A HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

(Cap. 1)

A HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

“… vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos” (Gálatas 4, 4, 5).
Deus penetrou na história dos homens e nela começou a escrever a sua história – a que tem por propósito a redenção de todas as suas criaturas. Assim, o Cristianismo tornou-se uma presença viva e relevante nas ocorrências que se efetuaram e se efetuam, no cenário da vida humana, dando oportunidade à salvação a todos que vierem a crer no Senhor Jesus Cristo. O evangelista e historiador Lucas fez a conexão do momento histórico em que os intentos divinos se fizeram presentes no mundo com a história dos homens, escrevendo informações como estas: “foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império romano para recensear-se” e “hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”; “No décimo quinto ano do reinado de Tibério César…” (Lucas 2.1 e 11; 3.1). Para realizar o seu intento Deus trouxe ao mundo o seu Filho; a sua presença foi tão evidente entre os homens, ao ponto de dividir em dois distintos períodos a sua história: “Antes de Cristo” (A.D.) e “Depois de Cristo” (D.C.).
Deus deu ao seu Filho o papel de ator principal neste drama da salvação humana. Por cenário ele escolheu uma terra especial, a que, em um passado distante doara a Abraão, terra que tomou o nome do filho desse patriarca – Israel. Nesse drama há momentos significativos que marcaram a vida do seu principal ator: sua chegada ao mundo e sua encarnação, o seu ministério, a sua crucificação e morte, o seu sepultamento e descida ao inferno, a sua ressurreição e ascensão aos céus. Mas esse drama não se encerrou em um momento passado, ele, ainda esta em plena realização e se estenderá até o momento do seu grandioso epílogo. Esse que ascendeu a gloria do Pai voltará para julgar a tudo e a todos, levando com ele aos céus os que o receberam por seu Senhor e Salvador. Esses ele incluirá na família de seu amado Pai, para nela viverem por toda a eternidade. Destacamos que o drama da história da salvação dos homens – a que Jesus introduziu no mundo – deu origem à sua Igreja.

(Cap. 2)

A IGREJA DE JERUSALÉM

A reunião dos apóstolos com os primeiros discípulos, mais os convertidos do dia de Pentecoste, ocasionou a formação da primeira congregação cristã no mundo. Esse grupo não pensava constituir uma religião distinta do judaísmo; dele não se isolou em seu início. Divergiam apenas no fato que criam e pregavam que Deus em Cristo cumprira a promessa da vinda do tão esperado Messias – Jesus Cristo. Eles participavam dos atos realizados no Templo, guardavam o sábado e outras expressões da fé judaica. Mas, no primeiro dia da semana os cristãos se reuniam em um cenáculo, celebrando a ressurreição do Senhor Jesus. Atos dos Apóstolos 2.46, afirma sobre isso: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração”.

Com a adesão de novos convertidos o grupo inicial tomou maior expressão. Algo diferente ocorria com eles: sinais e milagres se sucediam e a vida desse grupo de pessoas era diferente. Expressavam entre eles um amor inteiramente diferente, possuíam uma graça especial ao testemunhar que Jesus era o Senhor das suas vidas, pois, ele era o Messias – o Cristo – e, também, a fé que demonstravam em sua pessoa, impressionava a muitos. O crescer dessa nova comunidade, entretanto, suscitou as perseguições vindas das autoridades israelitas, pois não os podiam controlar. Assim, ocorreu a morte do primeiro mártir da fé em Cristo – Estevão. Um homem forte se levantou e assumiu a liderança do extermínio da nova crença. Saulo, de Tarso tomou a si a obra de aniquilar os que eram reconhecidos como “os do Caminho”.

Quando “levantou-se grande perseguição à igreja de Jerusalém; e todos exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria…” (Atos 8.1), alguns foram para outros lugares e houve quem chegou aos confins da terra. O evangelho se espalhou. Surge no meio cristão a figura de Paulo – o perseguidor que se tornou em um perseguido, por amor de Cristo! Tomando caminhos novos ele expandiu a fé cristã, levando-a até a capital do Império Romano, onde, pelo seu testemunho, muitos aderiram à fé em Cristo.

(Cap. 3)

O CRISTIANISMO E O IMPÉRIO ROMANO

O mundo nos dias iniciais do Cristianismo estava, totalmente, sob o domínio político e cultural do Império Romano. Ele era soberano sobre todos os povos. A absoluta lealdade à pessoa do Imperador e o sistema militar a ele sujeito preservavam a unidade do Império. Foi dentro dele que o Cristianismo começou a se expandir. Por volta do ano 100 ele estava presente na Ásia Menor, na Síria, na Grécia e em Roma, sede desse único império mundial. O cristianismo não encontrou um campo livremente aberto a ele, assim, em muitos lugares em que penetrou, teve de enfrentar variadas formas de religiões e diferentes filosofias. Contudo ele continuou avançando onde era possível. Plínio, governador da Bitínia (cerca do ano 112), escreveu ao imperador Trajano que a religião de Cristo estava afetando o culto aos deuses do Império.

Nos dias do Imperador Nero (anos 60 D.C) foi o começo das fortes perseguições. Na época em que foi escrita a primeira carta de Pedro (aproximadamente ano 90), o mero fato de se declarar como cristão era motivo para severas punições. Nero, com sua loucura, incendiou a cidade de Roma e atribui aos cristãos a realização desse fato. A resposta que os discípulos davam às perseguições e acusações contra eles era a heróica lealdade a Cristo e a alta idoneidade moral que apresentavam.

No final do primeiro século, após serem escritos os quatro evangelhos e o livro de Apocalipse, surgiram vários escritores cristãos que receberam o cognome de “Pais Apostólicos”. Eram homens preocupados em firmar a verdadeira fé cristã diante de muitas heresias que surgiam, especialmente as que tratavam da pessoa de Jesus. Entre esses Pais contam-se: Clemente de Roma, Ignácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Hermes de Roma, Jerônimo e outros mais. Surgiu, também, nessa época um documento denominado: “Ensino dos Doze Apóstolos” (130-160), que retratava as condições primitivas do Cristianismo.

