Não me envergonho do Evangelho

1. SUA PEREGRINAÇÃO ESPIRITUAL

Martinho Lutero nasceu em 10 de Novembro de 1483, na Alemanha, na vila de Eisleben, filho de um minerador de prata de classe média, e foi criado em Mansfeld, na Turíngia. Foi uma infância de grandes privações, que o marcaram profundamente. Com 14 anos, foi enviado para Magdeberg, para estudar com os Irmãos da Vida Comum (ordem religiosa fundada pelo holandês Geert Groote, em 1381), e ali foi iniciado na piedade pessoal. Foi nesta escola que Lutero viu pela primeira vez uma Bíblia. Ele ficou pouco tempo na ordem, pois uma enfermidade o obrigou a voltar para casa.

Aos 18 anos, em 1501, seu pai, desejando torná-lo um jurista, o envia para a Universidade de Erfurt.  Adquiriu um grande conhecimento de gramática, lógica, metafísica e música.

Mas não se resumem a estes seus estudos. Interessou-se pela teologia escolástica de Guilherme de Occam (1280-1349), que afirmava que Deus não haveria de negar Sua graça ao homem que fizesse tudo quanto estivesse em seu poder, e com o humanismo, que era a redescoberta da cultura clássica.  Em 1502 colou grau de bacharel, e em fevereiro de 1505, recebeu o invejável título de Mestre em Artes. Com isto, para deleite de sua família, já poderia dar aulas.

Mas uma convulsão assaltava o jovem Lutero. Seu amigo Filipe Melanchton disse: “Amiúde ao pensar na ira de Deus e em seus juízos, ficava tão atemorizado que quase perdia o alento”. Contra a ira de Deus, Lutero buscava refugio junto à Virgem e aos santos. Na Páscoa de 1503, ele se feriu gravemente, e depois confessou: “Teria morrido, apoiando-me em Maria”. O fato decisivo que o levou, aos 22 anos, a ingressar, na manhã de 18 de Julho de 1505, no Convento dos Eremitas Agostinianos foi uma tempestade violenta que desabou perto dele, quando retornava de sua casa, para a Universidade. Ao perceber sua fragilidade, sua consciência clamou: “Eu, Martinho Lutero, como serei salvo?” Em suas palavras, “eu me dizia continuamente: Oh! Se pudesse ser verdadeiramente piedoso, satisfazer teu Deus, merecer a graça! Eis os pensamentos que me lançaram no Convento!” Invocando Santa Ana, promete fazer-se monge.

A ordem monástica que Lutero havia escolhido se distinguia ao mesmo tempo pela seriedade de seu labor teológico e pela dureza de sua regra. Em 1507 foi ordenado sacerdote, na Catedral de Santa Maria. Mas, no centro de seu pensamento gravita Deus, o Deus de majestade, o Deus que tem Seu trono no céu distante, o Deus da Lei, o Juiz, o Vivo, o Santíssimo, o Senhor que odeia o pecado, e que por conseguinte, condena o pecador. Lutero, na tentativa de tornar-se justo, descreve-se: “Toda a minha vida não era mais do que jejum, vigílias, orações e suores… Se tivesse durado um pouco mais, ter-me-ia martirizado até a morte por meio de vigílias, rezas, leituras e outras espécies de trabalhos.” Tinha um espírito quebrantado e estava sempre triste.

2. NO CAMINHO DA REFORMA

Por causa de sua piedade e inteligência, em 1511, ocorreu um fato que mudaria para sempre sua vida. Johann von Staupitz, o superior da ordem, disse que ele precisava preparar-se para a carreira de pregador e tornar-se doutor em Teologia. Lutero, a princípio, não aceitou, mas Staupitz encerrou a questão: “Tudo deixa entrever que dentro em pouco nosso Senhor terá muito trabalho no céu e na terra. Então, precisará de um grande número de jovens doutores laboriosos. Que vivas, pois, ou que morras, Deus tem necessidade de ti em Seu conselho.”

Em 19 de outubro de 1512, Lutero obteve o grau de doutor em Teologia. Em suas palavras, “eu, Dr. Martin, fui chamado e forçado a tornar-me doutor, contra a minha vontade, por pura obediência e tive de aceitar um cargo de ensino como doutor, e prometo e voto pelas Sagradas Escrituras, que tanto amo, pregar e ensiná-las fiel e sinceramente.”

A partir do inverno de 1512 Lutero começou a preparação para as suas preleções sobre Salmos (1513-1515), Romanos (1515-1516), Gálatas (1516-1517), Hebreus (1517) e novamente Salmos (1518-1519). Ele começou a trilhar o caminho da Reforma como observou, mais tarde: “No transcorrer destes estudos, o papado soltou-se de mim”. Ele abandonou o método de interpretação alegórico, que era dominante, e os comentários dos teólogos escolásticos, pois não contribuíam para uma compreensão do texto. Passou a apoiar-se nos comentários de Santo Agostinho (395-430), que era o expoente da doutrina da graça: A salvação do homem decorre não de realizações próprias, mas da misericórdia de Deus.

