u00f4de abrandar uma vontade endurecida. \u201cMois\u00e9s levantou a m\u00e3o e feriu a rocha duas vezes com o seu bord\u00e3o, e sa\u00edram muitas \u00e1guas\u201d (Nm 20.11). <em>Unduratum est cor Pharaonis<\/em>. \u201cTodavia, o cora\u00e7\u00e3o de Fara\u00f3 se endureceu\u201d (Ex 7.13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E como os ouvintes de entendimentos agudos, e os ouvintes de vontades endurecidas s\u00e3o os mais rebeldes, a for\u00e7a da divina da palavra \u00e9 t\u00e3o grande, que apesar da agudeza nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras. Poder\u00edamos argumentar ao lavrador do Evangelho de n\u00e3o cortar os espinhos e de n\u00e3o arrancar as pedras antes de semear, mas propositadamente deixou no campo as pedras e os espinhos para que vissem a for\u00e7a da semente que semeava. \u00c9 tanta a for\u00e7a da divina palavra, que sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. \u00c9 tanta a for\u00e7a da divina palavra, que sem arrancar nem abrandar as pedras, nasce nas pedras. Cora\u00e7\u00f5es emba\u00e7ados como espinhos, cora\u00e7\u00f5es secos e duros como pedras ou\u00e7am a palavra de Deus e confiem nele. Tomemos os exemplos dessas mesmas pedras e nesses espinhos. Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do c\u00e9u, mas vir\u00e1 tempo quando essas mesmas pedras o aclamar\u00e3o e esses mesmos espinhos o coroar\u00e3o. \u201ctecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabe\u00e7a\u201d (Mt 27.29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o semeador do c\u00e9u deixou o campo, saindo deste mundo, as pedras se quebraram para o aclamar, e os espinhos foram tecidos para lhe fazer uma coroa. E, se a palavra de Deus at\u00e9 nas pedras e nos espinhos nasce, o n\u00e3o triunfo nos alvedrios, <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> hoje, da palavra de Deus e o fato de n\u00e3o nascer nos cora\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 culpa nem indisposi\u00e7\u00e3o dos ouvintes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de apresentar essas duas suposi\u00e7\u00f5es, de que os frutos e efeitos da palavra de Deus n\u00e3o permanecem, nem da parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se, por conseq\u00fc\u00eancia clara que dever\u00e1 frutificar por parte do pregador. E assim \u00e9. Voc\u00eas sabem, irm\u00e3os, por que a palavra de Deus n\u00e3o frutifica? Por culpa dos pregadores. Pregadores, voc\u00eas sabem por que a palavra de Deus n\u00e3o frutifica. Por nossa culpa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-4-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, como num pregador existem tantas possibilidades, e em uma prega\u00e7\u00e3o tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistir\u00e1 esta culpa? No pregador podem-se considerar cinco circunst\u00e2ncias: <u>A pessoa, a sabedoria, a mat\u00e9ria, o estilo e a voz.<\/u> A pessoa que \u00e9, a sabedoria que tem, a mat\u00e9ria que trata, o estilo que segue e a voz com que fala. Todas estas circunst\u00e2ncias podem ser vistas no evangelho. Examinemo-las uma por uma buscando esta causa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 que a palavra n\u00e3o frutifica nos dias de hoje por culpa da pessoa que prega? Ser\u00e1 por que antigamente os pregadores eram santos, var\u00f5es apost\u00f3licos e exemplares, e hoje os pregadores sou eu e outros como eu? Esta \u00e9 uma boa raz\u00e3o. O que define um pregador s\u00e3o a vida e o exemplo. Entre o semeador e o que semeia existe muita diferen\u00e7a: Uma coisa \u00e9 o governador e outra \u00e9 o que governa. De igual maneira, uma coisa \u00e9 o semeador e outra o que semeia. Uma coisa \u00e9 o pregador e outra, o que prega. O semeador e o pregador s\u00e3o t\u00edtulos; o que semeia e o que prega \u00e9 a\u00e7\u00e3o. E as a\u00e7\u00f5es \u00e9 que ditam quem \u00e9 o pregador. Ter nome de pregador ou ser pregador de nome para nada importa. As a\u00e7\u00f5es, a vida, o exemplo, as obras s\u00e3o as que convertem o mundo. Qual o melhor conceito que o pregador leva ao p\u00falpito? \u00c9 o conceito que os ouvintes t\u00eam da vida dele. Antigamente o mundo se convertia, hoje por que n\u00e3o se converte ningu\u00e9m? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem balas s\u00e3o tiros sem bala. Produzem estrondos, mas n\u00e3o ferem. A funda de Davi derribou o gigante, mas n\u00e3o o derribou com o barulho que fez, mas com a pedra. As vozes da harpa de Davi expulsavam os dem\u00f4nios do corpo de Saul, mas n\u00e3o eram vozes pronunciadas com a boca; eram vozes formadas com a m\u00e3o: <a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar, que \u00e9 falar, faz-se com a boca; o pregar, que \u00e9 semear faz-se com a m\u00e3o. Para falar ao vento bastam palavras; para falar ao cora\u00e7\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias obras. O evangelho afirma que a palavra de Deus deu frutos a cem por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras? N\u00e3o. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Palavras que frutificam obras n\u00e3o podem ser apenas palavras. Deus queria converter o mundo. E o que fez? Mandou ao mundo seu Filho em forma humana. Notem: O Filho de Deus enquanto Deus e homem \u00e9 tamb\u00e9m a palavra e obra de Deus operando em ambos. <em>Verbum caro factum est. <a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><strong>[8]<\/strong><\/a><\/em> De maneira que Deus n\u00e3o se fiou em que sua palavra ficasse desacompanhada de obras para a convers\u00e3o dos homens. Na uni\u00e3o da palavra de Deus com a maior obra de Deus \u00e9 que consiste a salva\u00e7\u00e3o da humanidade. Verbo Divino \u00e9 palavra divina; mas, importa pouco que nossas palavras sejam divinas se forem desacompanhadas de exemplos. A raz\u00e3o disto \u00e9 porque as palavras s\u00e3o ouvidas, mas as obras vistas. As palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais aos olhos do que aos ouvidos. No c\u00e9u, ningu\u00e9m h\u00e1 que n\u00e3o ame a Deus ou deixe de am\u00e1-lo. Na terra h\u00e1 t\u00e3o poucos que o amem; todos o ofendem. Deus n\u00e3o \u00e9 o mesmo e t\u00e3o digno de ser amado no c\u00e9u como na terra? Pois como no c\u00e9u todos se veem obrigados a am\u00e1-lo e na terra n\u00e3o? A raz\u00e3o \u00e9, porque Deus no c\u00e9u \u00e9 Deus visto; Deus na terra \u00e9 Deus ouvido. No c\u00e9u o conhecimento de Deus entra na alma pelos olhos: <em>Videbimus cum sicut este. <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><strong>[9]<\/strong><\/a><\/em> Na terra entra-lhe o conhecimento de Deus pelos ouvidos, <em>Fides ex auditu<\/em> <a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> e o que entra pelos ouvidos \u00e9 crido, o que entra pelos olhos tem de ser visto. Se os ouvintes vissem em n\u00f3s o que ouvem, o abalo e os efeitos do serm\u00e3o seriam diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um pregador decide pregar ilustrando a paix\u00e3o e chega ao pret\u00f3rio de Pilatos; relata como fizeram de Cristo um rei de zombaria; diz que tomaram vestes cor de p\u00farpura e a colocaram em seus ombros. O audit\u00f3rio o ouve atento. Afirma, depois, que teceram uma coroa de espinhos e puseram-na na cabe\u00e7a de Cristo e todos o ouvem com a mesma aten\u00e7\u00e3o. Diz mais que suas m\u00e3os foram amarradas e entrela\u00e7aram nelas uma cana como cetro; a expectativa e o sil\u00eancio dos ouvintes s\u00e3o vis\u00edveis. Neste exato