Os cristãos não eram bem aceitos em muitos lugares, pois se consideravam um povo separado, uma nova raça cuja cidadania não era a romana. A vida cristã era ascética e legalista. Já no ano 110, Inácio cita a existência de congregações, como as localizadas na Filadélfia, Esmirna e Roma; essas congregações eram presididas por um bispo monárquico. A razão de surgir esse tipo de governo se baseava em que, com a pessoa de um bispo coordenando as igrejas de uma região, ele seria um instrumento de oposição às diferentes heresias que surgissem. Por volta do ano 160, o episcopado monárquico tornou-se quase universal. Com isso, a igreja corria o risco de ter um governo central, acima dos bispos, sobre todas as congregações do Império, o que ocorreu mais tarde, dando origem ao governo do Papa.

(Cap. 4)

O CÂNON DO NOVO TESTAMENTO

A palavra “cânon” é usada para designar um conjunto de leis, documentos ou livros religiosos. A reunião dos diferentes livros que hoje compõem o Novo Testamento começou de uma forma pálida, na metade do século II D.C. (Depois de Cristo). Até aquele momento os cristãos só reconheciam o Antigo Testamento como “Escritura Sagrada”. Os quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) e as cartas de Paulo circulavam nas congregações cristãs sem ser considerados como documentos oficiais. Foi em um sermão de Clemente, um dos Pais Apostólicos, que, pela primeira vez, os evangelhos e as cartas apostólicas foram designados como “Escrituras”, em pé de igualdade com o Antigo Testamento.

Entretanto, foi somente por volta do ano 200 D.C. que o cristianismo passou a dispor de um só conjunto de livros, que hoje forma o Novo Testamento que possuímos. Foi um cristão chamado Marciano quem compôs a primeira lista dos livros que julgava próprios para integrarem um só conjunto. Entretanto não foi fácil decidir quais eram os escritos autênticos entre os muitos existentes sobre a fé cristã. Somente por volta do ano 400 D.C. é que o Novo Testamento tomou, nas igrejas do Ocidente, a forma que possui até os nossos dias. Nas igrejas do Oriente isso só ocorreu bem mais tarde.

É bom lembrar que além dos vinte e sete livros que compõem o Novo Testamento circulavam, nos primeiros séculos da igreja cristã, muitos escritos, instruções e sermões dos chamados Pais Apostólicos e seus discípulos. Assim, o processo de seleção dos diferentes documentos existentes não foi fácil. Prevaleceu o critério de que somente seriam escolhidos os escritos reconhecidamente redigidos pelos primeiros apóstolos, ou um de seus discípulos imediatos (caso de Lucas). Assim, o Novo Testamento foi formado por documentos de autoria apostólica indiscutível.

Com o cânon fechado a igreja passou a possuir um forte recurso para combater as diversas heresias que perturbavam a vida dos cristãos daqueles dias. Somente a verdade consagrada no cânon estabelecido seria a autêntica doutrina da igreja. Nada mais poderia ser anexado a esse conjunto. Assim ficou preservado o cristianismo tal como foi anunciado nos seus primeiros dias de existência.

Somos agradecidos a Deus pelo Novo Testamento tal como temos hoje. Possuímos nele textos confiáveis, básicos para a nossa fé cristã. Com ele a igreja está segura da sua doutrina, pois realmente o Novo Testamento contém o autêntico evangelho do Reino de Deus pregado por Jesus e os seus apóstolos. Amém!

(Cap. 5)

O CRISTIANISMO NO MUNDO GENTIO

Nos anos 100 (A.D.) o Cristianismo já alcançara a Ásia Menor, Síria, Macedônia, Grécia, Roma e Egito. O forte espírito missionário e evangelístico dos cristãos espalhava a fé nos lugares em que se encontravam. Plínio, o governador da Bitínia, escrevendo a Trajano, o Imperador romano, informou-o que o cristianismo estava afetando o culto dos templos do Império. Já nesses dias os cristãos não se consideravam cidadãos do Império, se sentiam livres como um novo povo, uma nova raça, cuja cidadania era celestial; a que descera do céu e estava na terra. Era a Jerusalém celestial.

Os que ingressavam nesse novo povo precisavam abandonar a vida e a religião pagã, se arrependerem dos seus pecados dando satisfação por eles. Uma vez batizados se submetiam aos princípios cristãos que lhes eram ministrados. Eles, nas diferentes localidades em que residiam, se reuniam no primeiro dia da semana (dia da ressurreição de Jesus), quando eram lidas as Escrituras, ouviam os ensinos, cantavam hinos faziam as orações, celebravam a Ceia do Senhor Jesus e traziam as suas ofertas para os necessitados.

No Império Romano o Imperador era reconhecido como um deus. O culto ao Imperador e aos deuses pagãos era o único admitido. Os cristãos professavam que Jesus Cristo era o único Senhor de suas vidas e só a ele deviam obediência. Isso causou a ira dos diversos imperadores contra eles. Quanto mais o cristianismo se estendia dentro do Império, mais preocupação vinha ao governo romano. Inicialmente as autoridades romanas consideravam os cristãos como um ramo do judaísmo, o qual estava sob proteção legal. Foi a hostilidade dos judeus aos cristãos que chamou a atenção de que o cristianismo era uma fé diferente que se espalhava pelo Império.

Os cristãos já haviam sofrido perseguições nos dias do imperador Nero (ano 64). Mas foi no império de Trajano (117-138), Adriano (180-192), Antonio Pio (161-180) que a política contra os cristãos foi mais acirrada. Marco Aurélio (161-180) tornou as perseguições mais contínuas. Novas leis deram força redobrada contra as religiões estranhas ao Império. Sob o governo do Imperador Cômodo (180-192) o cristianismo foi tratado com mais tolerância que provinha da indiferença.

