Torna-se pastor em Londres

(1834-1892)

“Isso deve ser um engano.”

Foi isso o que Charles Haddon Spurgeon pensou quando lhe pediram para pregar na capela da rua New Park, em Londres. Era uma igreja de grande prestígio, em um maravilhoso edifício antigo, e Spurgeon tinha apenas dezenove anos de idade.

Entretanto, não era um engano. Depois de ter falado, Spurgeon foi convidado a se tornar o pastor principal daquela igreja, e manteve-se nesse posto por quase quatro décadas.

Spurgeon dificilmente seria o tipo apropriado para uma sociedade londrina claramente dividida em classes. Nascido em uma família de huguenotes, em uma área rural de Essex, viveu com seus avós quando criança porque seus pais eram muito pobres para cuidar dele. Seu avô e seu pai eram ministros congregacionais, mas Charles freqüentou uma escola agrícola — ainda que por apenas alguns meses.

Lutando com as necessidades de sua alma, Spurgeon decidiu ir à igreja no primeiro domingo de 1850. Uma nevasca impediu que fosse até a igreja que ele pretendia freqüentar, mas terminou indo a uma capela mais próxima, uma metodista primitiva. O orador era ignorante, como disse o próprio Spurgeon mais tarde, mas lançou um desafio direto ao jovem Charles. Como resultado, Spurgeon tornou-se cristão aos dezesseis anos de idade.

Spurgeon logo descobriu que tinha o dom da oratória. Em 1852, ele se tornou pastor de uma pequena Igreja Batista em Waterbeach. Era uma área bastante rude, e as pessoas daquela região eram conhecidas por seu apego à bebida. Spurgeon desenvolveu um estilo direto. Seus ouvintes não deveriam esperar por explicações teológicas floreadas — ele simplesmente diria a eles o que a Bíblia tinha a dizer. A fama do “jovem pregador” de Waterbeach começou a se espalhar. Logo, a diretoria da capela da rua New Park decidiu dar-lhe uma oportunidade.

A igreja possuía um histórico magnífico, mas enfrentava dificuldades. O prédio muito bem ornamentado tinha espaço para cerca de mil pessoas, mas, nos últimos tempos, a igreja tinha dificuldades para reunir uma centena. Cerca de oitenta pessoas compareceram ao primeiro culto de Spurgeon. Talvez o jovem pregador pudesse fazer com que as coisas acontecessem.

Ele fez. Seu estilo direto fez com que o povo londrino acordasse. A audiência da igreja cresceu muito rapidamente. Não demorou muito para que aquele grande templo ficasse lotado. A igreja precisou alugar o Exeter HalI, um teatro com capacidade para 4.500 pessoas.

Um crescimento tão rápido chamou a atenção da imprensa de Londres, cujos artigos sobre o novo pastor nem sempre eram favoráveis. “Todos os seus discursos são carregados de mau gosto, além de serem vulgares e teatrais”, escreveu um jornal. Outro dizia que seu estilo “era ordinário e coloquial, repleto de extravagâncias […] Até mesmo os solenes mistérios de nossa santa religião são tratados por ele de maneira rude, áspera e impiedosa […] Esse é o pregador que 5 mil pessoas escutam.” O número era superior: 10 mil pessoas ou mais. O Exeter Hail logo ficou muito pequeno para as multidões que queriam ouvir Spurgeon.

A igreja alugou o Surrey Music Hall, com capacidade para 12 mil pessoas sentadas, e o lugar ficou lotado, sem contar as quase 10 mil que esperavam do lado de fora. Infelizmente, o culto de abertura trouxe consigo um grande desastre. Alguns agitadores gritaram “Fogo!”. No pânico que se seguiu, sete pessoas morreram e 28 ficaram gravemente feridas. O incidente não contribuiu em nada para que Spurgeon passasse a ser mais tolerado pela imprensa de Londres.

Havia, no entanto, um novo entusiasmo evangélico na Inglaterra de 1860, e Spurgeon estava exatamente no meio dele. Os historiadores chamaram esse episódio o Segundo Avivamento Evangélico. Outros pregadores, como Alexander Maclaren, em Manchester, e John Clifford, em Londres, também atraíam multidões. Em 1861, a capela da rua New Park concluiu a construção de um novo edifício, o Tabernáculo Metropolitano, com capacidade para 6 mil pessoas. O ministério de Spurgeon apenas começava. Publicou seus sermões, assim como comentários e livros devocionais, totalizando 140 livros.

Fundou um seminário para pastores e o orfanato de Stockwell, que cuidava de 500 crianças. Tornou-se presidente de uma sociedade para distribuição da Bíblia. Ele pregava em todos os lugares sempre que lhe era dada oportunidade.

O estilo de Spurgeon pode ter sido direto e simples, mas não era relaxado com relação à teologia. Ele era um batista de convicção calvinista.  De  certa  maneira,  essa  mistura  de  tradições  ajudou  as duas alas: trouxe a estrutura do Calvinismo à religião das classes mais simples e ofereceu a sinceridade da fé batista às igrejas das classes mais abastadas.

Seu dom era o da comunicação. Ao ler seus trabalhos, podemos encontrar um poder moderno neles. Lembre-se de que ele viveu em uma época na qual se prezava muito o estilo: o que você dizia, normalmente, não era nem de perto tão importante quanto a maneira como você falava. Spurgeon, no entanto, não tinha tempo para expressões refinadas. Ele empregava fortes imagens na linguagem e escolhia verbos que enfatizassem suas idéias. Ao fazer isso, estabeleceu um exemplo para os pregadores futuros. Os trabalhos escritos desse “príncipe dos pregadores” continuam nos catálogos de várias editoras nos dias atuais, pois ainda são muito admirados.

Por: Kenneth Curtis

Fonte: Os 100 acontecimentos mais importantes da história do cristianismo: do incêndio de Roma ao crescimento da igreja na China / A. Kenneth Curtis. J. Stephen Lang e Randy Petersen; tradução Emerson Justino – São Paulo: Editora Vida, 2003.

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