O poder do alto

Ou A Necessidade Dos Crentes Se Revestirem Da Virtude Do Espírito Santo

“Despertas tu que dormes”

PREFÁCIO À 1a.  EDIÇÃO

O presente opúsculo compõe-se de artigos que foram publicados em números sucessivos no “O Jornal Batista”, do ano corrente, artigos que nos foram sugeridos e inspirados por uma obra que se acha publi­cada em inglês sob o título “Quíet Talks on Power, by S.D.Gordon”, obra essa de tão grande mérito que a sua fama repercute em toda a parte onde o inglês é falado e são desejadas as coisas de Deus e anelada a redenção da humanidade.

Nos capítulos que se seguem transparece a necessidade que o crente tem de revestir-se do poder do Alto, é tão essencial quanto a necessidade de crer em Cristo, fato este que, infelizmente, têm estado ocultos à grande maioria dos crentes. Fazemos ardentes e sin­ceros votos para que este nosso esforço concorra não somente para assinalar a suprema necessidade de que se trata, mas que seja também um real estímulo para que cada crente satisfaça essa tão grande necessidade.

Deus sabe, como também todos os que trabalham no Evangelho neste país sabem, que o trabalho evan­gélico se ressente da tremenda falta de obreiros, pois, “a seara verdadeiramente é grande, mas os obreiros são poucos”; porém, cremos que a necessidade dos crentes brasileiros se revestirem da virtude do Espírito Santo é ainda mais urgente do que a do aumento de obreiros.

Se nosso Deus se dignar servir-se deste trabalho para despertar os nossos irmãos, nós nos sentiremos bastantes compensados por esse nosso tentame, aliás, hu­milde.

Rio de Janeiro, 1904

I

DUAS CLASSES DE CRENTES

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”. Marcos 16:15

“E, estando com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, que (disse ele) de mim ouvistes”. Atos 1:4

“E todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem”. Atos 2:4.

É um fato geralmente reconhecido que há uma distinção bem definida entre os crentes, quanto ao seu valor no mundo para Cristo. Se de um lado, vêem-se crentes cujas vidas falam eloqüentemente em favor da causa do divino Mestre no mundo, e que cumprem os seus desejos, sendo “o sal da terra”, doutro lado, vêem-se crentes cujas vidas no mundo são inúteis, não ser­vem à causa de Cristo, não servem ao mundo, que não melhora em nada com tão inúteis cristãos no seu meio; uns são como o imã atraindo para Cristo, outros são como pedra, que não tem atração alguma. A qual dessas duas classes pertence, caro leitor? És uma influência no mundo para Cristo, ou és uma nulidade? Eis uma pergunta de alto alcance, uma pergunta de grande relevância.

Há, entretanto quem saiba que espécie de Crente és:

Em primeiro lugar, Satanás sabe perfeitamente se a tua vida é ou não prejudicial aos interesses do seu reino. Ele sabe se deve ou não te recear. Ele não se importará em nada com o fato de usares o nome de cristão, ou crente, se a tua vida não estiver em oposi­ção a ele, se não lhe causar dano, etc.

Em segundo lu­gar o mundo sabe também que qualidade de crente és. Os mundanos sabem se a tua vida está ou não de acor­do com a tua profissão de fé, com o Evangelho que professas; e se a tua vida não está de acordo com a tua profissão de fé, o teu testemunho para Cristo é nulo.

Em terceiro lugar, Cristo, mais do que todos, sabe que qualidade de crente és. Ele sabe perfeitamente se o teu ser está ou não sob a sua direção, melhor do que nós sabemos se este ou aquele objeto nos pertence ou não. Ele sabe bem qual é a tua preocupação máxima, se os interesses do seu reino, se os teus próprios interesses ou os interesses do mundo. Qual não será a amargura que ele sentirá vendo a vida desordenada de muitos que tomam o seu santo nome!

Se a tua vida é uma nulidade para Cristo no mundo, deves quanto antes indagar a causa. Pode ser que sejas um Nicodemos, que somente seguia a Jesus de noite, ocultamente, com medo do mundo. O Evan­gelho de João não nos deixa dúvida de que Nicodemos era um crente em Cristo, e que amava a Jesus ternamente, mas Nicodemos não era um crente declarado, não dava o seu testemunho abertamente, com medo dos seus colegas do Sinédrio, e de outros judeus influ­entes. Nicodemos, apesar de sua fé e de seu amor a Cristo, era um covarde, e, por conseguinte, a sua vida foi de pouco presumo para a causa de Cristo entre os do seu tempo. És assim um covarde, caro leitor?

Se não és um Nicodemos, talvez sejas um Láza­ro. O incidente que se deu à beira do sepulcro do ir­mão de Maria e de Marta encerra uma lição muito apli­cável a nós. Vemos que as palavras de Cristo, – “Lá­zaro, sai para fora”, o defunto incontinenti voltou à vida e se levantou, mas não podia andar porque estava atado de pés e mãos, e de boca tapada pela mortalha. Do mesmo modo, há crentes que, como Lázaro, pas­saram da morte para a vida, mas que, como Lázaro, ainda se acham ligados pela mortalha de defunto, isto é, certos pecados e vícios da vida passada.

Ora, é no Evangelho de João (7:38,39) que Cristo põe em evidência o que o crente deve ser neste mundo. Eis as suas maravilhosas palavras: Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu ventre cor­rerão rios de água viva. Isto, “porém, dizia ele, falando do Espírito Santo que haviam de receber os que cressem nele,” etc.

Nestas palavras Jesus, com mão de Mestre, que é, retrata o crente, perfeito e útil à sua causa. Faça­mos, pois, um pequeno estudo de tais palavras que se nos mostram de tanta importância.

1. Notemos o elemento que deve provir do ventre, isto é, da vida íntima do crente — “‘água”. Certamente, a água é o elemento mais essencial à vi­da. Abundância de água garante abundância de vida, ao passo que falta de água é causa de moléstias, epi­demias, fome e morte. É um fato histórico que a ci­vilização do mundo segue o percurso das águas, e a história dos povos anda estreitamente ligada à histó­ria dos rios, lagos e mares, que são procurados pelos homens, para poderem manter relações íntimas de comércio, etc. Ora, segundo o ideal de Jesus, a vida do crente deve ser para o mundo moral o que os rios são para o mundo material, um elemento estritamente necessário à vida, e ao mesmo tempo uma das suas maiores delícias.

2. Notemos a quantidade de água que deve provir do ventre do crente – “rios”. Não é um rio, mas rios; quer dizer, muitos rios. Com efeito, o cren­te deve ser como um majestoso Amazonas – um con­junto de muitos rios: correntes de amor, de simpatia, etc., que são os rios espirituais.

3. Notemos a qualidade da água – “água viva”. Não água turva, salobra, ou estagnada, que não serve para saciar a sede, que não dá vida, mas água da vida, cristalina, saborosa, e que de uma vez para sempre sacia a sede.

4. Notemos o curso dessa água – “do seu ven­tre”. Ela procede do ventre, sai dele e não vem de fora para dentro dele. Esses rios de água viva “corre­rão para fora”. Esta expressão “para fora” caracteri­za a vida de um homem dedicado a Deus; “para den­tro”, é uma expressão que distingue o homem dedica­do a si mesmo.   A pequena preposição de assinala a diferença entre o crente e o incrédulo, pois aquele vive para dar ao mundo e este para receber do mundo. É quando um rio transborda e inunda a terra, que produz depois com abundância, como sucede com o Nilo, no Egito; e, do mesmo modo, quando o crente transborda de alegria, de simpatia, de amor, para com os outros é que a sua vida produz abundantes frutos.

5. Notemos a nascente desses rios de água viva – “de seu ventre” (estômago é o que literalmente o termo significa). Esta expressão torna bem patente que Cristo usava linguagem exata, inspirada e divina. Nós costumamos dizer que o Coração é a sede, o centro da vida, mas tal não é a verdade; o es­tômago é que é o centro da vida. O sangue é a vida, e o estômago é o gerador do sangue, e não o coração. Este é simplesmente uma bomba de propulsão e absor­ção do sangue, que o transmite pelas veias e torna a trazê-lo para purificá-lo.    Esta figura, a nosso ver, significa que do centro da nossa vida espiritual é don­de procede a influência que há de ser uma bênção para os outros, isto é, que a nossa vida íntima deve ser dominada pelo Espírito de Deus, tornando-nos ins­trumentos nas mãos de Deus, canais pelos quais a gra­ça de Deus é conduzida para o mundo.  E se assim não for, nossas vidas não serão como rios de água viva,

6. Notemos, em último lugar, o manancial desses rios — “o que crê em mim” (Cristo). Portanto, Cristo é o manancial, a origem, desses rios de água viva que saem do crente; que faz que de modo maravilhoso abençoe este mundo perdido. Nós so­mos apenas o rochedo e o leito por onde as águas saem e correm. Mas, se formos como uma cisterna tapada, as águas não correrão.