Os cristãos respondiam às perseguições apresentando uma forte lealdade à Cristo e um exemplo de um inquestionável comportamento moral. Foi nessa época que surgiram alguns homens cultos que defenderam a fé cristã com suas obras literárias. Eles foram denominados: os apologistas. Eram intelectuais reconhecidos pela intelectualidade que possuíam. Alguns deles aderiram à fé cristã outros eram apenas admiradores do cristianismo. O primeiro deles foi Quadratus que apresentou ao Imperador Adriano uma defesa do cristianismo. A ele seguiram outros: Aristides, filósofo cristão; Justino, chamado “o Mártir” que escreveu a mais famosa defesa; Taciano, Mêlito bispo de Sardes, Atenágoras cuja defesa escrita pode ainda ser encontrada hoje. Estes homens tiveram uma grande influência e, assim o Império abrandou suas perseguições.

(Cap. 6)

A IGREJA CRISTÃ NO REINADO DO IMPERADOR CONSTANTINO

Depois do intenso período de perseguições ocasionado pelos imperadores romanos, a igreja cristã, tomou uma nova direção. Após algumas batalhas, o Império Romano passou para as mãos do Imperador Constantino (cerca do ano 324. Ele reinou até a sua morte em 337). Numa noite, antes da última batalha para conquistar o trono, ele teve um sonho onde lhe pareceu ver as iniciais do nome de Cristo, com a inscrição; “Por este sinal vencerás”. Tomando isso por um oráculo mandou reproduzir o sinal da visão sobre o seu elmo e sobre os escudos dos soldados. Vencendo a batalha ele creu que o Deus dos cristãos lhe havia dado a vitória. Desde então se considerou, para todos os efeitos, um cristão. A igreja ficou livre das perseguições, mas, passou a estar sob uma forte influência do imperador. Assim, a igreja se uniu ao Estado, o que ocasionou prejuízos à fé cristã.

A política de Constantino direcionava tudo para uma só lei, um só imperador, uma única cidadania para todos os homens, uma só religião. Por um decreto o cristianismo tornou-se a religião oficial do todo o Império. Com isso a igreja cresceu nesse terceiro século, com grandes prejuízos para a autêntica fé cristã. Ela recebeu privilégios do governo. O trabalho foi proibido aos domingos passando a ser dia especial para o culto a Deus. Os sacrifícios pagãos foram restringidos, mas não descartados de todo. Foram estabelecidas leis favoráveis aos cristãos; templos foram construídos e outros, que eram consagrados aos deuses pagãos, foram adaptados ao culto cristão. Mas a nova fé imposta pelo governo a todo o império, não impediu que parte do povo continuasse cultuando os deuses do paganismo. No ano 324 um édito imperial determinou que todos os soldados do exército romano fossem batizados e integrados na fé cristã. Um prejuízo para a igreja foi, também, a mudança da capital do império de Roma para Bizâncio. Constantio a chamava de Nova Roma, mas o mundo lhe atribuiu o nome de Constantinopla [Cidade de Constantino].

A nova situação em que a igreja se encontrou, possibilitou o surgir de diferentes apostasias, sendo que a principal delas foi o “arianismo”, que deu lugar a acaloradas controvérsias sobre a doutrina na Trindade. Alguns homens, descontentes com o que ocorria na igreja, retiraram-se para o deserto, onde se dedicavam a uma vida ascética. Essas são as raízes dos monastérios que surgiriam mais tarde. Outros descontentes criaram cismas e romperam a comunhão com os demais cristãos.

Antes da época de Constantino o culto cristão era simples. Os cristãos se reuniam em casas particulares, nada de templos, não havendo qualquer cerimonial. Com a nova situação os crentes começaram a se reunir em templos, muitos dos quais foram erguidos para o culto pagão. Por influência do protocolo imperial, que queimava incenso ao culto do imperador, começou o incenso a ser usado nos cultos cristãos como uma honra prestada a Deus. Surgiu após o uso de vestimentas especiais para os guias espirituais e outras, ricamente ornamentadas, como sinal de respeito ao culto a Deus. Começaram também os processionais introdutórios ao culto. Outros rituais foram se estabelecendo, os quais eram realizados somente pelo clero, o que tornou o povo em um mero ouvinte. O problema mais grave foi que as imagens dos altares pagãos deram lugar às imagens de personagens cristãos. Assim, começou o culto a Maria, aos apóstolos e aos mártires.

Os líderes foram tomando uma posição de destaque e logo surgiu o cargo de bispo, personagem que se sobrepunha aos demais líderes em um determinado território e as suas congregações. Essa situação ocasionou, pouco mais adiante, que um bispo se tornasse acima de todos os demais bispos, o que deu origem a um governo superior sobre todos, o do Papa.

(Cap. 7)

O DESENVOLVIMENTO DO PODER DA IGREJA DE ROMA

No estudo anterior nós vimos que o Imperador Constantino, ao elevar o Cristianismo à condição de religião oficial do Império Romano, tornou-se a autoridade máxima sobre ela. Descontente com o paganismo e os maus costumes que imperavam na cidade de Roma, ele determinou a construção de uma nova cidade para ser a capital do Império. Esse novo local recebeu o nome de: “Constantinopla”, ou seja: a cidade de Constantino. A nova capital suplantou em tudo a cidade de Roma. Assim, começou o antagonismo entre as duas localidades. Alguém disse: “Roma fez muitos imperadores, ao passo que um só imperador fez Constantinopla”.

A mudança da administração do Império para um novo centro motivou transformações na vida do estado, e na vida da igreja. A igreja, sob a autoridade suprema do Imperador, era administrada nas diferentes localidades do Império pelos bispos. Na parte oriental do mundo eles eram denominados como: “Patriarcas”, (“Patriarcas: de Jerusalém”, da Antioquia, da Alexandria e de Constantinopla). Entretanto, o bispo de Roma manteve para ele o título que já possuía. Os homens que foram bispos de Roma sempre se destacaram como homens fortes, conceituados, mais experientes, assim, pouco a pouco, o bispado romano ganhou uma posição de maior prestígio sobre os demais bispados.

