{"id":755,"date":"2008-11-14T21:44:58","date_gmt":"2008-11-14T23:44:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/?p=755"},"modified":"2010-12-14T21:45:34","modified_gmt":"2010-12-14T23:45:34","slug":"abraao-justificado-pela-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.levandoapalavra.com\/123\/?p=755","title":{"rendered":"Abra\u00e3o, Justificado pela F\u00e9"},"content":{"rendered":"<div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque, se Abra\u00e3o foi justificado por obras,  \t\t\t\t\ttem de que se gloriar, mas n\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a Deus. Pois, que  \t\t\t\t\tdiz a Escritura? Abra\u00e3o creu em Deus, e isso lhe foi  \t\t\t\t\timputado por justi\u00e7a  \t\t\t\t\t(Romanos 4:2-3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois se Abra\u00e3o foi justificado por obras.  \t\t\t\t\tO argumento \u00e9 incompleto e precisa ser posto na seguinte  \t\t\t\t\tforma: Se Abra\u00e3o foi justificado por obras, ent\u00e3o ele pode  \t\t\t\t\tvangloriar-se em seu pr\u00f3prio m\u00e9rito, por\u00e9m n\u00e3o tem raz\u00e3o  \t\t\t\t\talguma de vangloriar-se na presen\u00e7a de Deus. Portanto, ele  \t\t\t\t\tn\u00e3o \u00e9 justificado por obras\u201d. Assim, a cl\u00e1usula,  \t\t\t\t\tpor\u00e9m<strong> n\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a Deus<\/strong> constitui a proposi\u00e7\u00e3o menor do silogismo, e a esta deve  \t\t\t\t\tacrescentar-se a conclus\u00e3o que j\u00e1 expus, ainda que a mesma  \t\t\t\t\tn\u00e3o esteja expressa por Paulo. Ele d\u00e1 o t\u00edtulo de  \t\t\t\t\t&#8216;gloriar-se&#8217; quando pretendemos ter algo propriamente nosso  \t\t\t\t\tque no ju\u00edzo de Deus mere\u00e7a recompensa. Quem dentre n\u00f3s  \t\t\t\t\treivindicar\u00e1 para si a m\u00ednima part\u00edcula de m\u00e9rito, quando o  \t\t\t\t\tmesmo foi negado a Abra\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois, que diz a Escritura? Esta \u00e9 a prova de sua  \t\t\t\t\tproposi\u00e7\u00e3o ou hip\u00f3tese menor, na qual ele negou possu\u00edsse  \t\t\t\t\tAbra\u00e3o alguma base para gloriar-se. Se Abra\u00e3o foi  \t\t\t\t\tjustificado em raz\u00e3o de haver abra\u00e7ado a munific\u00eancia  \t\t\t\t\tdivina, mediante a f\u00e9, segue-se que ele n\u00e3o tem por que  \t\t\t\t\tgloriar-se, visto que n\u00e3o traz nada propriamente seu exceto  \t\t\t\t\to reconhecimento de sua pr\u00f3pria mis\u00e9ria que clama por  \t\t\t\t\tmiseric\u00f3rdia. O ap\u00f3stolo est\u00e1 pressupondo que a justi\u00e7a  \t\t\t\t\tprocedente da f\u00e9 \u00e9 o referencial de obras. Se houvesse  \t\t\t\t\talguma justi\u00e7a procedente da lei ou das obras, ent\u00e3o ela  \t\t\t\t\tresidiria no pr\u00f3prio homem. Todavia, este busca na f\u00e9 o que  \t\t\t\t\tn\u00e3o encontra em nenhum outro lugar. Por esta raz\u00e3o \u00e9 que  \t\t\t\t\tcorretamente se intitula:<em> justi\u00e7a imputada pela f\u00e9<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A passagem citada \u00e9 extra\u00edda  \t\t\t\t\tde G\u00eanesis 15:6, na qual o verbo  \t\t\t\t  \t\t\t\t<em>crer<\/em> n\u00e3o deve ser restringido por alguma express\u00e3o particular,  \t\t\t\t\tmas refere-se ao pacto da salva\u00e7\u00e3o e \u00e0 gra\u00e7a da ado\u00e7\u00e3o como  \t\t\t\t\tum todo, os quais se dizem ter Abra\u00e3o apreendido pela f\u00e9. H\u00e1  \t\t\t\t\tmencionada ali, \u00e9 verdade, a promessa de uma prog\u00eanie  \t\t\t\t\tfutura, por\u00e9m a mesma teve por base a ado\u00e7\u00e3o gratuita.  \t\t\t\t\tDeve-se notar, contudo, que a salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 prometida  \t\t\t\t\tindependentemente da gra\u00e7a de Deus, nem a gra\u00e7a de Deus,  \t\t\t\t\tindependentemente da salva\u00e7\u00e3o. Igualmente, n\u00e3o somos  \t\t\t\t\tchamados \u00e0 gra\u00e7a de Deus, ou \u00e0 esperan\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o, sem  \t\t\t\t\tque a justi\u00e7a n\u00e3o seja ao mesmo tempo oferecida. Se  \t\t\t\t\tassumirmos esta postura, torna-se evidente que aqueles que  \t\t\t\t\tpensam estar Paulo arrancando a declara\u00e7\u00e3o mosaica de seu  \t\t\t\t\tcontexto, n\u00e3o entendem os princ\u00edpios da teologia. Visto  \t\t\t\t\thaver uma promessa espec\u00edfica afirmada na passagem, ent\u00e3o  \t\t\t\t\tentendem que Abra\u00e3o agiu correta e honradamente, ao crer  \t\t\t\t\tnela, e que por isso recebeu a aprova\u00e7\u00e3o divina. Sua  \t\t\t\t\tinterpreta\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 equivocada, aqui; primeiro, porque  \t\t\t\t\tn\u00e3o percebem que   \t\t\t\t<em>crer<\/em> se estende a todo o contexto, e n\u00e3o deve, portanto,  \t\t\t\t\trestringir-se a uma cl\u00e1usula. O principal equ\u00edvoco, contudo,  \t\t\t\t\testa em sua falha em come\u00e7ar com o que se acha asseverado  \t\t\t\t\tsobre a gra\u00e7a de Deus. Este conferiu a Abra\u00e3o sua gra\u00e7a com  \t\t\t\t\to fim de faz\u00ea-lo ainda mais convicto da ado\u00e7\u00e3o divina e do  \t\t\t\t\tfavor paternal de Deus, nos quais se acha inclusa a salva\u00e7\u00e3o  \t\t\t\t\teterna atrav\u00e9s de Cristo. Por esta raz\u00e3o Abra\u00e3o, ao crer,  \t\t\t\t\tabra\u00e7ou nada mais nada menos que a gra\u00e7a a ele oferecida,  \t\t\t\t\tpara que o seu crer n\u00e3o fosse destitu\u00eddo de efeito. Se isto  \t\t\t\t\tlhe foi imputado para justi\u00e7a, segue-se que a \u00fanica base de  \t\t\t\t\tsua justi\u00e7a consistia em sua confian\u00e7a na munific\u00eancia  \t\t\t\t\tdivina e em sua ousadia em esperar todas as coisas como  \t\t\t\t\tprovindas de Deus. Mois\u00e9s n\u00e3o relata o que os homens  \t\t\t\t\tpensavam de Abra\u00e3o, mas, sim, o  \t\t\t\t  \t\t\t\t<em>car\u00e1ter<\/em> que ele possu\u00eda diante do tribunal divino. Abra\u00e3o, pois,  \t\t\t\t\tapoderou-se da bondade divina que lhe era oferecida na  \t\t\t\t\tpromessa, e por meio da qual percebeu que a justi\u00e7a lhe  \t\t\t\t\testava sendo comunicada. A fim de determinar o significado  \t\t\t\t\tde justi\u00e7a, \u00e9 indispens\u00e1vel que se entenda esta rela\u00e7\u00e3o  \t\t\t\t\tentre  <em>promessa<\/em> e  <em>f\u00e9<\/em>,  \t\t\t\t\tporquanto existe a mesma rela\u00e7\u00e3o entre  \t\t\t\t  \t\t\t\t<em>Deus<\/em> e  <em>n\u00f3s<\/em>,  \t\t\t\t\tassim como judicialmente existe entre o  \t\t\t\t  \t\t\t\t<em>doador<\/em> e o  <em>recipiente<\/em>.  \t\t\t\t\tAlcan\u00e7amos a justi\u00e7a somente porque ela nos \u00e9 comunicada  \t\t\t\t\tpela promessa do evangelho, e assim discernimos que a  \t\t\t\t\tpossu\u00edmos pela f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 expliquei, e pretendo  \t\t\t\t\texplicar mais plenamente, se porventura o Senhor mo  \t\t\t\t\tpermitir, quando tratar da Ep\u00edstola de Tiago, como devemos  \t\t\t\t\tconciliar a presente passagem com aquela ep\u00edstola, como se  \t\t\t\t\thouvesse entre elas alguma contradi\u00e7\u00e3o. Cabe-nos  \t\t\t\t\tsimplesmente notar que aqueles a quem a justi\u00e7a \u00e9 imputada  \t\t\t\t\ts\u00e3o justificados, visto que Paulo usa estas duas express\u00f5es  \t\t\t\t\tcomo sin\u00f4nimas. Conclu\u00edmos daqui que a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9  \t\t\t\t  \t\t\t\t<em>o que<\/em> os homens increntemente s\u00e3o, e, sim,  \t\t\t\t<em>como<\/em> Deus os considera, n\u00e3o porque pureza de consci\u00eancia e  \t\t\t\t\tintegridade de vida s\u00e3o distintas do gracioso favor de Deus,  \t\t\t\t\tmas porque, quando se busca a raz\u00e3o por que Deus nos ama e  \t\t\t\t\tpor que ele nos reconhece, \u00e9 necess\u00e1rio que Cristo seja  \t\t\t\t\tcontemplado como  <em>Aquele<\/em> que nos veste com sua pr\u00f3pria justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte:  \t\t\t\t\tJo\u00e3o Calvino,  \t\t\t\t\tRomanos. (S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Paracletos, 1997). P\u00e1ginas  \t\t\t143-145.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porque, se Abra\u00e3o foi justificado por obras, tem de que se gloriar, mas n\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a Deus. Pois, que diz a Escritura? 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