No mesmo Evangelho se encontra um exemplo que bem elucida as importantíssimas palavras em questão: é a mulher samaritana que Cristo encontrou junto ao poço de Jacó, a qual se tornou tão fervorosa crente e zelosa trabalhadora. Antes do memorável en­contro com o bendito Salvador ela era uma mulher de moral duvidosa, era ignorante e exclusivista; porém, depois do encontro ela ficou completamente transfor­mada, cheia de nova vida, novos ideais e novos propósitos. De volta à cidade de Sicar, ali propalou tudo o que Cristo lhe fizera e dissera e chamou os cidadãos daquela cidade para irem encontrar-se com Ele. Aque­la cidade samaritana foi regenerada e a mulher samari­tana foi um dos instrumentos mais poderosos naquela obra de regeneração.

Se tua vida, caro leitor, não é semelhante à que é descrita na passagem acima, rogamos-te que não adiantes um passo sem que com todo o fervor e sin­ceridade de coração supliques a Cristo e lhe digas: “‘Senhor Jesus, mostra-me o que há na minha vida que te desagrada, de que devo me corrigir” e depois dize: “Por tua graça vou banir de minha vida tudo que me impeça de ser como rios de água viva para este mundo. Amém!”

II

UMA NECESSIDADE SUPREMA

“E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda; mas enchei-vos do Espírito”. Efésios 5:18

“Mas o fruto do Espírito é: caridade, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé. mansidão, temperan­ça”. Gálatas 5:22-23

“Depois que ouvistes a palavra da verdade… e tendo nele (Cristo) também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa”. Efésios 1:13

É incontestável que os crentes, os que de fato merecem o nome de cristãos, para desempenharem a sua missão de “luz do mundo” e “sal da terra” – para viverem em conformidade com o puro Evange­lho e honrarem o santo nome de Deus, necessitam poder, uma força sobre-humana, uma influência di­vina que os habilite a ganhar a vitória sobre o mundo, Satanás e a carne.

Nunca será demais salientar a necessidade ab­soluta que tem todo o discípulo de Cristo, desde o mais humilde ao mais elevado, de se revestir desse poder do Alto.

O jovem, sujeito às tentações da carne, para dominar os seus apetites e paixões, necessita desse po­der; para conservar os seus lábios puros e castos; para fechar os ouvidos da alma ao que é impuro; para não desejar aquilo que é pecaminoso e abominável; para banir de si todo e qualquer pensamento lascivo; para conservar os membros do seu corpo em santidade e a sua alma imaculada, necessita grandemente desse poder divino.

A jovem, bela e atrativa, para não dar ouvidos aos galanteios que apelam à vaidade, fraqueza tão na­tural ao sexo feminino; para viver no mundo sem ser guiada pelo mundo; a fim de resistir aos convites para os bailes, aos convites para outras diversões com que muito comumente são assaltadas as jovens, por Deus dotadas de certa beleza; para resistir à fascinação dos vestidos luxuosos, das jóias ricas, etc.; para não com­prometerem a causa do Mestre, necessitam desse po­der divino.

O chefe de família, em seu lar, aonde nem sempre todas as coisas vão a seu gosto, aonde nem sempre a esposa, ou os filhos, ou os criados, cumprem fielmente as suas ordens; aonde, finalmente, aparecem tantas coisinhas fúteis que se prestam a contrariá-lo; para que não se deixe vencer por essas contrariedades, e para que ande alegre e satisfeito apesar de tudo, ele necessita desse poder divino.

A mãe, na sua lida diária, dirigindo a casa, criando e educando os seus filhos, nesse reinado pequeno, mas tão importante para o mundo que há de receber os fi­lhos que ela tiver criado, como não necessita desse poder?!

O negociante, metido no torvelinho da vida comercial, onde quase tudo é falsidade, onde o logro é a nota dominante, a verdade uma quimera, dois pesos e duas medidas a ordem do dia; onde numa luta titânica de interesses os homens se devoram uns aos ou­tros; para resistir a essa voragem que arrasta o cará­ter a fim de que se salve o lucro, necessita em extra­ordinária medida desse poder do Alto.

Em suma, todos os crentes, para não negligen­ciarem a oração; a leitura diária da Bíblia e o traba­lho de ganhar almas para Cristo, para darem o fruto de uma vida genuinamente cristã – amor, gozo, pa­ciência, benignidade, bondade, longanimidade, mansi­dão, fidelidade, continência, castidade, etc., necessi­tam desse poder.

Se perguntássemos a qualquer grupo de crentes qual, em sua opinião, era a passagem mais importan­te, certamente nos diriam esta: “O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado”. E não teriam respondido mal. Mas, ao mesmo tempo, há outra passagem não menos importante do que a supracitada. Ei-la: “Recebei o Espírito Santo”, como disse Jesus aos seus discípulos. Estas duas coi­sas são inseparáveis, e constituem duas faces da mes­ma verdade. O poder do sangue não pode ser ele­vado acima do poder do Espírito, e vice-versa, o poder do Espírito não deve ser elevado acima do poder do sangue, o que, infelizmente, tem sido feito por mui­tos. Há os que passam a vida inteira, contemplando, a cena do Calvário (é a maravilha dos séculos), e há outros que não tiram as suas vistas do Pentecostes (é uma cena sublime); mas Calvário e Pentecostes são igualmente importantes para o crente, e devem igual­mente influir em sua vida.

Veja-se que Jesus morreu na cruz para tornar a nossa libertação do pecado uma possibilidade, e o Es­pírito Santo vem habitar e operar em nós para tornar realidade essa libertação do pecado. O Espírito exe­cuta em nós aquilo que Jesus executou por nós. Se o Espírito deixasse de executar semelhante obra em nós, que valor prático teria a obra consumada por Jesus, por nós?

E note-se que é o próprio Evangelho que nos apresenta o poder do sangue e o poder do Espírito como sendo duas coisas inseparáveis; duas coisas ne­cessárias para nossa redenção. O poder do sangue se torna eficaz pelo poder do Espírito, e o poder do sangue não teria valor prático se não fosse o poder do Espírito.

Note-se ainda que o Precursor de Jesus declara que este é o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, e que é “Aquele que vos batizará no Espí­rito Santo”.

E não é somente nos quatro evangelhos que esta verdade sobressai, mas também nos Atos dos Apósto­los. Se, na verdade, o Calvário se salienta nos Evange­lhos, o Pentecostes avulta nos Atos dos Apóstolos, po­rém os Evangelhos e os Atos são apenas parte de um todo.

Vemos como a operação do Espírito transformou por completo os Apóstolos e discípulos, operan­do neles a santidade e enchendo-os de santo zelo pela salvação do mundo. E Paulo, convertendo-se ao Evangelho, no caminho de Damasco, chegando a essa cidade, e entrando em casa de Judas, ali aguardou a chegada de Ananias, (de acordo com a palavra de Je­sus), o qual, entrando no aposento em que Paulo se achava e impondo-lhe as mãos, lhe disse: “Paulo, ir­mão, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou para que recobres a vista, e fiques cheio do Espírito Santo”. Sem dúvida, essa necessidade é suprema para todos os crentes.

Uma vida genuinamente cristã, uma vida perfei­ta e agradável a Deus, distingue-se por cinco coisas, coisas essas tão essenciais quanto o é a luz aos olhos, o ar aos pulmões, o sangue ao coração.

Diversamente do que se costuma fazer, começa­mos dizendo qual é a segunda dessas coisas, – o amor profundo à Bíblia, o livro de Deus; um amor que nos leve a lê-la, não por obrigação, mas por prazer. O nos­so amor ao Livro dos livros deve ser tão intenso como o do salmista que diz no Salmo 19 (Versão de Almei­da), nove vezes que o seu deleite está na lei do Se­nhor, e declara que ela é mais preciosa do que o ouro fino. Amas, caro irmão, de tal forma a lei do Senhor?