O bispo de Roma, nos dias de Constantino, diante do fato que a cidade perdera a posição de capital do Império, não querendo abrir mão da posição que possuía e, até mesmo desejoso de ampliá-la, declarou-a como a capital do Cristianismo. Isso, somado a uma tradição vigente de que o apóstolo Pedro fora o primeiro bispo estabelecido por Jesus, e que ele viera a Roma para exercer essa posição, lhe favoreceu o direito de reivindicar para si o mesmo posto ocupado por Pedro na cidade. Assim ele se considerou o seu sucessor. Isso foi o começo de algo que, em pouco tempo, se tornou oficial: a “sucessão apostólica”, ou seja: o homem que ocupa o bispado de Roma é um sucessor direto do apóstolo Pedro, o que deu, mais tarde, lugar á introdução da figura do Papa. Esse é o homem que é Soberano Senhor sobre toda igreja; posição que o torna como “único representante de Jesus no mundo”. A reforma Protestante negou, categoricamente, essa posição que a igreja assumiu.

No Concílio de Calcedônia, na Ásia Menor, ano de 451, o bispo de Roma tomou para si o primeiro lugar, deixando o Patriarca de Constantinopla em uma segunda posição. Dessa forma se preparava o caminho para um acontecimento trágico na vida da igreja: a sua divisão em: Igreja Ortodoxa (a do oriente) e a Igreja Romana (a do ocidente).

Ocorreu, nesse tempo, que o Império Romano depois de séculos de domínio sobre o mundo, e que parecia poderosamente inabalável, estava corroído pela decadência moral e política. Prevalecendo-se disso os povos bárbaros, seus vizinhos, cobiçosos das riquezas dos romanos, se lançaram sobre as suas cidades, saqueando-as e destruindo a tudo. Isso resultou no final à queda do grande, poderoso e glorioso Império Romano.

A igreja não sofreu com a queda do Império, pois o evangelho já penetrara no meio dos bárbaros e pode continuar nessa missão. Por outro lado, a igreja foi beneficiada por perder a soberania que o Estado exercia sobre ela. Ela ficou inteiramente livre para continuar a sua história. Como ela não buscou fixar-se sobre as bases bíblicas tomou um caminho inteiramente humano e pagão, abrindo um futuro nada feliz para ela

(Cap. 8)

A IGREJA MEDIEVAL

Depois de vermos algo da história da Igreja Apostólica, da Igreja perseguida e do período da Igreja Imperial (sob o Imperador Constantino), veremos, agora, o período que a História Geral designa como a “Idade Média”. Esse tempo estende-se desde a queda de Roma (476 A.D) indo até a queda de Constantinopla (1.453 A.D). Período que durou cerca de mil anos. Não iremos tratar hoje sobre a Igreja oriental, governada por Constantinopla. Veremos apenas algo que mais se destaca da vida da Igreja cristã no território europeu.

O fato marcante desse período é o desenvolvimento do poder papal. Já vimos que o papa de Roma afirmava ser o “bispo universal” e chefe de toda Igreja no mundo. O crescimento do poder papal teve inicio com o pontificado de Gregório I, o Grande, e atingiu o seu apogeu com Gregório VII, mais conhecido por Hildebrando. (Notemos que desde o princípio os papas, ao serem eleitos, tomavam para si um novo nome). Gregório I teve sua atenção voltada para a conversão das nações que, na Europa, ainda se conservavam pagãs. Com a intenção de conquistar, também, o poder temporal para as suas mãos, ele invadiu as províncias ao redor de Roma e as colocou debaixo do governo da Igreja. Com isso ele preparava a conquista do poder temporal da Igreja sobre as nações. Isso se acentuou quando os papas chamaram para si a coroação de novos reis e imperadores em diferentes países.

Esse papa introduziu diversas doutrinas na Igreja, como: a adoração de imagens, o purgatório, a transubstanciação (crença de que na hora da missa o pão e o vinho se transformam materialmente no verdadeiro corpo e sangue de Cristo). Como os governos das nações européias caíam com frequência, Roma intervinha nessas situações e assim os papas fortaleciam o seu poder temporal sobre reis, príncipes e governantes. Pelo fato de que a Igreja não proporcionava a vida espiritual que muitos procuravam, o monasticismo se fortaleceu em muitos países. Entretanto, por outro lado, padres, bispos e leigos lutavam pelo poder e distinção que as posições elevadas concedem. Pelo fato da erudição da Idade Média não ter o espírito crítico, ninguém duvidava das afirmações vindas dos Papas. Assim, o poder papal ascendia.

O último papa desse período foi Gregório VII (Hildebrando), que governou a Igreja com autoritarismo. Ele reformou o clero que estava corrompido e deteve, por algum tempo, a simonia (venda e compra de posições na Igreja); exigiu o celibato dos sacerdotes (determinação já aprovada anteriormente, mas sem execução). Ele pôs fim à nomeação de bispos pelos reis e imperadores e determinou que as acusações contra sacerdotes e as questões relacionadas com a Igreja seriam julgadas por tribunais eclesiásticos. Também decretou a soberania da Igreja sobre o Estado. Excomungou Henrique IV e isentou a todos os seus súditos da lealdade para com o seu imperador.

Outro papa que demonstrou elevado grau de poder foi Inocêncio III (1198 – 1216). Em seu discurso de posse ele disse: “O sucessor de São Pedro ocupa uma posição intermediária entre Deus e o homem. É inferior a Deus, porém superior ao homem. É juiz de todos, mas não é julgado por ninguém”. Ele foi o papa com poder absoluto e independente.

Quando a Europa saía do crepúsculo da Idade Média começou a decadência do poder papal com Bonifácio VIII (1303). Ele questionou com o rei da França, Felipe o Formoso, o qual lhe declarou guerra, apoderou-se do papa e o encarcerou. Quando foi libertado ele morreu logo, de tristeza. O período de 1305 a 1377 foi denominado de “Cativeiro Babilônico”, pois, por ordem do rei da França, a sede do papado foi transferida da cidade de Roma para Avignon, no sul da França, e os papas ficaram sob o controle do governo francês. Nesse período houve muitos papas e anti-papas em vários países. Nesse tempo, o papa Gregório XI voltou a Roma e convocou o Concílio de Constança (1414), com a finalidade de solucionar a situação de ser a Igreja governada por quatro papas. O concílio depôs os quatro papas e escolheu um novo e único papa. Assim o governo da Igreja retornou a Roma.