Através de seus laboriosos estudos das Escrituras, Lutero chegou a ver que a culpa que o consumia não poderia ser retirada por mais religião, e o Deus que ele tanto temia não era o Deus que Cristo havia revelado. Disparado da Epístola aos Romanos (1.17), outro relâmpago cruzou seu caminho: “Noite e dia eu ponderei até que vi a conecção entre a justiça de Deus e a afirmação de que ‘o justo viverá pela fé’”. Então eu compreendi que a justiça de Deus era aquela pela qual, pela graça e pura misericórdia, Deus nos justifica através da fé.

Com base nisto eu senti estar renascido e ter passado através de portas abertas para dentro do paraíso. Toda a Escritura teve um novo significado e, se antes, a justiça me enchia de ódio, agora ela se tornou para mim inexprimivelmente doce em um maior amor. “Esta passagem de Paulo se tornou para mim um portão para o céu…”

Alguns historiadores entendem que a teologia de Lutero estava virtualmente amadurecida até 1515. Mas, nas exposições dos livros de Salmos e Romanos ele parece um homem andando na direção da luz, mas não que tenha encontrado a luz.  Há alguns lampejos, mas estas exposições ainda refletem o entendimento medieval sobre as boas obras e o mérito.  Ele chegou ao seu entendimento da justificação, com clareza e certeza, em cerca de 1518-1519. Esta foi a doutrina mais importante da Reforma, e a doutrina mais importante para Lutero. Há três aspectos distintivos do entendimento desta doutrina de Lutero.

1. A justificação envolve a justiça imputada de Cristo, e não a justiça da própria pessoa. Os católicos criam que, se fizermos o necessário, a graça de Deus, dada pelos sacramentos, vai nos possibilitar crescer em justiça ao ponto de, algum dia, sermos realmente justos e dignos do céu. O despertar de Lutero veio no entendimento da frase “a justiça de Deus”. Esta frase significa o dom de Deus, a maneira justa com que ele nos declara justos; que somos justos, aos olhos dele, baseado na obra de Cristo na cruz. Agostinho e os teólogos católicos interpretaram a justificação como “fazer justo”. Lutero falou que o significado é que Deus declara os injustos

– os ímpios – justos! Como ele pode fazer isso? Isto não seria uma ficção? Não, porque Deus nos veste da justiça de Cristo. Então, é possível ter segurança, não baseada nas boas obras, ou mérito, ou justiça pessoal, mas baseada somente na justiça de Cristo, dada a nós por causa da graça de Deus.

2. Esta justiça de Cristo é recebida somente pela fé. A fé não cria esta justiça, não é uma boa obra, mas a fé aceita a graça de Deus e confia em Cristo; ele nos salva. A fé não faz nada ativamente; ela é passiva, ela aceita a obra de Cristo em nosso lugar para nossa salvação. E a própria fé é um dom de Deus. Não há nenhum espaço para mérito humano.

3. Como resultado da justificação, somos simultaneamente e sempre justos e pecadores.  Não meio-justos e meio-pecadores, mas completamente justos em Cristo e completamente pecaminosos em nós mesmos. Permanecemos sempre dependentes de Cristo. “Somos verdadeiramente e totalmente pecadores, com respeito a nós mesmos e ao nosso primeiro nascimento. Inversamente, já que Cristo nos foi dado, somos santos e justos totalmente. Então, de diferentes aspectos, somos considerados justos e pecadores ao mesmo tempo”.

“Não posso mudar nada absolutamente daquilo que tenho ensinado até agora sobre a justificação, a saber, que recebemos pela fé um coração novo e puro e que Deus nos reputa justos pela virtude de Cristo nosso mediador… Afirmamos também que não é verdadeira, e portanto nada vale, a fé que não for acompanhada de boas obras” (Lutero).

Ele desvencilhou-se daquilo que tem sido chamado como “o pior erro gramatical do mundo”, isto é, a idéia medieval de que o homem faz-se justo. Mas Paulo, nas Epístolas de Romanos e Gálatas nos ensina que Deus nos declara justos, baseado na perfeita obediência de Cristo, a nós imputada. Errol Hulse afirmou: “A única vez no Novo Testamento, em que nós lemos sobre um forte anátema é Gl.1.9, repetindo duas vezes ‘seja maldito’. O apóstolo declara que quem quer que perverta a justificação pela fé ‘seja maldito’. Não importa quão importante seja o ministro, mesmo que seja um anjo do céu, seja ele maldito.” Lutero, sobre a justificação pela graça, por meio da fé, disse que este era “o artigo pelo qual a igreja se mantém ou cai.”