A terceira destas coisas – é o hábito da oração, não orando por mero hábito, mas estando habituado a orar, vivendo em oração. O crente deve receber dia­riamente provas de que Deus escuta e responde às suas orações. Ai de ti, se as tuas ocupações te privarem da comunhão que deves ter com o teu Deus. O teu co­ração deve estar em comunhão ininterrupta com Deus.

A quarta dessas coisas – é uma vida que demons­tre a verdade da declaração de Jesus, a saber: “mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”.

A quinta dessas coisas – é um desejo ardente de ganhar almas para Cristo. Note-se que é ganhar, e não arrastar, ou trazer por violência, mas pela persuasão com o poder do Espírito, ganhar almas para Cristo. Fazer amigos e ganhá-los para Cristo deve ser a ocu­pação suprema e o prazer inefável de todo o crente.

Mas a primeira coisa, a principal, que não obstan­te deixamos para dizer por último – qual será, ela? Atenta bem: É deixar que o Espírito Santo se apodere de nós; é pormo-nos à sua discrição, como o soldado completamente vencido na guerra, para que Ele faça de nós aquilo que bem lhe aprouver. O Espírito Santo é o Alter Ego de Jesus que deve governar como Jesus mesmo. Se esta coisa principal existe em nós, as ou­tras existirão; desta provêm todas as outras, mas se não tivermos esta primeira, debalde procuraremos em nós aquelas outras.

Se não estivermos revestidos desse poder do Alto, as nossas vidas serão um completo fracasso para Jesus aqui no mundo. E não devemos fazer outra coisa se­não esperar que sejamos revestidos desse poder. Não nos é mister esperar que Deus faça alguma coisa; Ele já fez tudo o que era necessário. Devemos permanecer inativos até que estejamos prontos a render-nos a Cris­to, a banir das nossas vidas tudo o que lhe desagrade, até que estejamos prontos a prestar-lhe obediência em tudo.

III

A LEI DO ESPÍRITO

“Na verdade, na verdade vos digo que aquele que cru em mira também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas; porque eu vou para meu Pai”. (III João 14:12)

“o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós” (João 14:17).

“Todavia, digo-vos a verdade: que vos convém que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei. E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça, e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim; da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; e do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado”. (João 16:7-11).

Cremos não errar supondo que cada um dos nos­sos leitores tem alguns amigos íntimos, pessoas bastan­te sérias, de boa moral, de qualidades recomendáveis, mas que não são crentes em nosso Senhor Jesus Cris­to; pessoas que talvez gostem do Evangelho, simpati­zem com o povo de Deus, lêem a Bíblia, assistam aos cultos, contribuam para a causa, mas que, contudo, ainda não abandonaram o mundo nem confiaram de coração no sacrifício do Calvário para a salvação de suas almas.

Ora, é acerca dessas mesmas pessoas que quere­mos falar um pouco; desejamos fazer a respeito delas algumas perguntas, aliás, francas. Primeiramente, ou­samos perguntar, caro leitor, o seguinte: Qual é a condição desses teus amigos em relação a Deus, desses amigos leais e sinceros, mas que não são decididos e fervorosos crentes em Cristo? Responderás, talvez, que “só Deus pode saber”. Sim; Deus o sabe, e melhor, do que ninguém; mas, também nós podemos saber, vis­to que o próprio Evangelho nos esclarece sobre o as­sunto. No Evangelho de Marcos (16:16) lemos estas palavras: “O que crer e for batizado será salvo: o que, porém, não crer será… Oh, como é horrível pronun­ciar essas últimas palavras — será condenado.

Nota, caro leitor, que se a promessa de Cristo ao que crê é imutável e infalível, a ameaça de Cristo ao que não crê é também imutável e infalível. Se tiveres como certa a tua salvação porque crês em Cristo, não podes deixar de ter como certa a condenação dos teus amigos incrédulos? De teus amigos?! E também de teus parentes, irmãos, pais e filhos.

Em segundo lugar, ousamos perguntar, se os teus amigos em questão não são amigos decididos e fervoro­sos de Cristo, de quem será a culpa? Quem será cul­pado da horrível condenação que pesa sobre os teus amigos? De pronto dirás que é Satanás, visto ser ele o causador de toda a desgraça humana. Certamente, o demônio é responsável no mais alto grau, mas ele não é o único responsável, pois que, teus amigos mesmos também são culpados da sua própria condenação, des­de que escolheram tal sorte, ao rejeitar o sacrifício de Cristo e desobedecer ao Evangelho.

Mas, poderá alguém pensar que Deus também seja de algum modo culpável pela condenação dos des­crentes? É verdade que há muitos que consideram o Criador como um juiz severo, sem misericórdia e de algum modo responsável pela triste condição dos ho­mens. Porém, diante do que Deus tem feito para li­vrar os homens da condenação, semelhante asserção é sobremodo injusta e blasfema. Realmente este mun­do é o filho pródigo de Deus, e Ele está com o coração quebrantado por causa da miséria desse filho pródigo; e se lermos em Marcos, cap. 12, a parábola da vinha, poderemos ver o que Ele tem feito para fazer voltar o seu filho.

Pensará alguém que Jesus Cristo, o Filho de Deus, é culpado da condição desses crentes? Se por um mo­mento alguém pensar semelhante coisa, contemple a cena do Calvário, onde, do alto de uma cruz infamante pende o Filho de Deus, o Santo, o Puro, o Imaculado. Melhor do que Enoque e melhor do que Elias, Ele pode­ria subir ao Céu sem passar pela morte, sem passar por aquele transe dos seus últimos dias; mas o seu amor por nós — oh, que amor! levou-o a dar a sua própria vida para poder dar vida aos que estão mortos em delitos e pecados. Que mais poderia Ele fazer?

E, acaso o Espírito Santo terá culpa da condena­ção dos homens descrentes? Vejamos. Logo que Je­sus regressou para o céu com seu sagrado corpo mal­tratado pelos ímpios deste mundo, conferenciou com seu Pai em relação à salvação do mundo que o tinha rejeitado, e o que disseram foi o seguinte: “Mandaremos a Terceira Pessoa da Santa Trindade, o Espírito Santo, que fará tudo o que se pode fazer a favor dos homens”; e assim se fez. Há mais de dezenove sé­culos que o Espírito Santo está no mundo, trabalhan­do com inexcedível paciência e ternura, a fim de ga­nhar-nos para Cristo e convencer-nos da justiça de Cristo. A obra especial do Espírito Santo no mundo é convencer os homens do pecado hediondo de rejeitar Cristo, o seu sacrifício, a sua justiça, o seu domínio. Somente o Espírito Santo pode fazer semelhante obra. Mil pregadores com a lógica de um Paulo e a elo­qüência de um Isaías não poderão convencer um só pecador do seu pecado e levá-lo a Cristo.

Atenta para isto que vamos dizer: Para que o Es­pírito Santo possa ter êxito na sua obra com os homens perdidos, ele exige o concurso dos homens salvos. Ele necessita de ti, leitor crente; ele necessita de tua per­sonalidade, de teus olhos, de teus lábios, tuas mãos. E se não tens prestado desse modo teu auxílio, então és também culpado da incredulidade e condenação de teus amigos descrentes.

Eis a lei do Espírito: Ele fala aos homens incré­dulos por intermédio dos homens crentes, opera sobre os homens por intermédio dos crentes. Os homens incrédulos não podem receber o Espírito, mas podem-no os homens crentes; assim declara Jesus, no Evan­gelho de João 14:17.

Ora, é a própria Escritura que nos fornece exem­plos interessantes da maneira por que o Espírito Santo se serve dos homens para executar os planos divi­nos na salvação deste mundo.

No Velho Testamento, entre outros exemplos, encontramos o de Gideão, um dos juízes de Israel. No livro de Juízes, 6:34, lemos (conforme o original): “Então o Espírito do Senhor revestiu a Gideão”; isto é, o Espírito Santo tomou a Gideão, apoderou-se dele, serviu-se de sua personalidade, dos membros do seu corpo para libertar maravilhosamente o povo de Israel do domínio de seus inimigos, o que o poder humano não poderia ter conseguido. A mesma expressão é empregada acerca de Amasai, um dos valentes de Davi (I Crônicas 12:18), e acerca de Zacarias, um dos sacerdo­tes do reinado de Josias (II Crônicas 24:20).

No Novo Testamento encontra-se um luminoso exemplo da verdade de que falamos, e este é o caso de Filipe, no seu trabalho de ganhar o eunuco para Cristo, como se vê da narrativa de Atos 8:26-40. Um fato que muito se salienta neste caso é que tudo o que Filipe fez a respeito do eunuco, fê-lo sob as ordens do Espírito Santo. Vede como começa a narrativa: “E disse o Espírito a Filipe: chega-te e ajunta-te a esse carro”.