(Cap. 9)

A IGREJA NO PERÍODO QUE PRECEDE A REFORMA

No IV século da Era Cristã, diante dos desmandos da vida social e religiosa de grande parte da população e, em especial, da cúpula dirigente da Igreja [a vida dos Papas era extremamente mundana], surgiu em muitos religiosos o desejo de terem uma vida espiritual mais autêntica, mais pura e piedosa. Não encontrando o que aspiravam na Igreja que perdera a sua autenticidade, nem nas comunidades em que viviam, buscaram na vida de solidão, de oração e jejum, o que as suas almas ansiavam. Assim, afastando-se para lugares desertos, isolados do mundo, passaram a viver como eremitas. Dessa busca de solidão surgiu o que foi denominado “movimento monástico”. Entre os muitos monges que viveram em recolhimento, Santo Antão se destacou pela sua vida de devoção a Deus e de santidade.

Esse movimento, na Idade Média, teve uma expressão mais ampla com o surgir dos monastérios e conventos. Esses eram lugares que abrigaram pessoas que buscavam uma vida comunitária de recolhimento espiritual e de inteira consagração a Deus e ao seu serviço. No ocidente a primeira ordem religiosa que surgiu foi a dos Beneditinos, iniciada por São Bento, no ano de 529 A.D, no Monte Cassino, entre Roma e Nápoles, na Itália. Após, São Bento instituiu três regras básicas para os seus monges: obediência, castidade e pobreza; regras que foram, mais tarde, adotadas por outras congregações masculinas e femininas. Após, vieram os Circenses (na França) 1112; os Franciscanos 1209 (na Itália), esta fundada por São Francisco de Assis. Os Dominicanos surgiram em 1215 (na Espanha), instituída por São Domingos. Essas duas ordens citadas por último receberam a alcunha de “ordens mendicantes”, pois seus monges eram extremamente pobres, vivendo das esmolas que recolhiam de casa em casa.

Nesses séculos de desentendimento, brigas, busca de domínio e de desmandos na Igreja, especialmente em sua cúpula, outras ordens monásticas foram surgindo, tornando-se centros de quietude, paz, estudo, pregação, catequese, evangelização, cuidado de enfermos e de hospedagem de viajantes. Muitos monges serviram como missionários, espalhando-se pelo mundo, abrindo conventos, escolas, lugares onde acolhiam enfermos, mendigos e órfãos.

Ainda na Idade Média, diante da precária situação da igreja, começaram os primeiros movimentos reformadores. Esses movimentos tiveram que enfrentar um mundo que não estava preparado para recebê-los. Dessa forma foram reprimidos em sangrentas perseguições.

(Cap. 10)

OS PRIMEIROS MOVIMENTOS DA REFORMA

Destacamos os principais movimentos reformadores: os Albigenses ou cátaros (nome vindo da palavra catharu = “puritanos”). Surgiu no sul da França, cerca do ano 1170. Esses crentes distribuíam o Novo Testamento para o povo ler livremente (o que era proibido aos leigos pela igreja), e pregavam o evangelho puro. Eles não aceitavam as doutrinas do purgatório, a adoração de imagens, a salvação pelas obras e as pretensões sacerdotais. Eles não aceitavam o Antigo Testamento. O papa Inocêncio III, em 1208, mobilizou uma cruzada contra eles e foram exterminados.

Os Valdenses surgiram na mesma época sob a direção de Pedro Valdo, um comerciante de Lyon, na França (1170). Eles não aceitavam os costumes e as doutrinas católicas romanas e viajavam ganhando adeptos em todos os lugares em que iam. Cruelmente perseguidos, eles encontraram abrigo nos vales (daí a nome: valdenses) no norte da Itália. Esse grupo, apesar das muitas perseguições por parte da igreja romana, tem expressão até hoje.

Os Lolhardos (nome pejorativo), movimento que defendia os ensinos de João Wycliffe (1382), na Inglaterra. Ele foi o primeiro tradutor da Bíblia para a língua inglesa. Esse grupo defendia a Bíblia como a única fonte de fé e conduta e o direito de todos poderem lê-la e interpretá-la. Eles eram críticos da hierarquia eclesiástica, negavam o celibato do clero, a transubstanciação, as indulgências e a autoridade papal. Foram influenciadores da reforma na Inglaterra e na Escócia. Outros líderes: João Huss, na Boêmia (martirizado na fogueira em 1445); ele foi grandemente influenciado pelos Lolhardos. Jerônimo Savonarola, monge da Ordem dos Dominicanos, na Itália, fez uma evidente reforma religiosa e dos costumes, na cidade de Florença (martirizado em 1453, apenas 19 anos antes de Lutero apresentar as suas teses que iniciaram o maior movimento reformista na Igreja).

Os Anabatistas (literalmente os que batizam de novo), movimento surgido no início do século XVI (antes da Reforma Luterana). Esse movimento, em especial, negava a validade do batismo infantil, admitindo somente o batismo de adultos e o faziam por imersão nas águas. Eram conhecidos, também, como “os irmãos suíços”. Quando surgiu a Reforma Protestante, no Cantão de Zurique, na Suíça, eles procuraram se unir, inicialmente, à Reforma, mas como os reformadores se opunham a este batismo por imersão (que chamavam de rebatismo), passaram a perseguir duramente os anabatistas. Em 1527, Feliz Manz, um dos seus líderes, foi condenado à morte por afogamento pelas autoridades protestantes. Todos esses movimentos, de uma forma ou outra, prepararam a ocorrência da Reforma Luterana que logo surgiria.

(Cap. 11)

A RENASCENÇA E A REFORMA PROTESTANTE

O final da Idade Média foi marcado pelo surgir, na Itália, de um movimento cultural denominado: “A Renascença”. Era o despertar na Europa de um novo interesse pela literatura, pelas diferentes formas de arte e pela restauração da cultura grega e latina. Esse movimento buscava a modernidade cultural e, ao mesmo tempo, apagar a cultura medieval dominada pela religião. A nova cultura se espalhou pela Europa e se desvinculou das influências da religião; buscou algo novo, diferente, cético e investigador. Era o nascer das ciências modernas. Até mesmo os papas romanos voltaram-se mais para a modernidade do que para a religião.