momento abrem-se as cortinas e aparece a imagem do <em>Ecce Homo<\/em>, eis todos prostrados em terra; todos a bater no peito. Eis as l\u00e1grimas. Eis os gritos, os alaridos, eis as bofetadas. Que \u00e9 isso? Que reapareceu de novo nesta igreja? Tudo o que as pessoas viram ao descerrar as cortinas o pregador havia dito. J\u00e1 falar do manto cor de p\u00farpura, da coroa de espinhos e da cana que segurava feito um cetro. Pois, se enquanto falava o audit\u00f3rio n\u00e3o foi motivado, o que aconteceu agora? Porque antes do Cristo falava; mas, agora ao Cristo veem. A descri\u00e7\u00e3o do pregador entrava-lhes pelos ouvidos, a representa\u00e7\u00e3o daquela figura entrou-lhes pelos olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pregadores, sabem por que nossos serm\u00f5es n\u00e3o mexem com as pessoas? Porque n\u00e3o pregamos aos olhos; pregamos aos ouvidos. Por que Jo\u00e3o, o Batista convertia tantos pecadores? Porque assim como suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos. As palavras do Batista pregavam arrependimento, porque as pessoas se arrependem e o exemplo de Jo\u00e3o Batista falava alto. Ele dizia: <em>Ecce Homo:<\/em> eis aqui est\u00e1 o homem que \u00e9 o retrato da penit\u00eancia e da aspereza. As palavras de Jo\u00e3o Batista pregavam jejum e repreendia os abusos e a gula, e o exemplo clamava: Eis o Homem. Eis aqui est\u00e1 o homem que se alimenta de gafanhotos e mel silvestre. As palavras de Jo\u00e3o pregavam mod\u00e9stia e condenavam a ostenta\u00e7\u00e3o e a soberba e a vaidade. Eis aqui o homem vestido com peles de camelo presas com cordas e envolto em panos de cil\u00edcio na raiz da carne.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As palavras de Jo\u00e3o pregavam o desapego e o abandono do mundo e apelavam para que os homens fugissem da maldade. E o exemplo clamava: Eis o homem! Eis aqui o homem que deixou a corte e as cidades e vive no deserto em alguma cova. Se os ouvintes ouvem uma coisa e veem outra, como se converter\u00e3o? Jac\u00f3 colocava as varas listradas diante das ovelhas quando concebiam, e depois os cordeiros nasciam listrados. \u201cE concebia o rebanho diante das varas, e as ovelhas davam crias listadas, salpicadas e malhadas\u201d. <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos e t\u00eam diante dos seus olhos as nossas manchas, como conceber\u00e3o virtudes? Se a minha vida \u00e9 apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras v\u00e3o j\u00e1 refutadas nas minhas obras, se uma coisa \u00e9 o semeador e outra, o que semeia, como se obter\u00e1 o fruto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito boa e muito forte raz\u00e3o havia para que a palavra de Deus n\u00e3o frutificasse, e tem contra si o exemplo e experi\u00eancia de Jonas. Fugitivo de Deus, em desobedi\u00eancia, contumaz, e, ainda, depois de engolido e vomitado, iracundo, impaciente, pouco caritativo, pouco misericordioso e mais zeloso e amigo de sua autoestima do que da honra a Deus e salva\u00e7\u00e3o das almas, Jonas, desejoso de ver N\u00ednive destru\u00edda diante de seus olhos havendo ali tantos inocentes, contudo, este mesmo homem com um serm\u00e3o converteu o maior rei, a maior corte, e o maior reino do mundo, e n\u00e3o de homens fieis, mas de gentios id\u00f3latras. Portanto, deve ser outra a causa que buscamos. Qual ser\u00e1?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-5-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estilo. Ser\u00e1, porventura, o estilo que hoje se usa nos p\u00falpitos? Um estilo t\u00e3o embaralhado, um estilo t\u00e3o dificultoso, um estilo t\u00e3o afetado, um estilo t\u00e3o encontrado em toda arte e em toda a natureza? Boa raz\u00e3o \u00e9 esta. O estilo deve ser f\u00e1cil e natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear. <em>Exiit qui seminat, seminare. <\/em>Cristo compara o pregar ao semear; porque semear \u00e9 uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras artes tudo \u00e9 arte; na m\u00fasica tudo se faz por compasso, na arquitetura tudo se faz por regras; na aritm\u00e9tica emprega-se a conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear n\u00e3o \u00e9 assim. \u00c9 uma arte sem arte; caia onde cair. Vejam como semeava o lavrador de nosso evangelho. Ca\u00eda o trigo nos espinhos e nascia; ca\u00eda o trigo nas pedras e nascia; ca\u00eda o trigo na boa terra e nascia. O trigo ia caindo e nascendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim ser\u00e1 o pregar. H\u00e3o de cair as coisas e h\u00e3o de nascer. T\u00e3o naturais que v\u00e3o caindo e logo come\u00e7am a nascer. Que diferente \u00e9 o estilo violento e tir\u00e2nico que se usa hoje? Uns v\u00eam acarretados, outros arrastados, outros v\u00eam estirados, torcidos, despeda\u00e7ados, s\u00f3 os atados n\u00e3o v\u00eam! Existe, de fato, tal tirania? Ent\u00e3o, no meio dessa argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 que se comprova o que foi dito. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o levantar, mas o cair. Notem uma alegoria pr\u00f3pria de nosso idioma: O trigo do semeador ainda que caiu quatro vezes, s\u00f3 tr\u00eas vezes nasceu! Para que o serm\u00e3o nas\u00e7a, h\u00e1 de existir tr\u00eas maneiras de cair: Cair\u00e1 com a queda, cair\u00e1 com cad\u00eancia e cair\u00e1 pela circunst\u00e2ncia (N. T. Vieira usa a palavra caso). A queda \u00e9 para as coisas; a circunst\u00e2ncia para a disposi\u00e7\u00e3o. A queda \u00e9 para as coisas porque h\u00e3o de ser colocadas em seu lugar; h\u00e1 de ter queda: A cad\u00eancia \u00e9 para as palavras, porque estas n\u00e3o podem ser escabrosas nem dissonantes; precisam de cad\u00eancia: A circunst\u00e2ncia \u00e9 para a disposi\u00e7\u00e3o, porque h\u00e1 de ser t\u00e3o natural e t\u00e3o simples que pare\u00e7a caso e n\u00e3o estudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 que falo contra os estilos modernos quero trazer \u00e0 lume o estilo do mais antigo pregador que houve no mundo. E quem foi ele? O mais antigo pregador do mundo foi o c\u00e9u! <em>Caeli enarrant gloriam Dei et opera manuum eius adnuntiat firmamentum<\/em>\u00a0 disse Davi. <a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> Supondo que o c\u00e9u seja o pregador deve estar cheio de serm\u00f5es e de palavras. Sim, o c\u00e9u, diz o mesmo Davi, tem palavras e tem serm\u00f5es, e muito bem ouvidos. <em>Non sunt loquellae neque sermones quorum non audiantur voces eorum<\/em> <a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> E quais s\u00e3o estes serm\u00f5es e estas palavras do c\u00e9u? As palavras s\u00e3o as estrelas, os serm\u00f5es s\u00e3o a composi\u00e7\u00e3o, a ordem, a harmonia e o curso delas no c\u00e9u. Veja como o estilo de pregar no c\u00e9u assemelha-se ao estilo que Cristo ensinou na terra! Um e outro \u00e9 semear. A terra semeada de trigo e o c\u00e9u semeado de estrelas. O pregador deve ser como quem semeia e n\u00e3o como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas. <em>Stellae manentes in ordine et cursu suo<\/em>. <a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as estrelas est\u00e3o afixadas em ordem, mas \u00e9 ordem que influencia e n\u00e3o uma ordem que fa\u00e7a voc\u00ea labutar. N\u00e3o fez Deus o c\u00e9u em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem seus serm\u00f5es em xadrez de palavras. Se de uma parte est\u00e1 branco, da outra haver\u00e1 de estar negro. Se de uma parte est\u00e1 dia, da outra parte