Certamente, essa linguagem, que representa o Espírito falando abertamente aos homens, é figurativa, mas não deixa de ser real. Pode ser que os crentes de hoje não tenham consciência de que o Espírito lhes fale a viva voz; mas podem-se convencer de que o Es­pírito pode se servir deles do mesmo modo por que se servia dos heróis da fé dos tempos do Velho e do Novo Testamento. Quando tivermos uma lembrança ou o desejo de falar a alguém acerca de Cristo, podemos estar certos de que é o Espírito que faz nascer em nós tais sentimentos. Quando resistimos a esses bons pen­samentos e desejos, resistimos ao Espírito Santo, e sempre que tal se dá, os resultados são desastrosos.

Certo pastor narra o seguinte caso: “Sendo chamado para dirigir o serviço religioso no funeral de uma moça que morrera de repente, fui à casa dos pais da moça, onde se devia realizar o ato. Ali encontrando o jovem pregador que pastoreava a igreja de que fa­zia parte à falecida, perguntei-lhe: “Maria era cren­te em Jesus”? O moço cheio de tristeza, respondeu: “Há três semanas ouvi como que uma voz me dizen­do: “Fala com Maria”, e fiz tenção de falar com ela, mas adiei isso, e o senhor vê qual foi o resultado”. “De­pois”, continua o citado pastor, perguntei à profes­sora da escola dominical: “a senhora poderá informar-me se Maria era crente?” A professora, banhada em lá­grimas, respondeu: “Há dias ouvi como que uma voz incitando-me a falar com Maria acerca de Cristo, po­rém, desisti”. Daí a pouco, perguntei à mãe da moca se Maria era crente, e esta, entre soluços e lágrimas, respondeu: “Há três semanas senti um impulso para falar com Maria acerca de Jesus, mas deixei para fa­zê-lo mais tarde”.”

Vês, caro leitor, como o Espírito Santo instou com três pessoas para falarem àquela moça acerca de Cristo, e não pôde consegui-lo, porque resistiram ao Santo impulso que nelas agira, sendo o resultado, tal­vez, que uma alma foi para a eternidade sem fé em Cristo, tornando-se aquelas três pessoas culpadas da morte eterna de uma alma.

Ó irmãos, não resistais desse modo ao Espírito Santo de Deus, mas, pelo contrário, ponde-vos à sua dis­posição para que se sirva de vós, de vossos membros, como se fosse da sua santa vontade.

IV

NAS PEGADAS DE CRISTO

”Porque as obras da carne são manifestas, quais são: prostituição, impureza, lascívia”. (Gálatas 5:19).

”Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, o apetite desordenado, a vil concupiscência e a avareza, que é a idolatria. Mas agora despojai-vos também de tudo, da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca. Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do ve­lho homem com os seus feitos”. (Col. 3:5,8-9).

“Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis, mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis. Porque, todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rom. 8:13-14).

“E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim. ne­gue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lucas 9:23).

A palavra PODER é a mais importante em todas as línguas.

Poder é o que habilita o homem; é a faculdade de fazer; é aquilo que dá ao homem força e influên­cia. O homem predomina no mundo na proporção do poder de que se acha revestido.

Todo homem necessita de poder, e todos os ho­mens desejam ardentemente possuí-lo; porém, nem todos têm poder, porque não se sujeitam aos sacrifí­cios necessários para obter a coisa ambicionada.

Há uma lei, cuja observância em todos os ramos da vida se torna imprescindível. Ei-la: Para receber é preciso dar. Esta lei atua no mundo comercial, social, intelectual e espiritual. Para termos poder sobre nos­sas paixões e apetites, sobre nossa língua e sobre nos­so gênio; para termos poder na oração e em ganhar almas para Cristo, se nos torna indispensável pagar o justo preço.

No Evangelho de Lucas, 9:23, se encontram as seguintes palavras de Jesus: “E dizia a todos: se al­guém quer vir após mim, negue-se a si mesmo e tome cada dia sua cruz e siga-me”.

Consideremos essas extraordinárias palavras, pois que elas nos dão o preço que o crente deve pagar para alcançar poder para vencer o mundo, a carne e Satanás.

Aquele que seguir a Jesus obriga-se a tomar por norma a vida de Jesus, e note-se que a vida de Jesus aqui na terra foi uma vida perfeitamente humana. Ve­ja-se como sempre foi grande o poder que manifestou em todas as suas provações: sobre Satanás, os demô­nios, as doenças humanas; sobre os homens ardilosos e maus. Seu poder na oração, sua influência sobre as massas populares, seu poder sobre si mesmo, despre­zando o interesse próprio, tendo grande ternura e pa­ciência com os errantes e desviados, etc.

Queres ter semelhante poder, caro leitor? Poderás tê-lo, seguindo as pegadas de Jesus. Mas, estarás pronto a pagar o preço que Ele pagou? Estarás pron­to a ficar em manifesta oposição com o mundo? A passar por doido ou fanático? A ser perseguido e vituperado? A negar-te a ti mesmo e a tomar a tua cruz? Seguir após Jesus é fazer tudo isso, e mais alguma coisa!

I. Um firme propósito.

Aquele que anda nas pegadas de Jesus necessita um firme propósito, o que se nota na frase -“quer vir após mim”. O seguidor de Cristo, primeiro que tudo, precisa tomar espontaneamente a sorte que coube a Jesus neste mundo; ver, talvez, desvanecidas suas esperanças de lucros materiais; perder, talvez, sua po­sição social; ser, talvez, expulso do seio da sua famí­lia; deixar talvez, o seu emprego por ser incompatí­vel com a vontade de Cristo.

II. O combate ao EGO.

Em segundo lugar, quem anda nas pegadas de Cristo está obrigado a negar-se a si mesmo.

Que significa essa frase, negar-se á si mesmo? Certamente não significa a mera abstinência, como muitos entendem. É coisa comum entre os homens incrédulos se absterem e se sacrificarem a fim de ob­terem algum lucro material; como, por exemplo, os atletas, a fim de se tornarem robustos, deixam de be­ber, fumar e comer certas coisas, para vantajosamente disputarem um prêmio.

Há um Ego, uma certa individualidade, que ha­bita em cada um de nós, individualidade essa que do­mina sobre nós, e a cuja vontade nos tornamos escra­vos, e às vezes tornamo-nos mais do que escravos, tornamo-nos uma verdadeira máquina. Ora, o negar-se a si mesmo, de Jesus, é negar esse Ego, essa individua­lidade, que nos tiraniza; negar-se a si mesmo é deixar de fazer a vontade desse Ego, para fazer a de Jesus. Não é somente Jesus que fala contra essa individuali­dade, mas também os apóstolos, especialmente o apóstolo Paulo, dando-lhe ora um, ora outro nome.

Na sua epístola aos Romanos, Paulo dá a essa in­dividualidade o nome de – a carne, como se vê no ca­pítulo 8 e verso 8: “Os que vivem, pois, segundo a carne não podem agradar a Deus”. Na sua epístola aos Colossenses ele dá-lhe o nome de – “homem velho”, como se vê do capítulo 3, v. 9: “Não mintais uns aos outros, desponjando-vos do homem velho com todas as suas obras”.

Esse Ego apodera-se do gênio da pessoa em quem habita. Em alguns ele é polido, erudito, culto, porém, em outros, é ignorante, baixo, mal educado. Contudo, o seu caráter é o mesmo, embora se apresente sob dife­rentes formas.

Vede alguns dos característicos desse Ego.

1) Ele ambiciona o louvor de todos. Ele mesmo está profundamente convicto da sua própria importân­cia, do seu valor para a sociedade e para o mundo; re­conhece o seu talento e aptidão para as coisas, e deseja ardentemente que os outros reconheçam os seus méri­tos. Seus ouvidos estão sempre atentos a escutar o que de bom se diz a seu respeito.

2)   Um outro característico desse Ego, é que ele se incomoda muito com a censura. Como ele se torce todo e se amofina com a crítica, com tudo o que se diz em desabono seu! Como ele se explica, se defende e se justifica quando criticado e censurado! Ele se ofende muito facilmente, e geralmente nunca se esquece das ofensas recebidas.