O que muito cooperou para o sucesso da Renascença foi a invenção da imprensa, por Gutemberg, em 1455, na Mogúncia, no Reno. O que antes era escrito à mão pelos escribas passou a ser impresso pelas máquinas, facilitando a difusão das novas idéias e as novas artes. Notável é que o primeiro livro a ser impresso foi a Bíblia. Também, no fervilhar da Renascença, levantou-se na Europa o espírito nacionalista que fomentou o patriotismo e a libertação do autoritarismo que havia no governo civil e religioso. Tudo isso cooperou para solapar o poderio da Igreja Romana. O povo começou a não aceitar imposições que a Igreja mantinha: nomear bispos e dignitários italianos para administrar as suas congregações em outros países; os pesados encargos financeiros para manter o papa e as construções suntuosas das catedrais em cidades romanas. Dessa forma, o movimento nacionalista cooperou para que a Reforma Protestante surgisse.

O papa Leão X, pressionado pelas grandes despesas com a construção da Catedral de São Pedro, em Roma, enviou um sacerdote à Alemanha, João Tetzel com a função de vender bulas, assinadas pelo papa, as quais concediam perdão de todos os pecados dos que as comprassem para si, ou em favor de pessoas já falecidas. Essas bulas dispensavam a confissão dos pecados e a absolvição feita pelos sacerdotes. O enviado papal apregoava que: “Tão depressa o vosso dinheiro caia no cofre, a alma de vossos amigos subirá do purgatório para o céu”. Essa atitude papal, e outras mais, fizeram que a indignação de um monge agostiniano, Martinho Lutero, desse o grito que ecoou por toda a parte, suscitando um movimento que fez surgir a maior divisão da Igreja Cristã. Isso ocorreu no ano de 1517.

(Cap. 12)

DEUS LEVANTA LUTERO

Corria o ano 1517. A efervescência política e religiosa estava aumentando contra o poderio dos papas e suas ligações com os imperadores. Alguns movimentos de reforma estavam surgindo por toda a Europa, porém muitos estavam sendo sufocados através da “Santa Inquisição”, um tribunal católico estabelecido pelo papa Gregório IX, entre os anos 1231 a 1235, decidido a “varrer do mapa” todo e qualquer levante contra a autoridade católico romana.

Alguns pequenos grupos cristãos e seus líderes sofriam os mais diferentes tipos de tortura, como Jan Hus na Tchecosolováquia e Savonarola na Itála, que haviam sido queimado vivos. É dito que, quando Hus estava amarrado às lenhas, este exclamou: “Agora vocês estão queimando um ganso (significado de seu nome), mas daqui a cem anos Deus levantará um cisne (referindo-se a Lutero) que vocês não poderão queimar”. A profecia cumpriu-se.

Martinho Lutero (Martin Luther) foi um monge da ordem dos agostinianos que tinha um sincero desejo de agradar a Deus e encontrar a verdade. Submetido às rígidas regras monásticas da época, muitas vezes chicoteava-se com o látego e usava um cinturão com cravos internos para afastar os pecados da carne. Mas nada disto lhe trazia a paz que tanto buscava. Estava começando a compreender que não é por obras ou méritos pessoais que se alcança a salvação em Cristo. Certo dia, enquanto estudava no mosteiro, chamou-lhe a atenção uma velha Bíblia acorrentada escrita em latim. Na época, a Palavra de Deus estava longe do povo e somente o alto clero tinha acesso a ela. Enquanto a folhava com interesse, seus olhos caíram no importante texto de Romanos 1.17: “…visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: o justo viverá por fé”. Foi naquele momento tão especial que o Espírito Santo revelou a Lutero as riquezas da graça de Cristo e que ele deveria apoderar-se desta graça somente pela fé. Como ele disse mais tarde: “foi como se as portas do paraíso se tivessem aberto diante de mim”.

A partir daquele encontro com Cristo, Lutero não pôde mais ficar calado e passou a pregar, a quem quisesse ouvi-lo, que a salvação é um dom de Deus e que ninguém pode alcançá-la se não por toda sua confiança nos méritos de Cristo adquiridos na cruz.

Estava começando uma nova era para a Igreja de Cristo. Cheio de coragem e desafiando papas e cardeais, Lutero elaborou suas famosas 95 teses e as fixou nas portas da catedral da cidade de Wittenberg para que o povo as pudesse ler. Estas teses são até hoje uma proclamação clara do evangelho, salientando as importantes verdades da nossa justificação pela fé em Cristo, perdão de pecados oferecido gratuitamente por Cristo, arrependimento de obras mortas, a autoridade da Escritura e tantas outras verdades fundamentais. Era o dia 31 de Outubro de 1517, até hoje comemorado por muitas igrejas evangélicas como o grande dia da Reforma. Mais tarde, Lutero dedicou-se a traduzir a Bíblia inteira para a língua alemã, obra que trouxe tremendos benefícios a toda uma nação e que ainda hoje é usada. Quando teve de comparecer perante um tribunal eclesiástico para negar tudo o que havia escrito, corajosamene ele disse: “Esta é a minha posição. Que Deus me ajude”.

Devido à importância da revolução espiritual que começou nesta data e seus reflexos pelo mundo inteiro, Lutero tem sido considerado, por muitos historiadores, a terceira personalidade mais importante do milênio passado, antecedido apenas por Johann Guttenberg (inventor da imprensa) e o grande físico Isaac Newton.

(Cap. 13)

A EXPANSÃO DA REFORMA PROTESTANTE

A reforma iniciada por Lutero, com suas 95 teses afixadas nas portas da catedral de Wittenberg (Alemanha), se propagou pela Europa. Deus levantou líderes em diferentes países. Citaremos três que tiveram maior destaque:

Ulrico Zwinglio – Ele era cura de uma abadia em um centro de peregrinações da Igreja Romana, em Zurique (Suíça). Homem com ideias avançadas pregava contra as romarias que ali eram feitas, dizendo que tais exercícios religiosos não proporcionavam a salvação eterna. Nomeado vigário da cidade de Zurique, demonstrou ter ideias reformadoras para a Igreja. Sua autoridade sobre a cidade tornou-se muito forte e, quando o delegado papal chegou a Zurique vendendo indulgências (perdão dos pecados em troca de dinheiro), ele conseguiu que o governo local expulsasse o enviado papal. Num debate entre ambos ele defendeu o seu pensamento reformista baseando-se nas Escrituras. Isso resultou que o Conselho da cidade lhe deu liberdade para pregar uma reforma na Igreja, o que levou Zurique a romper sua ligação com Roma. Os seus pensamentos doutrinários coincidiam com os de Lutero, mas nunca houve uma conexão direta entre os dois reformadores.