estar\u00e1 noite. Se numa parte dizem, luz; na outra dir\u00e3o, sobra. Se de uma parte dizem \u201cdesceu\u201d, da outra dir\u00e3o subiu. Basta que n\u00e3o vejamos num serm\u00e3o duas palavras em paz? Todas estar\u00e3o fronteiri\u00e7as ao seu contr\u00e1rio. Aprendamos do c\u00e9u o estilo da disposi\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m o das palavras. E como ser\u00e3o as palavras? Como as estrelas. As estrelas s\u00e3o mui distintas e claras. Assim ser\u00e1 o estilo da prega\u00e7\u00e3o, muito distinto e muito claro. E nem por isso imagina-se que o estilo seja baixo, porque as estrelas al\u00e9m de serem diferentes s\u00e3o brilhantes e alt\u00edssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; t\u00e3o claro que o entendam os que nada sabem, e t\u00e3o alto que tenham muito que aprender nele os que sabem. O campon\u00eas encontra nas estrelas as informa\u00e7\u00f5es de que precisa para sua lavoura e o navegador para sua navega\u00e7\u00e3o; o matem\u00e1tico para as suas observa\u00e7\u00f5es e para seus c\u00e1lculos. De maneira que o lavrador e o mareante que n\u00e3o sabem escrever nem ler, entendam as estrelas, e o matem\u00e1tico que tem lido quantos escreveram n\u00e3o alcan\u00e7a a entender quanto nelas h\u00e1. Tal pode ser o serm\u00e3o: Estrelas que todos veem e muito poucos as medem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, padre! Por\u00e9m, esse estilo de pregar n\u00e3o \u00e9 pregar culto, mas e que fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-no escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto n\u00e3o \u00e9 escuro, mas negro, e negro bo\u00e7al, cerrado. \u00c9 poss\u00edvel que sendo portugueses ou\u00e7amos um pregador falar em portugu\u00eas e n\u00e3o o entendamos? Assim como existe l\u00e9xico para o grego e o calepino <a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a> para o latim, assim \u00e9 necess\u00e1rio haver um vocabul\u00e1rio do p\u00falpito. Eu, ao menos o tomara para os nomes pr\u00f3prios, porque os cultos t\u00eam desbatizados os santos, e cada autor que alegam \u00e9 um enigma. Assim o disse o Cetro Penitente, assim disse o evangelista Apeles, assim falou tamb\u00e9m o \u00c1guia da \u00c1frica (Agostinho), o favor de Claraval, a p\u00farpura de Bel\u00e9m, a Boca de Ouro. Existem jeitos de mencionar pessoas. O Cetro Penitente dizem ser Davi, como se todos os cetros n\u00e3o fossem penitentes. O evangelista Apeles dizem ser Lucas, tamb\u00e9m conhecido como m\u00e9dico; o Favo de Claraval \u00e9 s\u00e3o Bernardo; a \u00c1guia da \u00c1frica, Santo Agostinho; a P\u00farpura de Bel\u00e9m, S\u00e3o Jer\u00f4nimo; S\u00e3o Cris\u00f3stomo a Boca de Ouro. E quem contraria se algu\u00e9m dissesse que a P\u00farpura de Bel\u00e9m \u00e9 Herodes, que a \u00c1guia da \u00c1frica \u00e9 Corn\u00e9lio Cipi\u00e3o e que a Boca de Ouro \u00e9 Midas? Se houvesse um advogado que alegasse assim a Bartolo e Baldo voc\u00eas confiariam na argumenta\u00e7\u00e3o dele? Se houvesse um homem que falasse assim na congrega\u00e7\u00e3o voc\u00eas n\u00e3o o tomariam por ignorante? Pois o que na convers\u00e3o seria n\u00e9scio como h\u00e1 de ser a descri\u00e7\u00e3o do p\u00falpito?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta raz\u00e3o me parece boa. Mas, como os cultos, pelo polido e estudado se defendem como o grande Nazareno, com Ambr\u00f3sio, com Cris\u00f3logo, com Le\u00e3o, e, pelo escuro e duro com Clemente Alexandrino, com Tertuliano, com Bas\u00edlio de Sel\u00eaucia, com Zeno veronense, e outros, n\u00e3o podemos negar rever\u00eancia a tamanhos autores, posto que desejassem nos que prezam de beber nesses rios, a sua profundidade. Qual ser\u00e1 logo a causa de nossa queixa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-6-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria pelo tipo de mat\u00e9ria que os pregadores usam? Hoje se usa o m\u00e9todo de apostilar o evangelho em que se usam muitas mat\u00e9rias, levantam-se muitos assuntos, e quem levanta muita ca\u00e7a e n\u00e3o segue nenhuma, n\u00e3o recolher\u00e1 coisa alguma; estar\u00e1 sempre com as m\u00e3os vazias. Esta \u00e9 uma boa raz\u00e3o. O serm\u00e3o h\u00e1 de ter um s\u00f3 assunto e uma s\u00f3 mat\u00e9ria. Por isso, Cristo afirmou que o lavrador do evangelho n\u00e3o saiu semeando muitos tipos de sementes, sen\u00e3o uma s\u00f3. <em>Exiit, qui seminat, seminare semen<\/em>. Semeou uma s\u00f3 semente, e n\u00e3o muitas, porque o serm\u00e3o ter\u00e1 apenas um assunto, e n\u00e3o muitos.\u00a0 Se o lavrador semeasse primeiramente o trigo e sobre este semeasse centeio e sobre o centeio semeasse milho gra\u00fado e mi\u00fado, e sobre o milho semeasse cevada, o que haveria de nascer? Uma mata brava, um monte de verde! Assim tamb\u00e9m acontece com os serm\u00f5es desse g\u00eanero: Por semearem tanta variedade n\u00e3o podem colher variedade alguma. Quem semeia misturas, mal consegue colher o trigo. Se uma nau girasse o tim\u00e3o para o norte, depois pro sul e ainda pro leste, como empreenderia sua viagem? Por isso nos p\u00falpitos se trabalha tanto, e se navega t\u00e3o pouco. Um assunto se dispersa como o vento, outro assunto vai para outro vento. O que se colher\u00e1, sen\u00e3o vento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Batista convertia muita gente na Jud\u00e9ia, mas quantos assuntos pregava? Apenas um: <em>Parate iam Domini<\/em>, <a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a> A prepara\u00e7\u00e3o para o reino de Cristo. Jonas converteu os ninivitas, mas de quantos temas falou? Um s\u00f3 tema: <em>Adhue quadraginta dies, et Ninive subertetur<\/em>: <a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>A destrui\u00e7\u00e3o da cidade. De maneira que Jonas durante quarenta dias pregou um s\u00f3 assunto, e n\u00f3s queremos pregar quarenta assuntos em uma hora? Por isso n\u00e3o pregamos nenhum assunto. O serm\u00e3o ser\u00e1 de uma s\u00f3 cor, apresentando apenas um tema, um s\u00f3 assunto, uma s\u00f3 mat\u00e9ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pregador deve se deter num s\u00f3 tema, e tem de defini-lo para que todos o conhe\u00e7am; deve dividi-lo para que o distingam, deve prov\u00e1-lo com as Escrituras, declar\u00e1-lo com a raz\u00e3o, confirm\u00e1-lo com o exemplo, amplific\u00e1-lo com as causas, com os resultados, com as circunst\u00e2ncias, com as conveni\u00eancias que se seguir\u00e3o;\u00a0 responder\u00e1 as d\u00favidas, satisfar\u00e1 as dificuldades, o pregador ter\u00e1 que refutar com toda a for\u00e7a da eloq\u00fc\u00eancia os argumentos contr\u00e1rios, e depois disto colher\u00e1, ajuntar\u00e1, concluir\u00e1, persuadir\u00e1 e h\u00e1 de acabar. Isto \u00e9 serm\u00e3o, isto \u00e9 pregar, e o que n\u00e3o \u00e9 isto sen\u00e3o falar com que \u00e9 mais elevado? N\u00e3o nego nem quero afirmar que o serm\u00e3o n\u00e3o tenha variedade em seu discurso, mas a variedade dever\u00e1 surgir da pr\u00f3pria mat\u00e9ria, continuar e terminar com ela. Querem ver tudo isto com os olhos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, vejam! Uma \u00e1rvore tem ra\u00edzes, troncos, ramos, folhas, varas flores e frutos. Assim deve ser o serm\u00e3o: Deve ter ra\u00edzes fortes e s\u00f3lidas, porque deve tratar de um s\u00f3 assunto e de uma s\u00f3 mat\u00e9ria. Deste tronco nascer\u00e3o diversos ramos, que s\u00e3o diversos discursos, todos nascidos da mesma mat\u00e9ria, mas apegados a ela. Esses ramos