3) Um terceiro característico é a teimosia. Esse Ego gosta imensamente de fazer a sua própria vontade. Dá toda a importância aos seus próprios planos e opi­niões, e tanto deseja a execução dos seus planos e que as suas opiniões prevaleçam que, para fazê-los triunfar, rejeita toda e qualquer opinião estranha, embora seja melhor, e até a opinião e a vontade de Deus.

Ora, esse Ego, essa entidade, esse “homem car­nal”, esse “homem velho”, que habita em nós e domi­na a nossa vida, não é senão o representante de Satanás em nós, o Alter Ego de Satanás em nós, a poderosa ala­vanca com que o maligno nos transtorna e nos faz aban­donar os caminhos de Deus, levando-nos a perder o gozo eterno.

Entre esse Ego e Cristo há uma guerra sem tréguas, e nosso destino eterno depende do resultado dessa guerra. Se Jesus vencer, abençoados seremos, se, pelo contrário, o Ego for vencedor, então, ai de nós!

É tal a astúcia desse Ego que ele consegue fazer prevalecer a sua vontade sobre nós sem que nós mes­mos o sintamos. Seria deveras interessante organizar diariamente uma lista das coisas que comemos, das que bebemos, dos nossos costumes e hábitos, do nosso modo de trajar, e ver de todas essas coisas o que foi feito para honrar e glorificar a Cristo, como também o que foi fei­to para honrar e glorificar o nosso Ego. Isso certamente nos mostraria que a maior parte das coisas que fazemos, é para glorificar o nosso Ego, em vez de glorificar e hon­rar a Cristo. Por outro lado, também se desejarmos obe­decer a Cristo mais do que ao nosso Ego, tal lista servirá para ir demonstrando a nossa vitória sobre o Ego, e o nosso crescimento na obediência a Cristo.

III. A crucificação do EGO

Em terceiro lugar, quem anda nas pegadas de Je­sus está obrigado a tomar a sua cruz. Que significa a frase tomar a sua cruz? Vê-se que atualmente, em gran­de parte do mundo cristão, a cruz é tida como um belo símbolo do cristianismo, e muitos trazem cruzes como ornamento e símbolo de devoção, e assim também se vêem cruzes nos templos mas, para Cristo, a cruz unha um significado diferente – era a crucificação de si mes­mo. Negar-se a si mesmo e tomar a cruz, significa re­jeitar a autoridade do Ego e pregá-lo na cruz para nela morrer ignominiosamente, como merece.

Dizem que o gato tem 7 vidas, por ser muito difí­cil matá-lo; mas o nosso Ego parece ter 777 vidas, tal é a dificuldade de pôr fim à sua existência. É por isso que Jesus ordena a cada um “tomar a sua cruz cada dia”. Sim, a luta entre esse Ego e Cristo é diária, e exige uma vigilância constante.

Em cada coração há um trono e uma cruz. Ora, se Jesus está sobre o trono governando as nossas vidas, o nosso Ego está morrendo pregado na cruz; mas, se pelo contrário o rei Ego está dominando, assentado no trono, Jesus está morrendo na cruz.

Hoje, talvez, estejamos resolvidos a tomar a cruz e morrer, para nós mesmos, a fim de vivermos para Cristo. Amanhã, em algumas coisas, aparentemente in­significantes, talvez tenhamos mudado de pensamento, como, por exemplo, deixando de dar graças na mesa, o Espírito Santo talvez indique a sua vontade, nós lhe resistimos, deixamos de obedecer ao seu impulso e assim desentronizamos a Cristo.

Oh, que o Espírito de Deus faça com que nos com­penetremos dessas palavras de Cristo que devem cons­tituir a nossa divisa cristã.

“Eis-me, ó Salvador, aqui;

Corpo e alma oferto a ti;

Servo inútil, sem valor;

Teu, contudo, sou, Senhor.

Fraco em obra e no pensar

Mui propenso a tropeçar,

Salvo estou por teu amor,

Eu me voto a ti, Senhor.

Subjugado em todo o ser,

Me submeto ao teu poder;

Grande é o preço do perdão,

Dá-me igual consagração.

Eu, remido pecador,

Me dedico ao Redentor;

Teu; é este coração,

Teu, em plena sujeição.

Toma-me, Senhor Jesus.

Faz-me andar contigo em luz,

Sem reserva, sem temor,

Teu cativo, ó Salvador.”

V

O CONSOLADOR

“E aconteceu que, quando Faraó deixou ir o povo, Deus não os levou pelo caminho da terra dos filisteus, que estava mais perto; porque Deus disse: Para que por­ventura o povo não se arrependa, vendo a guerra, e tor­nem ao Egito”. (Êxodo 13:17).

“Assim partiram de Sucole, e acamparam em Etã, à entrada do deserto. E o Senhor ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem, para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo, para os aluminar, para que ca­minhassem de dia e de noite. Nunca tirou de diante da face do povo a coluna de nuvem de dia, nem a coluna de fogo, de noite” (Ex. 13:20-23).

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” (João 14:23).

“Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (João 14:26).

A vida neste mundo se pode comparar a uma jor­nada, a uma viagem através de uma terra estranha, cujos habitantes falam línguas desconhecidas, terra ignota, cheia de perplexidades e problemas para o viandante. Contudo, a nossa peregrinação terrestre se irá tornando agradável na proporção em que formos fican­do isentos de atritos e impedimentos.

Ora, é plano do nosso Salvador que cada um de seus filhos, na sua viagem desta para a outra vida, te­nha um Companheiro que lhe sirva de guia por esta ter­ra estranha, livrando-o das dificuldades e das perplexidades, solvendo-lhe todos os problemas, isentando-o de atritos e impedimentos que o acabrunhem, para que a sua passagem por este vale de lágrimas seja para ele agradável e para o mundo proveitosa. O viajante inex­periente que tentasse escalar as altas e íngremes monta­nhas alpinas, ou tentasse percorrer o labirinto subterrâ­neo de Roma, ou atravessar o temível deserto do Saara, sem o competente guia, inevitavelmente estaria entre­gue à morte. O mesmo se dá com o viandante deste mundo. Por isso mesmo, Jesus têm-nos dado um Guia, um Companheiro fiel, sábio e poderoso.

Esse Companheiro não é senão o Espírito Santo, o “Poder do Alto”, a quem Jesus, nos seus discursos di­rigidos a seus discípulos chamavam “o Consolador”, como se vê dos capítulos 13 a 16 do evangelho de João. Esta palavra “Consolador”, no original grego, significa uma pessoa que se põe ao lado de outra para livrá-la de alguma dificuldade e protegê-la de alguma cilada. Oh, maravilha! O Espírito Santo mesmo é a pessoa que se põe ao nosso lado para nos dar vida quando desfalecemos para nos dar luz quando tudo em volta de nós se entenebrece, para nos dar poder quando nos sobrevêm o desânimo e o cansaço.

O Consolador deve ser o nosso Companheiro e Ajudador em todas as circunstâncias das nossas vidas, em todas as horas da nossa existência, que com profun­da simpatia e competente poder nos socorra sempre em toda e qualquer emergência. Ele deve estar conosco no lar, na rua, no trabalho, no passeio, na alegria, na tristeza, na prosperidade, no infortúnio, auxiliando-nos e socorrendo-nos com inexcedível fidelidade e presteza. A maneira por que o Consolador assiste, ajuda e socorre o crente em Cristo, na sua peregrinação terres­tre, é perfeitamente ilustrada pelo modo por que a “co­luna de nuvem” conduziu os israelitas do Egito à terra da Promissão. Como se sabe, essa viagem do povo is­raelita, através do deserto é, por certo, a mais assom­brosa que se tem feito em todos os séculos da existên­cia do homem, viagem que se distingue por duas coi­sas importantes: (1) pela natureza da região atravessa­da, e (2) pela extraordinária mudança que se operou no caráter do povo israelita.

Com efeito, nunca houve viagem semelhante por uma região comparável àquela, atravessada pelo povo em questão, terra que consistia em milhares de léguas quadradas de areia, sem estrada, abundante de feras e répteis venenosos, falta de água, uma terra sem habitan­tes tão cheia de perigos que merecia a denominação de terra da “sombra da morte”. Que extraordinário mila­gre, um povo inteiro, homens, mulheres, moços e moças, velhos e crianças, levando vacas e ovelhas, ca­britos e cordeiros, por quarenta anos viajar na temível região acima descrita! Porém, mais admirável do que a viagem foi à transformação que se deu no caráter do povo. Nessa impressionante peregrinação uma imensa multidão de milhões de escravos rudes foi transforma­da numa nação perfeitamente organizada e grandemen­te adiantada. E a explicação dessa inaudita transformação é a mais singular possível: que o Senhor Deus em pessoa acompanhou aquele povo na sua viagem, habi­tou com ele, tomou-o, dirigindo-o em todos os negócios segundo a sua divina vontade.