João Calvino – Enquanto Lutero surgiu como o propulsor do movimento reformista, Calvino foi quem sistematizou a teologia protestante do século XVI. Ele nasceu na França e bem moço ainda se dedicou aos estudos humanistas e jurídicos. Não se sabe quando ele aceitou as ideias da Reforma. Mas, ao divulgá-las, precisou deixar a França diante da forte oposição que teve em seu país. Exilou-se na cidade protestante de Basileia (Suíça), encontrando ali um tranquilo lugar para escrever as suas obras, sendo que a que mais se destacou foi a sua: “Institutas da Religião Cristã”, editada em 1536. Guilherme Farel, o introdutor da reforma em Genebra, convidou Calvino a se estabelecer em sua cidade. Ele tornou-se um líder forte e rigoroso, tanto na área espiritual como na política. Tornou-se o maior propagador da doutrina da predestinação (Doutrina que afirma que Deus já tem determinado que alguma pessoas vão ser salvas e outras não). Esse ensino ocasionou muitas discussões entre os cristãos. Entretanto, ela foi aceita por reformadores da Igreja em diversos países da Europa, como Holanda Escócia, Hungria, França e outros.

Guilherme Farel – Estudou em Paris e tornou-se pregador das teses de Lutero, o que ocasionou forte oposição a ele. Precisou exilar-se e foi para Basileia, na Suíça, indo, depois, para Genebra e introduzindo a Reforma nessa cidade e, após, no cantão de Neuchatel.

A Reforma Protestante em outros países da Europa:

Os países escandinavos: Dinamarca, Noruega e Suécia que estavam reunidos sob a soberania de Cristiano II (15513-1523), déspota culto e simpático ao Renascimento. O rei percebeu que o grande mal do seu reino era o poder dos nobres e dos eclesiásticos. Para limitá-los em suas influências entre o povo, ele introduziu o movimento luterano no país. Para isso colocou o pregador Martinho Reinhard e o conselheiro Karlstadt como propagadores da Reforma em seus domínios. O rei limitou a autoridade dos bispos católicos e liberou o casamento para os clérigos. O seu sucessor no trono foi um luterano confesso.

Na Inglaterra, o rei Henrique VIII, por casar-se em secreto com Ana Bolena, desprezando a sua legítima esposa (a que foi a mãe da princesa Isabel que, mais tarde, ocupou o trono), provocou a indignação do papa Clemente VII que não aceitou essa união. Através de uma bula (1533) o papa ameaçou excomungá-lo. Isso resultou que Henrique VIII pressionou o Parlamento e esse declarou que o rei da Inglaterra e os sucessores seriam “a cabeça suprema da Igreja Inglesa”. Assim, separada de Roma, a Igreja, após uma sucessão de fatos, adotou as doutrinas pregadas pela Reforma Protestante. Entretanto conservou grande parte do ritual da Igreja Romana em suas celebrações. Ela passou a ser denominada como Igreja Anglicana, nome que preserva até hoje.

Na Escócia, desde cedo, houve manifestações protestantes. Patrício Hamiltom pregou a doutrina luterana, mas, por fim, foi queimado vivo (1528). Entretanto, a causa progrediu com John Knox que conhecera Calvino e aderira aos seus ensinos. Vindo da Inglaterra para a Escócia encabeçou a reforma nesse país, tornando-se o seu herói. Em 1560 o Parlamento escocês adotou como credo do reino a confissão de fé calvinista. A jurisdição papal sobre a Igreja escocesa foi abolida. O sistema eclesiástico elaborado por Calvino foi aplicado em todo o reino.

As ideias reformistas saíram destes países levando a outros a doutrina da Reforma. A França foi o país menos influenciado, mesmo sendo o berço de Calvino. Entretanto, nela houve, um grupo destemido denominado “os huguenotes”. Muitas pessoas desse grupo foram perseguidas e mortas. Outros fugiram do país em busca de um lugar onde pudessem manter e expressar a sua fé.

(Cap. 14)

OS PIONEIROS DO MOVIMENTO MISSIONÁRIO CRISTÃO

Desde os dias apostólicos, os discípulos de Jesus procuraram cumprir o mandamento recebido do Senhor da Igreja: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28.19). Assim, desde cedo, o cristianismo foi levado, de diferentes formas e por distintas pessoas, a muitos lugares do mundo. Foi pela decisão de ir mais além que o paganismo do império romano deu lugar ao cristianismo na Europa. Depois do século X o espírito missionário enfraqueceu, mas não deixou de existir. Um monge, Francisco Xavier, liderou um movimento missionário, nascido dentro da igreja romana, que cristianizou muitos lugares do mundo pagão. Quando a Reforma Protestante surgiu, inicialmente ela se preocupou mais em purificar e reorganizar a igreja do que expandir a fé.

As igrejas reformadas só começaram a evangelizar os países pagãos em 1732, quando os moravianos (cristãos reformados da Moravia, região central da Tchecoslováquia, liderados pelo Conde Zinzendorf) começaram a estabelecer missões estrangeiras. Hans Egede, um dos seus líderes, foi enviado à Groenlândia e, logo após, outros missionários partiram para evangelizar os índios da América do Norte e Índias Ocidentais e, após, em países orientais. Na Inglaterra as primeiras missões foram estabelecidas por Guilherme Carey. Ele era um sapateiro que se educou por si mesmo, chegando a ser um dos homens mais eruditos da sua época. Em 1792 ele pregou um sermão que tinha dois títulos: “Empreendei grandes coisas para Deus” e “Esperai grandes coisas de Deus”. Esse sermão inspirou a criação da Sociedade Missionária Batista, na Inglaterra. Após, Guilherme Carey foi para a Índia, em Serampore (colônia dinamarquesa, perto de Calcutá).