n\u00e3o h\u00e3o de ser secos, sen\u00e3o cobertos de folhas, porque os discursos dever\u00e3o ser vestidos e ornados de palavras. A \u00e1rvore tem varas, que s\u00e3o a repreens\u00e3o do v\u00edcio; h\u00e1 de ter flores, que s\u00e3o as senten\u00e7as e para que arremate de tudo, as varas dar\u00e3o frutos e este fruto \u00e9 o que se busca no serm\u00e3o. De maneira que h\u00e1 de se ter frutos, flores, varas, folhas, ramos, mas tudo prov\u00eam de um s\u00f3 tronco que \u00e9 uma s\u00f3 mat\u00e9ria. Se tudo for tronco deixa de ser serm\u00e3o para ser madeira. Se tudo fossem ramos n\u00e3o \u00e9 serm\u00e3o, mas gravetos. Se tudo forem folhas, n\u00e3o ser\u00e1 serm\u00e3o, mas folhagem. Se tudo forem varas, n\u00e3o \u00e9 serm\u00e3o, \u00e9 feixe. Se tudo forem flores n\u00e3o \u00e9 serm\u00e3o, \u00e9 um ramalhete. E nem tudo \u00e9 fruto, porque n\u00e3o existe fruto sem \u00e1rvore. Assim que nesta \u00e1rvore, que podemos chamar de \u00e1rvore da vida, ver-se-\u00e1 o proveito que o fruto traz; a formosura das flores; o vigor das varas, o vestido das folhas, os ramos estendidos, por\u00e9m, tudo isso \u00e9 nascido e formado a partir de um tronco, e esse n\u00e3o \u00e9 solto no ar, sen\u00e3o arraigado nas ra\u00edzes do evangelho. <em>Seminare semen.<\/em> Eis como devem ser os serm\u00f5es e eis como n\u00e3o devem ser. Assim, n\u00e3o \u00e9 preciso muito para que o serm\u00e3o frutifique.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que tenho falado poderia ser demonstrado largamente, n\u00e3o s\u00f3 com os preceitos de Arist\u00f3teles, dos T\u00falios, dos Quintilianos, mas com a pr\u00e1tica observada pelo pr\u00edncipe dos oradores evang\u00e9licos, Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, por S\u00e3o Bas\u00edlio Magno, S\u00e3o Bernardo, S\u00e3o Cipriano e com as famos\u00edssimas ora\u00e7\u00f5es de Greg\u00f3rio Nazianzeno, mestres de ambas as igrejas. E posto que nestes mesmos padres, como em Agostinho, Greg\u00f3rio e muitos outros os evangelhos est\u00e3o apostilados com nomes de serm\u00f5es e homilias; uma coisa \u00e9 expor, outra \u00e9 pregar; uma ensinar e outra persuadir. Sobre esta \u00faltima \u00e9 que falo, com a qual tanto fruto deram pregadores santos. Mas, nem por isso entendo que seja esta a verdadeira causa que procuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-7-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria pela falta de conhecimento que existe em tantos pregadores? Muitos pregadores vivem do que n\u00e3o colheram e semeiam o que n\u00e3o trabalharam. Depois da senten\u00e7a de Ad\u00e3o a terra n\u00e3o costuma dar fruto, a n\u00e3o ser aquele que \u00e9 preparado com o suor de seu rosto. Esta, pois, parece ser uma boa raz\u00e3o. O pregador deve pregar o seu e n\u00e3o o alheio, pois Cristo diz que semeou o lavrador o seu fruto: <em>Semen suum.<\/em> Semeou o seu e n\u00e3o o alheio, porque o alheio e o furtado n\u00e3o serve pra ser semeado, ainda que se furte o conhecimento. Eva comeu o pomo do conhecimento, e queixava-me eu antigamente dessa nossa m\u00e3e, j\u00e1 que comeu o pomo, porque n\u00e3o guardou as sementes? N\u00e3o seria bom que reservasse pra n\u00f3s as sementes, assim como nos reservou suas conseq\u00fc\u00eancias? Por que Eva n\u00e3o fez isso? Porque o fruto era roubado, e o alheio \u00e9 bom para comer, mas n\u00e3o \u00e9 bom para semear. \u00c9 bom para comer, porque dizem que \u00e9 saboroso, n\u00e3o \u00e9 bom para semear porque n\u00e3o nasce. Algu\u00e9m ter\u00e1 experimentado que o alheio lhe nasce em casa, mas, esteja certo que n\u00e3o nasceu, n\u00e3o lan\u00e7ar\u00e1 ra\u00edzes, e o que n\u00e3o tem ra\u00edzes n\u00e3o frutifica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis aqui por que muitos pregadores n\u00e3o d\u00e3o frutos, porque pregam o alheio e n\u00e3o o seu. <em>Semen suun.<\/em> Pregar \u00e9 entrar na batalha contra os v\u00edcios, e armas alheias, ainda que sejam de Aquiles a ningu\u00e9m deram vit\u00f3ria. <a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a> Quando Davi saiu para lutar contra o gigante, Saul lhe ofereceu suas armas, mas ele n\u00e3o as quis aceitar. Com armas alheias ningu\u00e9m pode vencer, ainda que seja Davi. As armas de Saul servem somente a Saul, e as de Davi a Davi, e mais proveito na m\u00e3o de Davi tem uma funda e um cajado pr\u00f3prios que a espada e a lan\u00e7a alheia. Pregador que peleja com as armas alheias, pode estar certo de que n\u00e3o derrubar\u00e1 o gigante. Cristo, de seus ap\u00f3stolos os fez pescadores de homens, e o que faziam os ap\u00f3stolos? Diz o texto que estavam <em>reficientes retia sua; <\/em>refazendo suas redes; eram as redes dos ap\u00f3stolos e n\u00e3o eram alheias. Note; <em>Retia sua: <\/em>N\u00e3o diz que eram suas porque as compraram, sen\u00e3o que eram suas porque as faziam; n\u00e3o eram suas porque custaram o seu dinheiro, se n\u00e3o porque lhe custaram o trabalho. Desta maneira eram as redes suas; e por serem suas, eram redes de pescadores que pescariam homens. Com redes alheias ou feitas por m\u00e3os alheias, podem-se pescar peixes, mas n\u00e3o homens. Isto porque nesta pesca de entendimentos s\u00f3 quem sabe fazer a rede, sabe fazer o la\u00e7o. Como se faz uma rede? A malha \u00e9 feita de fios e n\u00f3s; quem n\u00e3o tece nem ata como pescar\u00e1 homens? A rede tem chumbada que a leva para o fundo e a corti\u00e7a que a eleva acima das \u00e1guas. A prega\u00e7\u00e3o tem umas coisas de mais peso e mais fundo, e t\u00eam outras mais superficiais e mais leves, e manobrar o pesado e o leve s\u00f3 o pode fazer quem a rede fez. Na boca de que n\u00e3o prepara a prega\u00e7\u00e3o, at\u00e9 o chumbo \u00e9 corti\u00e7a. As raz\u00f5es n\u00e3o dever\u00e3o ser enxertadas, dever\u00e3o ser nascidas. O pregar n\u00e3o \u00e9 recitar. As raz\u00f5es pr\u00f3prias nascem do entendimento, as alheias v\u00e3o apegadas \u00e0 mem\u00f3ria, e os homens n\u00e3o se convencem pela mem\u00f3ria, sen\u00e3o pelo entendimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Esp\u00edrito Santo veio sobre os ap\u00f3stolos, e quando as l\u00ednguas desciam do c\u00e9u, cuidava eu que se lhes haviam de p\u00f4r na boca, mas elas repousaram sobre a cabe\u00e7a. Ent\u00e3o, por que na cabe\u00e7a e n\u00e3o na boca que \u00e9 o lugar da l\u00edngua? Porque o que o pregador tem a dizer n\u00e3o sair\u00e1 somente pela boca; sair\u00e1 da cabe\u00e7a e da boca. O que sai apenas da boca p\u00e1ra nos ouvidos; o que nasce do ju\u00edzo penetra e convence o entendimento. Estas l\u00ednguas do Esp\u00edrito Santo t\u00eam muitos mist\u00e9rios. Diz o texto que as l\u00ednguas n\u00e3o ca\u00edram sobre os ap\u00f3stolos, mas uma sobre cada um deles (Atos 2.3). E por que cada um sobre cada um e n\u00e3o todas sobre todos? Porque n\u00e3o servem todas as l\u00ednguas a todos, sen\u00e3o cada um a sua pr\u00f3pria l\u00edngua. Uma l\u00edngua s\u00f3 sobre Pedro, porque a l\u00edngua de Pedro n\u00e3o serve a Andr\u00e9; porque a l\u00edngua de Andr\u00e9 n\u00e3o serve a Felipe. Outra l\u00edngua sobre Filipe, porque a l\u00edngua de Filipe n\u00e3o serve a Bartolomeu etc. Veja o estilo de cada um dos ap\u00f3stolos sobre quem veio o Esp\u00edrito Santo. Temos relatos escritos de apenas cinco deles, mas a diferen\u00e7a com que escreveram, como sabem os mestres \u00e9 admir\u00e1vel. As penas foram tiradas das asas daquela pomba divina, mas o estilo t\u00e3o diverso, t\u00e3o particular