Durante todo esse tempo houve uma manifesta­ção física da presença divina, uma coluna, que de dia era de nuvem e de noite era de fogo, tocava a terra e era visível a todos os israelitas. Dessa nuvem ouvia-se distintamente a voz de Deus, e nunca esse sinal indica­tivo da presença real do Senhor abandonou aquele povo, senão quando o introduziu na terra prometida, não obstante a sua irritante obstinação, dureza de cerviz e constante murmuração.

É interessante e instrutivo notar o que significava essa nuvem para os israelitas. Examinando os livros de Êxodo, Levítico e Números compreendemos o que para a vida prática dos israelitas significava a coluna miraculosa. Coordenando os incidentes na vida daquele povo durante a qual Deus se manifestou visivelmente vê-se que há cerca de 20 incidentes em que a presen­ça divina se fez sentir de um modo distinto e vivo.

Ao aparecer à nuvem foi declarado que ela se des­tinava a guiar o povo durante o dia e a dar-lhe luz du­rante a noite, mas vê-se pela história que ela não se li­mitava a essas duas funções, pois, exercia a sua influ­ência nas circunstâncias mais minuciosas da vida do povo. Cinco vezes é mencionado que ela proveu o povo de alimento e de água fresca em abundância. Cin­co vezes é declarado que ela defendeu o povo de perigo iminente; uma vez que repreendeu o povo por sua in­gratidão; cinco vezes que repreendeu e castigou o povo por causa do pecado; quatro vezes que obstou a que o povo fizesse alguma coisa que desejava fazer e que lhe seria prejudicial; duas vezes que instruiu o povo acerca dos planos de Moisés, para patentear a justiça dos mes­mos; três vezes fez uma larga manifestação do caráter de Deus. Está registrado também que quando Moisés desejava falar com Deus a nuvem se aproximava um pouco mais do chão.

Desses exemplos vemos que a nuvem, a presença divina, era para o povo israelita naquele deserto a pro­visão de alimento, a defesa contra o inimigo e todos os mais perigos, a repreensão, o castigo, a instrução, a ma­nifestação de Deus, o guia. Oh, que maravilhosa realidade era a presença divina na peregrinação daquele povo! Sem dúvida ela se tornava o principal fator na sua vida, e os olhos de todos conservavam-se todos os dias e noites atentos para a nuvem a ver quais seriam as suas ordens. O povo não podia saber em um dia quais seriam as ordens para o dia seguinte. Deus, dessa maneira, se tornava o guia e diretor daquele povo.

Ora, a presença de Deus, pelo Espírito, deve ser para o cristão, para o crente, tão real quanto o era para o povo israelita; o Espírito deve ser o Consolador do crente como o era a nuvem para o povo israelita. E isto é o que Jesus promete aos seus discípulos, como se pode ver no evangelho de João, 14:21-26: “Aquele que tem os meus mandamento e os guarda, esse é o que me ama: e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele… Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lem­brar de tudo quanto vos tenho dito”.

Lendo os três capítulos do Evangelho de João (cap. 13 a 16), em os quais Jesus muito fala do “Consolador”, vê-se que há ali onze coisas que o Espírito havia de fazer para aqueles em os quais viria a fazer morada: havia de ensinar, havia de fazer lembrar, ha­via de testificar de Jesus, havia de convencer do peca­do, havia de ouvir as coisas do Pai, havia de guiar, havia de falar, havia de declarar, havia de glorificar a Jesus, havia de tomar as coisas de Jesus e manifestá-las ao seu povo.

Oh, que o Espírito Santo se torne uma grande rea­lidade em nossas vidas e em todas as circunstâncias de nossas vidas desde agora e para sempre.

“Guia, ó Deus, a minha sorte

Nesta peregrinação;

Frágil sou, mas tu és forte,

Não me largue a tua mão.

Nesta terra de inimigos

Ando cheio de pavor,

Pelo meio dos perigos,

Guia-me, meu Salvador.

Nutre com maná celeste

Meu faminto coração,

Guarda-me de toda a peste

Livra-me da tentação.

Abre a fonte cristalina

Donde as vivas águas vêm,

Dá-me direção divina,

Meus caminhos rege bem.

Ao Jordão, quando chegado,

Tendo as águas de passar,

Nessa pátria do outro lado

Faz-me em segurança entrar”

VI

COMO OBTER O PODER DO ALTO

“E, estando com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai que (disse Ele) de mim ouvistes. Porque, na verdade, João batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo, não muito depois destes dias” (Atos 1:4-5).

“E não vos embriagueis com vinho, em que há con­tenda, mas enchei-vos do Espírito” (Ef. 5:18).

“E vós tendes a unção do Santo, e sabeis tudo” (I João 2:20).

“E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção” (Ef. 4:30).

“Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus, o qual nos deu também o penhor do Espírito” (II Cor. 5:5).

Há um avultado número de crentes sinceros que, cônscio da esterilidade de suas vidas para a causa de Cristo, anelam pelo poder que os tornem capazes de re­sistir às tentações, que os prepare e habilite para o servi­ço de Cristo no mundo. Porém, procurando revestir-se do “Poder do Alto”, vão de encontro, pelo menos, a duas dificuldades, que são: a experiência de outros cren­tes, e os termos usados para designar o recebimento do Espírito Santo pelos crentes. Todo aquele que deseja ardentemente uma coisa, naturalmente procura saber a maneira por que outros a obtiveram; mas deve-se no­tar que, embora a experiência de pessoas piedosas seja de grande interesse e proveito para nós, semelhante experiência não se pode tornar a norma fixa da nossa própria experiência. A experiência varia com as pes­soas, de maneira que quantas forem às pessoas tan­tas serão as experiências. O mais acertado é procu­rar saber qual a lei do Espírito, lei que é a base da ex­periência humana; e isto é o que desejamos explanar no decurso deste capítulo.

A variedade de termos referentes ao recebimento do Espírito Santo pelos crentes de algum modo concorre para trazer confusão. Deixando de parte a infinidade de termos que usualmente se empregam nos púlpitos, folhetos, jornais, etc., em referência ao Espírito, vemos que há no Novo Testamento cinco termos especiais que são empregados para designar o recebimento do Espí­rito Santo pelos crentes, a saber: batizados no Espírito Santo (Atos 1:5); cheios do Espírito Santo (Ef. 5:18); ungidos com o Espírito (l João 2:20); selados com o Espírito (Ef. 4:30); o penhor do Espírito (II Cor. 5: 5). Ora, todos esses cinco termos, batizar, encher, un­gir, selar, dar em penhor, são necessários para exprimir toda a verdade acerca do Espírito Santo em relação aos crentes. Examinemos essas expressões. Batizar é a pa­lavra empregada para descrever o que se deu no gran­de dia de Pentecostes em Jerusalém, com os 120 discípulos reunidos. Descreve um ato que se realizou para assinalar o começo da dispensação sob a direção do Es­pírito. Esse ato foi repetido depois mais quatro vezes (Atos, caps. 4, 8, 10 e 19) para patentear que se des­tinava a todas as nacionalidades e a todas as condições. Batizar é o termo histórico para designar um ato que em certo tempo se realizou: o advento do Espírito Santo ao mundo para guiar e dirigir os crentes em Cristo.

Encher é a palavra que designa o resultado do ad­vento do Espírito, do batismo do Espírito. Essa pala­vra é empregada constantemente nos primeiros 9 capí­tulos do livro de Atos e é o termo que descreve aquilo que experimentaram os que foram batizados. Se pu­séssemos um livro dentro d’água, tirando-o poderíamos dizer que todas as suas folhas estavam cheias d’água, assim também se diz, falando dos discípulos, que fo­ram cheios do Espírito Santo.

Ungir com o Espírito exprime o fim para que se recebe o Espírito, que é habilitar para viver e servir.

Selar é o termo que exprime a relação para com Je­sus daqueles que recebem o Espírito. Desde os tempos mais remotos o selo é sinal de posse legítima. Era como o carimbo que os antigos senhores imprimiam nos seus escravos para mostrar que eram sua legítima propriedade. O Espírito Santo em nós é o sinal de que perten­cemos a Jesus, de que Ele é o nosso dono e de que sobre nós tem todo o domínio.