Na América do Norte o primeiro mover missionário nasceu em uma reunião de oração realizada pelos alunos do Colégio Williams, em Massachusetts. Fugindo de uma tempestade, um grupo de estudantes se abrigou em um paiol onde o feno era guardado. Eles começaram a orar e ali mesmo foram levados a consagrar as suas vidas à obra de Cristo no mundo pagão. A consagração deste grupo de jovens inspirou o surgir da Junta Americana de Comissionados para Missões Estrangeiras. Essa Junta teve início como um trabalho interdenominacional, passando, mais tarde, para as igrejas congregacionais. Elas, inicialmente, enviaram quatro missionários ao Extremo Oriente, à Índia e Birmânia. Na mesma época, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, houve um despertar missionário que gerou um grande interesse pelo trabalho  em países estrangeiros.

Dentre os muitos homens que se consagraram ao trabalho missionário ou, como a Bíblia refere, apostólico, nos últimos séculos, destacamos: Richard Hooker, na Inglaterra; Thomas Cartwright, considerado o fundador do puritanismo (movimento calvinista na Inglaterra). Esse homem foi missionário nas ilhas Guernsey e Jersey (ilhas Anglo-Normandas). Jonathan Edwards (1703-1758), do seu púlpito nasceu o “Grande Despertamento”, um avivamento que se espalhou por todas as colônias norte-americanas. Ele foi, também, missionário entre os índios norte-americanos. John Wesley, inglês, o fundador do metodismo, que pregou em toda a Inglaterra, Irlanda e Escócia enviou muitos missionários para a América do Norte. Mais recentemente temos Robert Moffat e Robert Morrison, que foi o primeiro missionário protestante a ir à China. David Livingstone, que foi para a África em 1841 como médico, desbravador e pregador; J. Hudson Taylor (1832-1905), organizador da Missão Interior da China que, sozinho, sem amparo de nenhuma Missão, instituiu a maior rede de missionários nesse país (cerca de 641). Albert Schweitzer, pastor, teólogo, filósofo, médico e músico, renunciou a todo o seu prestígio na Europa para ser missionário-médico, em Iambaréné, no Gabão (África), onde construiu um hospital em 1913. Hoje muitas organizações missionárias estão no mundo.

Há, ainda, grandes desafios que apelam à decisão de nos lançarmos, de diferentes formas, levando o evangelho da salvação em Cristo aos que dele precisam com urgência. Amém.

(Cap. 15)

O movimento pentecostal.

O Espírito Santo sempre acompanhou, acompanha e acompanhará todas as expressões da vida e das ações da Igreja Cristã, em toda a sua história. Sem o Espírito Santo ela já estaria falida. Nos dias finais do século XIX, o Espírito se manifestou de uma forma excepcional, dando origem ao denominado “Movimento Pentecostal”. Ele foi a resposta de Deus às orações de cristãos espiritualmente famintos, nos dias finais do século XIX. Esse mover do Espírito Santo, que deu origem e fixou no mundo o Movimento Pentecostal, tal como é conhecido hoje, ocorreu na cidade de Los Angeles, em 1906. Em outubro de 1900 Charles Parham alugou a chamada “Mansão de Pedra”, uma residência com o estilo de um castelo inglês, para nele estabelecer a escola bíblica denominada Betel. Cerca de 40 alunos compunham o seu corpo discente. Nela nenhuma taxa era cobrada, todos viviam pela fé. A maior preocupação desse grupo era: como descobrir o poder que os capacitaria para enfrentar o novo século.

Nessa escola foi estabelecido que cada estudante oraria por três horas cada dia, em um local determinado. Alguns alunos passavam noites inteiras em oração. No primeiro dia de janeiro de 1901, uma moça de 18 anos, Agnes N. Ozman testemunhou que naquela noite ela clamava pela unção do Espírito Santo e, em um dado momento, pediu que alguém impusesse as mãos sobre ela, para receber o dom do Espírito. Ao ser batizada no Espírito ela começou a falar em línguas, glorificando a Deus. O Sr. Parham testemunhou: “Impus minhas mãos sobre ela e orei. Mal pronunciei três dúzias de frases, quando uma glória caiu sobre ela; uma auréola envolveu a sua cabeça, e ela começou a falar em língua chinesa”.  Por três dias ela ficou impossibilitada de falar o inglês. Na segunda noite essa mesma moça orou na língua boêmia, confirmada por um rapaz tcheco ali presente. As aulas foram suspensas e por três dias todos entraram em uma vigília contínua. Logo Charles Parham e a maioria dos estudantes tiveram a experiência desse mesmo batismo.

Em 1905 Parham transferiu a sua residência para a cidade de Houston, Texas, onde formou outra escola bíblica. Um dos alunos foi William J. Seymor, de cor negra, cego de um olho e muito humilde. Ele se tornou um excelente pregador sobre o Espírito Santo, mesmo antes de ter recebido o batismo no Espírito. Ele foi a Los Angeles para pregar a uma congregação de negros, da igreja Holiness, convidado por uma pastora que o ouviu uma das suas mensagens, no Texas. Seu primeiro sermão em Los Angeles foi baseado em Atos 2.4. A pastora ficou indignada, pois não apreciou o seu sermão. Na segunda noite ele encontrou a porta do templo fechada por ordem da pastora. Seymor, com sete pessoas, buscou um grupo de irmãos que oravam em uma casa. Ali, ele foi o instrumento que Deus usou para começar um dos mais importantes avivamentos da história da Igreja Cristã. Naquela noite de 1906 todos foram batizados no Espírito e falaram em línguas. O orar foi tão alto que uma multidão se reuniu curiosa. Logo inúmeras pessoas brancas estavam reunidas aos negros, cheias do Espírito, louvando a Deus. Nessa noite, ali foi quebrada a segregação racial, tão forte no sul dos Estados Unidos naqueles dias.

Por: Erasmo V. Ungaretti

fonte: www.igrejaempoa.com.br

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