e t\u00e3o pr\u00f3prio de cada um mostra quem era cada um deles. Mateus, f\u00e1cil. Jo\u00e3o, misterioso. Pedro, grave, Tiago, forte; Judas Tadeu sublime, mas todos com tal valentia no falar que cada palavra era um trov\u00e3o; cada cl\u00e1usula um raio, e cada raz\u00e3o um triunfo. Ajuntem-se os cinco e a Lucas e Marcos e encontrareis o n\u00famero daqueles sete trov\u00f5es que Jo\u00e3o ouviu no Apocalipse: <em>Locuta sunt septem tonitrua voces suas. <a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><strong>[19]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eram suas vozes e n\u00e3o de outros. Enfim, pregar o alheio \u00e9 pregar o alheio, e com o alheio nunca se faz coisa boa. Contudo, eu n\u00e3o me firmo de todo nesta raz\u00e3o, porque do grande Jo\u00e3o Batista sabemos que pregara o que falara Isa\u00edas, como notou Lucas: \u201cEle percorreu toda a circunvizinhan\u00e7a do Jord\u00e3o, pregando batismo de arrependimento para remiss\u00e3o de pecados, conforme est\u00e1 escrito no livro das palavras do profeta Isa\u00edas: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas\u201d (Lc 3.3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-8-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria a causa que buscamos a voz com que falam os pregadores? Antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversando. Antigamente um pregador era conhecido pela boa voz e pelo bom peito. E, claro, como o mundo \u00e9 governado pelos sentidos, os brados s\u00e3o mais preferidos que as raz\u00f5es. Este \u00e9 um bom argumento, mas n\u00e3o podemos prov\u00e1-lo com o semeador, porque j\u00e1 dissemos que semear n\u00e3o \u00e9 of\u00edcio da boca. Por\u00e9m, o que nos negou o evangelho no semeador metaf\u00f3rico, nos deu no semeador verdadeiro que \u00e9 Cristo. Tanto que Cristo ao terminar a par\u00e1bola, diz o evangelho, come\u00e7ou a bradar: <em>Haec dicens elamabat<\/em>. <a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a> O Senhor bradou e n\u00e3o arrazoou sobre a par\u00e1bola, porque era tal o audit\u00f3rio que fiou mais dos brados que da raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntaram a Jo\u00e3o, o Batista, \u201cquem \u00e9s tu?\u201d e ele respondeu: <em>Ego Vox clamantis in deserto.<\/em> <a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a> Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto, e foi assim que Jo\u00e3o se definiu. Eu cuidara que a defini\u00e7\u00e3o do pregador era: voz que arrazoa e n\u00e3o voz que brada. Pois, por que Jo\u00e3o se definiu pelo bradar, e n\u00e3o pelo arrazoar; n\u00e3o pela raz\u00e3o, sen\u00e3o pelos brados? Porque existe muita gente que os brados s\u00e3o mais efetivos que a raz\u00e3o, e assim era o p\u00fablico a quem Jo\u00e3o se dirigia. Veja claramente em Cristo. Depois que Pilatos examinou as acusa\u00e7\u00f5es que contra Cristo se davam, lavou as m\u00e3os e disse: <em>Ego nullam causam invenio in homine isto.<\/em> <a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a> Nada encontrei neste homem. Neste tempo, todo o povo e os escribas bradavam do lado de fora que Cristo fosse crucificado: <em>At illi magis clamabant, crucifigatur.<\/em> <a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a> Assim, Cristo tinha por si a raz\u00e3o e contra si os brados. E qual foi mais efetivo? Os brados foram mais fortes que a raz\u00e3o. A raz\u00e3o n\u00e3o valeu para o livrar, mas os brados bastaram para lev\u00e1-lo a cruz. E como os brados s\u00e3o t\u00e3o eficazes \u00e9 comum aos pregadores berrar e n\u00e3o arrazoar. Por isso Isa\u00edas clamou aos pregadores, nuvens: <em>Qui sunt isti, qui ut nubes volant?<\/em> <a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a> A nuvem tem rel\u00e2mpago, trov\u00e3o e raio. Rel\u00e2mpago para os olhos, trov\u00e3o para os ouvidos, raio para o cora\u00e7\u00e3o. Com o rel\u00e2mpago ilumina, com o trov\u00e3o assombra, e com o raio mata. O raio fere a um, o rel\u00e2mpago a muitos, e o trov\u00e3o a todos. Assim h\u00e1 de ser a voz do pregador: Um trov\u00e3o do c\u00e9u que assombre e fa\u00e7a tremer o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, que diremos \u00e0 ora\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s: <em>Concrescat ut pluvia doctrina me\u00e3: fluat ut ros eloquium meum? <a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\"><strong>[25]<\/strong><\/a> <\/em>Des\u00e7a minha doutrina como a chuva do c\u00e9u e a minha voz e minhas palavras como orvalho que se destila brandamente e sem ru\u00eddo? Que diremos ao exemplo ordin\u00e1rio de Cristo, t\u00e3o celebrado por Isa\u00edas: <em>Non clamabit neque audietur voz ejus foris?<\/em> <a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a> N\u00e3o clamar\u00e1, n\u00e3o bradar\u00e1, mas falar\u00e1 com uma voz t\u00e3o moderada que se n\u00e3o consiga ouvir do lado de fora. Sem d\u00favida que falar ao p\u00e9 do ouvido e n\u00e3o aos ouvidos, n\u00e3o s\u00f3 chama mais aten\u00e7\u00e3o, mas, naturalmente e sem for\u00e7a se insinua, porque entra, penetra e se mete na alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concluo que a raz\u00e3o dos pregadores n\u00e3o darem frutos com sua prega\u00e7\u00e3o da palavra de Deus, n\u00e3o \u00e9 a circunst\u00e2ncia da pessoa: <em>Qui seminat<\/em>; nem o estilo: <em>seminare;<\/em> nem a mat\u00e9ria: <em>semen;<\/em> nem o conhecimento: <em>suun<\/em>; nem a voz: <em>Clamabat. <\/em>Mois\u00e9s tinha uma voz fraca. <a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a> Am\u00f3s tinha um estilo grosseiro. <a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a> Salom\u00e3o multiplicava e variava os assuntos. <a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[29]<\/a> Bala\u00e3o n\u00e3o tinha exemplo de vida. <a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">[30]<\/a> O seu animal n\u00e3o tinha conhecimento, e, contudo, todos estes falando, persuadiam e convenciam. Pois se nenhuma das raz\u00f5es que discorremos, nem todas elas juntas s\u00e3o a causa principal nem a causa suficiente para a falta de fruto dos pregadores, qual, ent\u00e3o, a verdadeira causa da palavra dos pregadores n\u00e3o frutificar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-9-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As palavras que tomei por tema o dizem: <em>Semen est Verbum Dei<\/em>. Sabem, por que as prega\u00e7\u00f5es n\u00e3o trazem resultados hoje? \u00c9 porque as palavras dos pregadores s\u00e3o palavras, mas n\u00e3o s\u00e3o as palavras de Deus! Falo aqui do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus \u2013 como dizia \u2013 \u00e9 t\u00e3o poderosa e t\u00e3o eficaz, que n\u00e3o d\u00e1 fruto apenas em boa terra, mas at\u00e9 nas pedras e por entre os espinhos nasce. Mas, se as palavras dos pregadores n\u00e3o s\u00e3o palavras de Deus como se sentir\u00e1 o efeito delas? <em>Ventum seminabant, et turbinem colligent,<\/em> <a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\">[31]<\/a> diz o Esp\u00edrito Santo: Quem semeia ventos colhe tempestades. Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega \u00e9 vaidade, se n\u00e3o se prega a palavra de Deus, eis a raz\u00e3o porque a igreja de Deus colhe tormenta em vez de frutos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00eas perguntar\u00e3o: Mas, padre, os pregadores de hoje n\u00e3o pegam o evangelho, n\u00e3o pregam as sagradas escrituras? Pois, como n\u00e3o pregam a palavra de Deus? Esse \u00e9 o mal. Pregam palavras de Deus, mas n\u00e3o pregam a palavra de Deus. <em>Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere<\/em>, <a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\">[32]<\/a>disse Deus atrav\u00e9s de Jeremias. As palavras de Deus pregadas no sentido em que Deus as disse s\u00e3o palavras de Deus; mas, pregadas no sentido que n\u00f3s queremos, n\u00e3o s\u00e3o palavras de Deus, antes, podem ser palavras de dem\u00f4nios. O dem\u00f4nio tentou a Cristo para que transformasse as pedras em p\u00e3o. Respondeu-lhe, o Senhor: <em>Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore Dei.<\/em> <a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\">[33]<\/a> Esta senten\u00e7a foi tirada do cap\u00edtulo oito de Deuteron\u00f4mio. Quando o dem\u00f4nio viu que o Senhor se livrava da tenta\u00e7\u00e3o usando a escritura, levou-o ao templo, e usando o Salmo 90, diz-lhe desta maneira: <em>Mitte te deorsum; scriptum este mim, quia Angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus vii tuis.<\/em> <a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\">[34]<\/a> Atira-te daqui, porque nas escrituras est\u00e1 escrito que os anjos te tomar\u00e3o em seus bra\u00e7os para que mal algum sofras. De sorte que Cristo se defendeu do diabo com as escrituras, e o diabo tentou a Cristo usando as escrituras. Todas as escrituras s\u00e3o palavras de Deus; pois, se Cristo usa a palavra de Deus para se defender do diabo, como o diabo toma a Escritura para tentar a Cristo? A raz\u00e3o \u00e9 porque Cristo usava as palavras da escritura em seu verdadeiro sentido, e o diabo tomava as palavras da escritura em sentido alheio e distorcido. E, as mesmas palavras, que usadas em seu verdadeiro sentido s\u00e3o palavras de Deus, tomadas em sentido alheio s\u00e3o armas do diabo. As mesmas palavras tomadas no sentido em que Deus as disse s\u00e3o defesa; tomadas no sentido em que Deus n\u00e3o disse, s\u00e3o tenta\u00e7\u00e3o. Eis aqui a tenta\u00e7\u00e3o com o que o diabo tentou derrubar a Cristo e que hoje faz a mesma guerra do pin\u00e1culo do templo. O pin\u00e1culo do templo \u00e9 o p\u00falpito; porque \u00e9 o lugar mais alto do templo. O diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-o no monte; tentou-o no templo: no deserto tentou-o com a gula, no monte tentou-o com a ambi\u00e7\u00e3o; no templo tentou-o com as escrituras mal interpretadas; essa \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o que mais sofre a igreja, e que em muitas partes t\u00eam derrubado dela n\u00e3o s\u00f3 a Cristo, mas a f\u00e9!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Digam-me pregadores (aqueles com que falo indignos verdadeiramente de t\u00e3o sagrado nome); falem-me desses assuntos in\u00fateis que tantas vezes voc\u00eas pregam; esses t\u00f3picos, que, ao que parece voc\u00eas tanto gostam, voc\u00eas os encontraram nos profetas do Antigo Testamento ou nos ap\u00f3stolos e evangelistas do Novo Testamento ou em Cristo, o autor de ambos os testamentos? \u00c9 certo que n\u00e3o. Porque do G\u00eanesis ao Apocalipse n\u00e3o se v\u00ea tais coisas nas escrituras. Pois se nas escrituras n\u00e3o h\u00e1 base para o que voc\u00eas pregam, como, ent\u00e3o voc\u00eas pregam a palavra de Deus? E mais. Nesses lugares, nesses textos que voc\u00eas alegam ser a prova do que dizem, \u00e9 esse o sentido do que Deus disse? \u00c9 nesse sentido que entendem os pregadores da igreja? \u00c9 esse o sentido da mesma gram\u00e1tica das palavras? Claro que n\u00e3o. Porque muitas vezes voc\u00eas tomam pelo que lhes parece e n\u00e3o pelo que significam. E se n\u00e3o s\u00e3o palavras de Deus por que nos queixamos que n\u00e3o frutificam? Basta que se tragam as palavras de Deus e lhes d\u00ea o sentido que n\u00f3s queremos, e n\u00e3o haveremos de dizer o que elas dizem! Verdadeiramente n\u00e3o sei o que mais me espanta, se dos nossos conceitos ou de seus aplausos. \u00d3 que prega\u00e7\u00e3o maravilhosa! Assim \u00e9, mas quem a tornou maravilhosa? Um falso testemunho ao texto, outro ao entendimento ou ao sentido de ambos. Ent\u00e3o, querem que o mundo se converta com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se algu\u00e9m achar que minha censura \u00e9 forte demais, ou\u00e7a-me!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristo estava em p\u00e9 sendo acusado diante de Caif\u00e1s, e o evangelista Mateus diz que vieram duas falsas testemunhas: <em>Novissime venerunt duo falsi testes<\/em>. <a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\">[35]<\/a> Essas testemunhas afirmaram que Cristo disse que se os judeus destru\u00edssem o templo ele o reconstruiria em tr\u00eas dias. Ao lermos o evangelista Jo\u00e3o veremos que ele, de fato falou isso. Pois se Cristo falara que ele reedificaria o templo em tr\u00eas dias, e era a isto o que as testemunhas diziam, por que o evangelista as chama de falsas testemunhas? Quando Cristo falou que em tr\u00eas dias reconstruiria o templo referia-se ao seu corpo que \u00e9 o templo, afirmou Jo\u00e3o. <a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\">[36]<\/a> Os judeus destru\u00edram seu templo pela morte, e o Senhor o reconstruiu pela ressurrei\u00e7\u00e3o; e como Cristo falava do templo m\u00edstico, e as testemunhas se referiam ao templo de pedras de Jerusal\u00e9m, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas porque Cristo falou aquelas palavras com um sentido, e as testemunhas se referiam a outro sentido. E quando se menciona a palavra de Deus num sentido diferente do que foi dito, levanta-se falso testemunho diante de Deus; falso testemunho das escrituras. Ah! Senhor, quantos falsos testemunhos ainda hoje se levantam contra ti! Quantas vezes ou\u00e7o dizer que disseste o que nunca falaste! Quantas vezes ou\u00e7o dizer que suas palavras n\u00e3o passam de minhas imagina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miser\u00e1veis de n\u00f3s. Miser\u00e1veis do nosso tempo, pois nele se cumpre a profecia de Paulo: <em>Erit tempus, cum sabam doctrinam non sustinebunt<\/em>. <a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\">[37]<\/a> Chegar\u00e1 o tempo em que os homens n\u00e3o suportar\u00e3o a s\u00e3 doutrina, mas, para seu apetite ter\u00e3o grande n\u00famero de pregadores feitos em s\u00e9rie, sem escolha, que gostam apenas de causar coceiras nos ouvidos de seus ouvintes. Fechar\u00e3o os ouvidos \u00e0 verdade, e o abrir\u00e3o \u00e0s f\u00e1bulas. F\u00e1bulas possuem dois sentidos: Fingimento e com\u00e9dia. E s\u00e3o estas as prega\u00e7\u00f5es que se ouvem neste tempo. \u00c9 fingimento, porque s\u00e3o sutilezas e pensamentos a\u00e9reos sem fundamento da verdade, e s\u00e3o com\u00e9dias, porque os ouvintes veem a prega\u00e7\u00e3o como um divertimento; e pregadores h\u00e1 que sobem no p\u00falpito como comediantes! Uma das coisas que se comentava presentemente era de que se acabaram as com\u00e9dias em Portugal. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. N\u00e3o se acabaram as com\u00e9dias; mudaram de lugar. Sa\u00edram do teatro para os p\u00falpitos. Por isso chamo de com\u00e9dias muitas das prega\u00e7\u00f5es que ou\u00e7o. Quisera ter aqui as com\u00e9dias de Plut\u00e3o, de Ter\u00eancio, de S\u00eaneca e voc\u00eas veriam se nelas n\u00e3o existem tantos desenganos da vida, vaidade do mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros e muito mais s\u00f3lidos do que as prega\u00e7\u00f5es que hoje se ouvem nos p\u00falpitos. Certamente a pior coisa hoje \u00e9 que existam tantos conselhos para a vida nos versos de um poeta profano e gentio do que nas prega\u00e7\u00f5es de um orador crist\u00e3o, e, muitas vezes sobre crist\u00e3o religioso!