Dar em penhor é uma expressão que encontramos três vezes nas epístolas de Paulo, e é tirada do costume universal de dar um penhor como garantia de uma dí­vida, ou de um contrato. O Espírito Santo em nós é, pois, a garantia que Deus nos dá de não ser vã a nossa fé em Cristo, e de que cumprirá a sua promessa que nos fez, dando-nos a recompensa eterna depois que cremos em seu Filho Jesus Cristo, Salvador nosso.

Ora, o que nós desejamos saber é como obter o Espírito que nos enche de luz e de gozo, que nos unge para a vida e o serviço, o selo que mostra que perten­cemos a Jesus, que é o penhor de que não é vã a nossa fé Nele, e que como prometeu nos virá buscar.

Mas perguntarão alguns: “Não temos nós recebi­do já o Espírito Santo, visto que somos crentes”? Sim, isso é verdade, pois sem o Espírito Santo em nós nunca poderíamos ser cristãos, como diz o apóstolo: “Se al­guém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele”; o Espírito Santo é o que nos regenera e que nos liga a Cristo. Ao mesmo tempo é incontestável que na maior parte dos crentes a presença do Espírito não se faz sen­tir, não se manifesta; neles não habita em poder, por­que nunca eles fizeram entrega de si mesmos ao Espí­rito, para que Ele os governasse e dirigisse em todas as coisas.

É Cristo mesmo que nos ensina como poderemos obter o Espírito em toda a sua plenitude. No Evange­lho de João, 7:37-39, encontramos as notáveis pala­vras que já tivemos ocasião de apreciar em nosso pri­meiro capítulo. Vejamos quais são: “E no último dia, o grande dia da festa, que era o mais solene, Jesus pôs-se em pé, e clamou dizendo: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Es­critura, correrão do seu ventre rios de água viva”. Ora, o evangelista João, que escreveu o seu evangelho 50 anos depois dessa ocasião, acrescenta a seguinte expli­cação: “Isto disse ele, do Espírito, que haviam de receber os que cressem nele; porque o Espírito, que haviam de receber os que cressem nele; porque o Espírito San­to ainda não fora dado, por ainda Jesus não ter sido glorificado”.

Analisando essas palavras achamos nelas quatro coisas necessárias para recebermos o precioso dom, que tanto desejamos: ter sede, glorificar a Jesus, beber e crer.

1) Se alguém tem sede. Não há em língua huma­na uma palavra mais forte para exprimir o mais forte desejo.  Uma pessoa extremamente sequiosa, não pode de forma alguma acalmar-se enquanto não for saciada de água.  A simples idéia de morrer de sede causa pa­vor. Tens, prezado leitor, um tal desejo desse “Poder do Alto”? Se não, é inútil continuar esta leitura, é inútil que nutras um certo desejo de te tornares útil a ti mesmo e à causa de Cristo na terra.   Nunca receberás tal poder a não ser que sintas profundamente a tua necessidade dele. É perder tempo oferecer água a quem não se sente sequioso.

2) Porque o Espírito não fora dado ainda por não ter sido ainda glorificado Jesus. A palavra glorificado tem aí dois sentidos: o primeiro refere-se ao que se rea­lizou quando Jesus voltou ao céu, e segundo refere-se ao que se passa com aqueles que recebem o Espírito. Quando Jesus chegou ao céu, depois de ter saído do mundo, foi ali recebido com imenso entusiasmo e glorificado na presença de miríades de anjos, sendo entronizado à direita de Deus Pai. Então foi que mandou o seu Espírito ao mundo como testemunho de que havia sido glorificado no céu. E cada um de nós que recebe­mos o Espírito temos de glorificar Jesus, entronizando-o em nossos Corações como Rei e Senhor de nos­sa vida.

E devemos ter cuidado em indagar se temos uma tal sede do Poder, como também do motivo que nos leva a desejar tal poder. Para que desejamos tal Poder? Para egoisticamente gozar de um elevado estado espi­ritual? Para termos um resultado lucrativo material, como Simão, o mago? Ou para gozar de muita influ­ência mundana? Oh, semelhantes motivos são total­mente indignos, e manifestam que buscamos a nossa própria glória e não a glória de Cristo. Ora, se nós não desejamos só e unicamente glorificar a Cristo ele não nos concederá o seu Poder, para nossa própria glória. Ao embaixador que deseja honrar seu rei e sua nação, a esse é que o seu rei e o seu governo dão as creden­ciais de plenipotenciário, isto é, embaixador com todos os poderes. Assim também se o nosso mais ardente de­sejo é o de glorificar Jesus e fazer a sua vontade, pode­mos contar com a vinda do seu Espírito sobre nós.

3) Venha a mim e beba. Oh, como é fácil beber água. Beber é simplesmente tomar. Se verdadeiramen­te temos sede desse Poder, se o desejamos para poder­mos glorificar a Jesus, então receberemos o Espírito, ser-nos-á tão fácil como apanhar a água e bebê-la. Bas­ta-nos dizer: “Senhor Jesus, eu aceito de ti o poder que prometeste… Eu te dou graças porque o Espírito já se apoderou de mim”.

4) O que crê em mim… do seu ventre correrão rios de água viva. Precisamos crer na palavra de Jesus; precisamos crer que nos chegamos a Ele, que lhe pedi­mos o seu Espírito e que Ele nô-lo dá. “Mas como sa­berei que o Espírito se apoderou de mim”? Perguntará alguém.   “Não devo sentir alguma coisa?” Ora, não é por sentir, mas sim por orei que ficarás habilitado e terás poder conforme a tua necessidade. Como é que uma pessoa poderá saber que tem força bastante para levar um peso qualquer? Não será por pegar no volume e carregá-lo? Assim se temos poder para a vida e para o serviço de Cristo, é prova de que estamos revestidos do “Poder do Alto”.

Precisamos depois disso atender ao aviso do após­tolo Paulo, na sua epístola aos Efésios, 4:30 – “Não en­tristeçais o Espírito de Deus”.

Ora, uma das coisas mais penosas desta vida é ver um crente que em tempos passados foi extraordinaria­mente útil à causa de Cristo, mas que depois se tornou quase ou totalmente inútil. Seria facílimo apresentar muitos exemplos tristes desse fato, mas dispensamo-nos disso, justamente porque é uma coisa visível e sabida por todos.

O Espírito Santo nunca abandona o verdadeiro crente, mas se ele for entristecido por algum erro, ou pecado, da nossa parte, Ele deixará de se manifestar nas nossas vidas e obras.   Damos em seguida três regras para gozar continuamente do poder do Espírito.

1. A primeira delas é – simples e se exprime por uma só palavra – obediência. A obediência é a lei fun­damental da vida cristã. A desobediência é a porta por onde entra o pecado, Satanás, a morte.

2. A segunda regra é – obedecer à Palavra de Deus, interpretada pelo Espírito de Deus. Há três elementos que entram aqui: a voz de Deus, o Espírito de Deus, e o Livro de Deus. Todos esses são testemunhas da von­tade divina. Não devemos atender a qualquer uma des­sas testemunhas se as outras não estão de acordo. Não devemos seguir o livro por si só; isso seria seguir so­mente a “letra que mata”, e seria superstição. Nem de­vemos seguir o Espírito por si só sem a letra como guia, pois facilmente nos transviaríamos; isso seria loucura. Devemos seguir as três em harmonia, e quando estiver­mos duvidosos devemos esperar. Agora nem por som­bra alguém pense que a voz de Deus e o Espírito de Deus, e a Palavra de Deus, possam de alguma forma estar em desacordo entre si, mas é que, para a nossa na­tureza, esses três meios são a única maneira por que Deus nos revela a sua inteira vontade.

3.  A terceira regra é – gastar algum tempo diaria­mente com o livro de Deus.  Pelo menos devemos gas­tar a primeira hora do dia, ao levantarmos da cama, com o livro de Deus, para que dessa forma nos orientemos por sua santa vontade.

VII

TRANSFORMAÇÃO

“Mas todos nós, com cara descoberta, refletindo, como um espelho, a glória do Senhor, somos transformados em ­glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (II Cor. 3:18).

”Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mes­mo. E há diversidade de Ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos”. (I Cor. 12:4-6).

“Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coi­sas, repartindo particularmente a cada um como quer” (I Cor. 12:11).

Agora neste, que é o último capítulo, útil nos será considerar quais os resultados que se seguem ao fato de o Espírito Santo habitar no crente em sua plenitude, qual a maneira por que o “Poder do Alto” se traduz na vida e no caráter daquele que o possui na medida desejada.