Lutero também era o pastor da igreja da cidade de Wittemberg, e começou a pregar sua fé recém-descoberta para sua congregação. Mas, ao mesmo tempo, um monge chamado Tetzel, representante do papa  Leão  X,  estava  vendendo  indulgências  para  levantar  dinheiro para a construção da Catedral de São Pedro, em Roma. As indulgências eram cartas de absolvição que garantiam o perdão dos pecados. Tetzel afirmava: “Não vale a pena atormentar-te: podes resgatar teus pecados com dinheiro! Pagando, podes escapar dos sofrimentos do purgatório e aliviar os dos outros!”, e tudo embalado pelo cântico: “A alma sai do purgatório no preciso momento em que a moeda ressoa na caixa.”

Para Lutero, isto era uma perversão do Evangelho. Em 31 de Outubro de 1517 ele afixou, na porta da Igreja do Castelo, em Wittemberg, as 95 teses que haveriam de marcar o princípio da Reforma. Escolhera intencionalmente aquela data, pois o dia seguinte seria a festa de Todos os Santos, e o príncipe eleitor Frederico ofereceria à veneração de seu povo sua preciosa coleção de 17.443 relíquias (que incluíam um dente de Jerônimo, quatro partes do corpo de João Crisóstomo, quatro fios de cabelo da Virgem Maria, um retalho das fraldas de Jesus, um cabelo de sua barba, um prego de sua cruz, entre outros), cuja veneração valia para os fiéis 127.779 anos de indulgência. O afixar teses não era grande coisa, pois os eruditos naquele tempo faziam isto, mas com a invenção da imprensa, as teses se espalharam pela Europa, dando início à batalha. Elas começam com a famosa exortação: “Ao dizer ‘Arrependei-vos’ Mt4:17, nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência”.

3. DIANTE DE REIS E PRÍNCIPES

Os eventos se sucedem com rapidez. Em 1518, Frederico, Eleitor da Saxônia dá seu apóia a Lutero. Em 1519, participa do debate de Leipzig, contra Eck. Em 1520 escreve três obras importantes: “Apelo à Nobreza Germânica” (contra a hierarquia romana), “O Cativeiro Babilônico” (contra o sistema sacramental de Roma) e “Sobre a Liberdade do Homem Cristão” (afirmando o Sacerdócio de todos os crentes). Em 10 de Dezembro de 1520 queima os livros de Direito Canônico e a bula papal que o ameaçava de excomunhão. Em começos de 1521, ele é convocado a Worms, perante o Imperador Carlos V e os príncipes da Alemanha, para dar contas de seu ensino.

Depois de dois dias de debates, onde o que está em jogo é a autoridade das Escrituras, ao ser instado a retratar-se e retornar à comunhão com Roma, Lutero exclama: “Já que me pede uma resposta simples, darei uma que não deixa margem à dúvidas: A não ser que alguém me convença pelo testemunho da Escritura Sagrada ou com razões decisivas, não posso retratar-me”. Pois não creio nem na infalibilidade do papa, nem na dos concílios, porque é manifesto que freqüentemente se tem equivocado e contradito. Fui vencido pelos argumentos bíblicos que acabo de citar e minha consciência está presa na Palavra de Deus. Não posso e não quero revogar, porque é perigoso e não é certo agir contra sua própria consciência.

Que Deus me ajude. “Amém.” Era a noite de 18 de Abril de 1521, e um novo dia raiou para a cristandade.

4. EXPANSÃO E CONSOLIDAÇÃO

Em 1529 os príncipes católicos reuniram-se em torno de uma resolução que impedia a introdução da Reforma em seus territórios, mas reclamavam liberdade de culto romano nos territórios conquistados pela Reforma.  A recusa solene dos príncipes de “fé evangélica” (como se chamavam) de concordar com esta imposição tornou-os conhecidos por “protestantes”, como passaram a ser chamados.

Até sua morte, com 62 anos, em 18 de Fevereiro de 1546, na vila onde nasceu, em Eisleben, Lutero esteve continuamente envolvido nas controvérsias de seu tempo. Por esta época, sua influência já se havia se espalhado não só pela Alemanha, mas também por partes da Holanda, Suécia, Dinamarca e Noruega. A Reforma seguia seu curso de forma poderosa.

Quem foi Lutero? Ele não foi um homem livre de falhas, muito pelo contrário! Ás vezes

estas eram mais evidentes que suas qualidades!  Mas o teólogo reformado Karl Barth, ao entender que o verdadeiro legado de Lutero residia em sua percepção da livre graça de Deus em Cristo, que alcança o homem em seu estado de rebelião, morte e idolatria, afirmou:

“Que mais foi Lutero, além de um professor da Igreja Cristã que não se pode celebrar de outra maneira senão ouvindo-o?”

– Fonte: Heróis da Fé, Editora CPAD.

Por: Franklin Ferreira

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