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo n\u00e3o falou muito sobre um serm\u00e3o ser com\u00e9dia, porque existem serm\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o com\u00e9dia, mas uma farsa. Sobe ao p\u00falpito um pregador que se afirma morto para o mundo, vestido com simplicidade, o que indica penit\u00eancia, (que todos, mais ou menos \u00e1speros s\u00e3o de penit\u00eancia, e todos desde o dia em que o professam, mortalhas), a vista \u00e9 de horror, o nome de rever\u00eancia, a dignidade de or\u00e1culo, o lugar e expectativa de sil\u00eancio; e, quando este se rompeu, o que se ouve? Se neste audit\u00f3rio estivesse um estrangeiro que n\u00e3o nos conhecesse, e visse esse homem entrar e subir ao p\u00falpito naqueles trajos imaginaria que haveria de ouvir uma trombeta do c\u00e9u; que cada palavra sua seria como um raio para os cora\u00e7\u00f5es, que haveria de pregar com zelo, e com o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto, e com as a\u00e7\u00f5es, haveria de transformar os v\u00edcios em p\u00f3 e cinza. Assim pensaria ou esperaria o estrangeiro. E n\u00f3s, o que vemos? Vemos sair da boca daquele homem, vestido assim t\u00e3o humildemente, uma voz trabalhada e polida, e logo come\u00e7ar com muito desgarro, a qu\u00ea? A motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar firmezas, a lisonjear precip\u00edcios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a tocar primaveras e outras mil indignidades. N\u00e3o \u00e9 isto farsa a mais digna de riso, se n\u00e3o foram tanto para chorar? Na com\u00e9dia o rei se veste como rei, fala como rei; o lacaio, o r\u00fastico veste como r\u00fastico e fala como r\u00fastico, mas, um pregador se vestir como religioso e falar como&#8230; N\u00e3o o quero dizer por rever\u00eancia do lugar. J\u00e1 que o p\u00falpito \u00e9 teatro, e o serm\u00e3o com\u00e9dia, n\u00e3o se deveria proceder corretamente com essas figuras? Assim pregava Paulo, assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram desses h\u00e1bitos? N\u00e3o louvamos e n\u00e3o admiramos o seu pregar; n\u00e3o nos prezamos de sermos seus filhos? E, por que n\u00e3o os imitamos? Por que n\u00e3o pregamos como eles pregavam? Neste mesmo tempo pregou S\u00e3o Francisco Xavier, S\u00e3o Francisco de Borja, e eu que me visto como eles por que n\u00e3o pregarei a sua doutrina, j\u00e1 que me falta o seu esp\u00edrito?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-10-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00eas dir\u00e3o a mesma coisa que outros me dizem e o que j\u00e1 tenho experimentado, que se pregarmos assim, zombam de n\u00f3s os ouvintes e n\u00e3o gostam de ouvir. Oh! Boa raz\u00e3o para um servo de Jesus Cristo! Zombem e n\u00e3o gostem, embora, e fa\u00e7amos nosso trabalho. A doutrina que eles zombam, que desestimam, essa \u00e9 a que lhes devemos pregar, e, por isso mesmo, porque \u00e9 a mais proveitosa e mais importante. O trigo que caiu no caminho comeram-no as aves. Estas aves, como explicou Jesus s\u00e3o os dem\u00f4nios que tiram a palavra de Deus do cora\u00e7\u00e3o dos homens: <em>Venit diabolus, et tollit verbum de corde eorum.<\/em> E por que o diabo n\u00e3o comeu o trigo que caiu entre os espinhos ou o trigo que caiu nas pedras, mas apenas o que caiu \u00e0 beira do caminho? Porque o trigo que caiu no caminho, pisaram-no os homens. E a doutrina que os homens pisam, a doutrina que os homens desprezam essa \u00e9 a que o diabo mais teme! Desses outros conceitos, desses outros pensamentos, dessas outras sutilezas que os homens apreciam e prezam, essas ele n\u00e3o teme, nem se interessa o diabo, porque sabe que essas prega\u00e7\u00f5es n\u00e3o arrebatar\u00e3o as pessoas de suas garras. Mas, daquela doutrina que cai, <em>secus viam<\/em>; daquela doutrina que parece trilhada; que nos p\u00f5e a caminho para a nossa salva\u00e7\u00e3o (que \u00e9 a que os homens pisam, e desprezam), essa \u00e9 a de que o dem\u00f4nio tem medo e se acautela; essa \u00e9 a que ele procura comer e tirar do mundo. Assim, essa \u00e9 a que deviam pregar os pregadores e a que os ouvintes deveriam anelar. Mas, se eles n\u00e3o o fizerem assim, e zombarem de n\u00f3s, zombemos n\u00f3s tanto de suas zombarias, como de seus aplausos. <em>Per infamiam, et bonam famam, <a href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref38\"><strong>[38]<\/strong><\/a><\/em> . O pregador saber\u00e1 pregar com fama e sem fama. Ainda diz mais o ap\u00f3stolo: Pregar\u00e1 com fama e com inf\u00e2mia. Quando o pregador prega para ficar famoso \u00e9 mundanismo. Mas, inflamado e pregar o que conv\u00e9m, ainda que seja com descr\u00e9dito de sua fama, isso \u00e9 ser pregador de Jesus Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostem ou n\u00e3o os ouvintes! Oh! Que advert\u00eancia t\u00e3o digna! Que m\u00e9dico h\u00e1 que repare no gesto do enfermo quando trata de cuidar da sa\u00fade? Que fiquem sarados, gostem ou n\u00e3o. Salvem-se e amarguem-lhes, pois para isso somos m\u00e9dicos de almas. Que pedras s\u00e3o essas sobre as quais caiu boa parte do trigo do evangelho? Quando Cristo explica o sentido da par\u00e1bola afirma que elas s\u00e3o os ouvintes que ouvem com gosto a prega\u00e7\u00e3o: <em>Hi sunt, qui cum Gaudio suscipiunt verbum<\/em>. Ser\u00e1 que os ouvintes gostam e que ao fim continuem sendo pedras? N\u00e3o gostem, e abrandem-se; n\u00e3o gostem e quebrem-se; n\u00e3o gostem e frutifiquem. Foi desse modo que frutificou o trigo que caiu em boa terra. <em>Et fructum afferunt in patientia<\/em>, conclui Cristo. De maneira que o frutificar n\u00e3o se ajunta com o gostar, se n\u00e3o com o padecer; frutifiquemos e tenham eles paci\u00eancia. A prega\u00e7\u00e3o que frutifica; a prega\u00e7\u00e3o que aproveita, n\u00e3o \u00e9 aquela que o ouvinte goste e, sim aquela que lhe traz penas (dores pelo pecado). Quando o ouvinte treme a cada palavra do pregador; quando cada palavra do pregador \u00e9 uma tortura para o cora\u00e7\u00e3o do ouvinte; quando o ouvinte ouve o serm\u00e3o e volta pra casa confuso e at\u00f4nito, sem saber parte de si, ent\u00e3o \u00e9 a prega\u00e7\u00e3o que conv\u00e9m e pode-se esperar que frutificar\u00e1. <em>Et fructum afferunt in patientia<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, para que os pregadores saibam o que h\u00e3o de pregar e os ouvintes o que h\u00e3o de ouvir, dou um exemplo de nosso reino, quase de nosso tempo. Pregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos conhecidos por seus escritos. N\u00e3o os cito porque posso desigual\u00e1-los. Altercou-se entre alguns doutores da universidade qual dos dois era o maior pregador, e, como n\u00e3o existe julgamento sem parcialidade, uns dizem este; outros, aquele. Mas, um deles, que entre os demais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: Entre dois sujeitos t\u00e3o grandes n\u00e3o me atrevo opinar e julgar, apenas direi uma diferen\u00e7a que sempre experimento. Quando ou\u00e7o um, saio do serm\u00e3o muito contente com o pregador; quando ou\u00e7o o outro, saio descontente comigo. Isso diz tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguma vez voc\u00eas se enganaram comigo e sa\u00edram do serm\u00e3o contentes com o