A idéia vulgar que existe entre nós acerca do re­vestimento do Espírito Santo é que esse fato se assinala por um dom miraculoso de evangelização para a conversão de almas a Cristo. E é verdade que todos os evangelistas célebres, de grande êxito em ganhar al­mas para Cristo, têm sido homens plenamente revesti­dos do Espírito Santo, como no século XVI, Lutero; nos séculos XIX e XX Moody, Torrey, e tantos ou­tros. Por outro lado, porém, é inegável que durante todos os séculos tem havido homens cheios do Espírito, cujo ministério foi, quanto à conversão de almas, quase infrutífero. Ouvimos o profeta do Velho Testamento lamentando desta forma: “Quem deu crédito à nossa pregação”?  E Jeremias, outro grande profeta do mesmo tempo, vemo-lo inconsolável por causa da incredu­lidade e dureza de coração de seu povo ante as suas exortações. Vemos Jesus, a quem assistiu o Espírito Santo sem medida, como nunca a homem algum assis­tiu, ter o seu ministério muito limitado, quanto à conversão de almas; e o ministério de Estevão, “cheio do Espírito Santo”, parece ter sido completamente estéril. Paulo, na sua primeira epístola aos Coríntios, 12:4-6,11, explica-nos que, embora o Espírito seja o mes­mo em todos os crentes, o seu modo de se manifestar, de operar neles, diverge grandemente. Ouçamos o que diz o apóstolo: “Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, porém é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil”.

Dessa explicação de Paulo depreendemos que a maneira do Espírito operar nos crentes difere em cada crente. Todavia, os efeitos comuns, gerais, que a pre­sença do Espírito Santo produz naqueles em que ele habita, na sua plenitude, podem ser classificados debai­xo de três pontos.

1. Resultados na experiência e vida do crente;

2. Resultados no seu semblante e nas suas faculdades;

3. Resultados no seu trabalho para Cristo.

Desenvol­vamos ligeiramente esses três pontos.

1. Resultados na experiência e na vida do crente

I) O primeiro desses resultados é a extraordiná­ria paz que o crente sentirá. O santo apóstolo Paulo descreve essa paz, na sua epístola aos Filipenses, 4:7, com estas admiráveis palavras: “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo”. É, pois, a paz de Deus, que o homem não pode explicar, que sobrepuja todo o entendimento, que constitui a primeira prova de que o crente tem o Espírito Santo habitando em si mesmo.

II) O segundo desses resultados é o desejo de fa­zer somente o que seja agradável a Cristo.   Semelhan­te desejo há de crescer de dia para dia até que se torne a coisa primordial na vida do crente. Ele lerá então a Bíblia com sofreguidão para saber qual a vontade de seu mestre.

III) O terceiro dos resultados de que tratamos é a dedicação à oração. A oração para aquele que é domi­nado pelo Espírito é um motivo de grande prazer, o conversar com Jesus por meio da oração é-lhe um gozo inefável. A sua intercessão pelos outros, na oração, é uma parte da sua missão no mundo.

Mas também se deve notar que as tentações hão de aumentar, pois que Satanás consagra um ódio pro­fundo e especial àqueles que oram muito. Contudo, se as tentações se farão mais abundantes, também mais abundantes se farão as vitórias. Aquele que é por nós e que está em nós, é maior do que aquele que está contra nós.

IV) Outro desses resultados é um profundo ódio para com o pecado. O crente possuído pelo Espírito há de tornar-se cada vez mais cônscio da presença e hediondez do pecado, e há de odiá-lo de todo o Coração. Mas não ficará o crente só nesse ódio ao pecado: a pureza e a santidade serão o seu apanágio, o fim para que dese­jará viver.

V) Outro resultado é um intenso desejo de que os outros conheçam o Salvador. Tal desejo há de aumen­tar a ponto de se dispor a todo e qualquer sacrifício para que os perdidos conheçam e recebam ao Salvador, tão terno e benigno.

VI) Ainda outro resultado da habitação do Espírito é o amor de Deus derramado no coração do crente, con­forme declara Paulo aos Romanos 5:5. “Porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Se quisermos ver a natureza desse amor leiamos o capítulo 13 da primeira epístola de Paulo aos Coríntios, onde isso se acha magistralmente descrito e analisado. Oh, como esse pre­cioso dom, o maior dos dons de Deus, transforma a nossa existência, apresentando-nos a vida com uma nova e radiante perspectiva! O amor é a melhor fruta do cristianismo e a prova final da regeneração.

2. Os resultados no semblante e nas faculdades.

Sem dúvida a presença do Espírito na sua plenitude ope­ra uma sensível mudança na pessoa do crente. O espí­rito que olha por intermédio dos olhos do crente, certa­mente muda-lhes a expressão, dando-lhes mais pene­tração, mais calma, mais simpatia e mais atração. A paz interna do crente influi no coração, centro da circula­ção do sangue, e como resultado a sua pele se torna mais aveludada e mais clara. O novo propósito da sua vida muda a modulação da voz, tornando-a mais grave e ao mesmo tempo mais carinhosa. O seu aperto de mão torna-se como poderosa pilha elétrica sensibilizan­do fortemente aquele com quem comunica e transmitindo-lhe por assim dizer, pedaços da sua alma.  Final­mente, a influência vai a todos os atos do físico, como se deu nos casos de Moisés, Estevão e muitos outros crentes que conhecemos.

Mas não somente no físico, mas também, e, sobre­tudo, no moral se faz uma grande transformação.  As faculdades que eram passivas desenvolvem-se, desper­tam e se tornam ativas. O Espírito Santo não acrescen­ta faculdade alguma, mas desperta as que possuímos, e sob sua influência essas faculdades se desenvolvem até atingirem o seu maior grau. Moisés, por exemplo, quan­do chamado por Deus para o serviço, quis excusar-se, dizendo não ter o dom de falar, e que era gago; mas 40 anos depois, nos seus discursos de despedida, dirigidos aos Israelitas na planície de Moabe o mesmo Moisés usa de uma eloqüência arrebatadora.

E não somente se transformam as nossas faculda­des passivas, mas mesmo as que já eram ativas tomam impulso maior, tornam-se mais fortes e penetrantes. Os negociantes obtêm melhor êxito em seus negócios, o estudante torna-se mais inteligente, a cozinheira tor­na-se mais apta no preparo da comida, etc. Como uma máquina funciona melhor nas mãos do seu inventor, assim também o organismo humano funciona melhor sob a direção do Criador.

Ainda mais; as faculdades que por causa dos vícios e dos excessos tenham sido deformadas, pela influên­cia do Espírito tomam o seu estado normal. O homem excessivamente egoísta torna-se liberal, filantrópico, ainda que não perdulário. O homem de pensamento ba­nal e superficial torna-se sincero e profundo, o homem indolente torna-se ativo e trabalhador.

3. Resultados no trabalho do crente para Cris­to.

O Espírito Santo no crente põe-no abnegadamente ao serviço de Deus e dos homens. O fogo faz sentir a sua presença pela luz e pelo calor, assim também o amor de Deus no crente se manifesta pela luz e pela in­tensidade de simpatia que transmite a todas as criaturas de Deus, mui especialmente à raça humana. Torna-se tão bem disposto para o serviço e tão otimista, que não desespera de instituição alguma nem de indivíduo algum.

Mas para, isso é necessário que o crente se deixe dirigir pelo Espírito quanto à qualidade de seu trabalho e quanto ao seu campo de ação, pois o Espírito é como afirma Paulo, que “reparte particularmente a cada um como quer”, (I Cor. 12:11). Não tentar abrir por­tas, mas tão somente entrar pelas portas que o mesmo Espírito abra. Jesus é o grande Capitão na campanha, por intermédio de seu Espírito. Ele sabe o que cada um dos seus servos pode fazer e onde deve operar. Ele re­parte a cada um como quer. Ele escolhe um Pedro para abrir a porta aos gentios, escolhe um Paulo para passar por essa porta, escolhe o filho de um mineiro para aba­lar a Europa, um sapateiro para despertar o zelo pelas missões estrangeiras; um Jorge Müller para convencer o mundo de que Deus existe e que atende às orações do seu povo, etc.

Oh, que Deus seja servido abençoar este nosso hu­milde esforço para despertar o seu povo entre nós.

Espírito divino! Consolador!

Seja-me o astro que as trevas dissipem;

Sê-me o guia e da vida o diretor;

Ajuda-me a chegar à mansão celeste;

Dá-me poder para a vida e morte.

———————- 1947 ———————–

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