pregador; agora, quisera eu enganar a voc\u00eas que sair\u00e3o descontentes consigo mesmos. Semeadores do evangelho, eis o que devemos pretender com nossos serm\u00f5es; n\u00e3o que os homens saiam contentes conosco, se n\u00e3o que saiam descontentes com eles; n\u00e3o que lhes pare\u00e7am bem os nossos conceitos, mas que lhes pare\u00e7am mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambi\u00e7\u00f5es e, enfim, todos os seus pecados. Contanto que fiquem tristes consigo, que se entriste\u00e7am conosco. <em>Si hominibus placerem, Christi servus non essem<\/em>, <a href=\"#_ftn39\" name=\"_ftnref39\">[39]<\/a> dizia Paulo, o maior de todos os pregadores. Se eu agradasse aos homens n\u00e3o seria servo de Deus. Oh! Contentemos a Deus, e n\u00e3o fa\u00e7amos caso dos homens! \u00c9 preciso advertir que nesta igreja existem tribunas mais altas que as que vemos. <em>Spectaculum facti sumus Deo, Angelis, et hominibus <a href=\"#_ftn40\" name=\"_ftnref40\"><strong>[40]<\/strong><\/a><\/em>. Acima da tribuna dos reis est\u00e3o as tribunas dos anjos, mais acima o tribunal de Deus que nos ouve e que h\u00e1 de nos julgar. Que contas prestar\u00e1 a Deus um pregador no dia do ju\u00edzo? O ouvinte dir\u00e1: N\u00e3o me falaram disso, mas, e o pregador? <em>Vae mihi, quia tacui<\/em>. <a href=\"#_ftn41\" name=\"_ftnref41\">[41]<\/a> Ai de mim que n\u00e3o disse o que era para ser dito! N\u00e3o seja mais assim, por amor de Deus e de n\u00f3s. Estamos \u00e0s portas da Quaresma que \u00e9 o tempo em que, principalmente se semeia a palavra de Deus na igreja e em que ela se arma contra os v\u00edcios. Preguem e nos armem contra os pecados, contra as soberbas, contra os \u00f3dios, contra as ambi\u00e7\u00f5es, contra as invejas, contra as cobi\u00e7as e a sensualidade. Veja o c\u00e9u que ainda tem na terra; saiba o inferno que ainda h\u00e1 na terra quem lhe fa\u00e7a guerra com a palavra de Deus; e saiba a mesma terra que ela est\u00e1 reverdecendo e que ainda pode muito frutificar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Vieira faz um trocadilho com pa\u00e7o (pal\u00e1cio) e passos, (andar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ez 1.12<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Marcos 16.15<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ez 1.14<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Mateus 5.45: porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Liberdade\u00a0para\u00a0escolher;\u00a0arb\u00edtrio, vontade pr\u00f3pria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> 1 Samuel 16.23<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Jo\u00e3o 1.14: E o Verbo se fez carne.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Jo\u00e3o 3.2: porque ningu\u00e9m pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus n\u00e3o estiver com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Romanos 10.17: a f\u00e9 vem pela prega\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Gn 30.39<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Salmo 19.1: Os c\u00e9us proclamam a gl\u00f3ria de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas m\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Salmo 19.4: por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, at\u00e9 aos confins do mundo. A\u00ed, p\u00f4s uma tenda para o sol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Ju\u00edzes 5.20: Desde os c\u00e9us pelejaram as estrelas contra S\u00edsera, desde a sua \u00f3rbita o fizeram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> N. T. Dicion\u00e1rio de Ambr\u00f3sio Calepino publicado em 1502 teve v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es ao longo os anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Mt 3.3: Preparai o caminho do Senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Jonas 3.4: Ainda quarenta dias, e N\u00ednive ser\u00e1 subvertida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> P\u00e1troclo com as armas de \u00c1quila foi vencido e morto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Ap 10.3: \u201ce, quando bradou, desferiram os sete trov\u00f5es as suas pr\u00f3prias vozes\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Lucas 8.8: Quem tem ouvidos para ouvir, ou\u00e7a!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Jo\u00e3o 1.23: Eu sou a voz que clama no deserto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Lucas 23.14. Nenhuma coisa encontrei neste homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> Mateus 27.23: Por\u00e9m cada vez clamavam mais: Seja crucificado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> Isa\u00edas 60.8: Quem s\u00e3o estes que v\u00eam voando como nuvens e como pombas, ao seu pombal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> Dt 32.1: Goteje a minha doutrina como a chuva, destile a minha palavra como o orvalho, como chuvisco sobre a relva e como gotas de \u00e1gua sobre a erva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> Isa\u00edas 42.2 N\u00e3o clamar\u00e1, nem gritar\u00e1, nem far\u00e1 ouvir a sua voz na pra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> Ex 4.10: voce gracili, segundo a Septuaginta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> Am 1.1<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[29]<\/a> Eclesiastes 1<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">[30]<\/a> N\u00fameros 22 e 23<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\">[31]<\/a> Este digitador n\u00e3o encontrou em lugar algum da B\u00edblia esta express\u00e3o atribu\u00edda ao Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\">[32]<\/a> Jeremias 23.28: aquele em quem est\u00e1 a minha palavra fale a minha palavra com verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\">[33]<\/a> Mateus 4.4: N\u00e3o s\u00f3 de p\u00e3o viver\u00e1 o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref34\" name=\"_ftn34\">[34]<\/a> Mateus 4.6: Se \u00e9s Filho de Deus, atira-te abaixo, porque est\u00e1 escrito: Aos seus anjos ordenar\u00e1 a teu respeito que te guardem; e: Eles te suster\u00e3o nas suas m\u00e3os, para n\u00e3o trope\u00e7ares nalguma pedra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref35\" name=\"_ftn35\">[35]<\/a> Mateus 26.60: Apareceram duas testemunhas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref36\" name=\"_ftn36\">[36]<\/a> Jo\u00e3o 2.21: Ele, por\u00e9m, se referia ao santu\u00e1rio do seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref37\" name=\"_ftn37\">[37]<\/a> 2 Tim\u00f3teo 4.3: Pois haver\u00e1 tempo em que n\u00e3o suportar\u00e3o a s\u00e3 doutrina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref38\" name=\"_ftn38\">[38]<\/a> 2 Cor\u00edntios 6.8: por honra e por desonra<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref39\" name=\"_ftn39\">[39]<\/a> G\u00e1latas 1.10: Se agradasse ainda a homens, n\u00e3o seria servo de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref40\" name=\"_ftn40\">[40]<\/a> 1 Cor\u00edntios 4.9: porque nos tornamos espet\u00e1culo ao mundo, tanto a anjos, como a homens. (No texto l\u00ea-se mundo, e n\u00e3o Deus).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref41\" name=\"_ftn41\">[41]<\/a> Isa\u00edas 6.5: Estou perdido!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresenta\u00e7\u00e3o: Este serm\u00e3o foi pregado na capela real no ano de 1655 logo de seu regresso do Estado do Maranh\u00e3o. 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