A conflagração romana e a perseguição sob o império de Nero.

A conflagração romana e a perseguição sob o império de Nero.

A grande tribulação (Mt 24.21).

“Então, vi a mulher embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus; e, quando a vi, admirei-me com grande espanto” (Ap 17.6).

Paulo e Pedro pregaram em Roma, e suas pregações deram grande impulso ao crescimento do cristianismo.

O martírio que sofreram, no final, trouxe resultados para na igreja, pois cimentou a união entre judeus e gentios convertidos, e consagrou para Deus o solo da metrópole pagã. Jerusalém crucificara o Senhor, e Roma decapitava e crucificava os chefes apostólicos mergulhando a igreja de Roma num batismo de sangue. Roma se tornou, por bem ou mal, a Jerusalém do cristianismo; e o monte do Vaticano o Gólgota do Ocidente. Pedro e Paulo, à semelhança de Rômulo e Remo assentaram o fundamento de um império espiritual maior e mais duradouro que o império dos césares. A cruz foi substituída pela espada como símbolo de conquista e poder. [1]

A mudança, todavia resultou no sacrifício de sangue precioso. O império romano, primeiramente, por suas leis e justiça se tornou a protetora do cristianismo, sem saber de seu verdadeiro caráter, e saiu em defesa de Paulo em várias ocasiões, como em Corinto através do procônsul Gálio, em Jerusalém através do capitão Cláudio Lísias e em Cesaréia foi ajudado pelo procurador Festo. Mas, agora, apressava-se em direção a um conflito mortal com a nova religião, e em nome da idolatria e patriotismo começou uma série de intermitente perseguição, que terminou, por fim, no triunfo da bandeira da cruz na ponte Milvian. Antes, um poder restritivo que mantinha afastado o surgimento do anticristo, [2] assumiu, depois o papel de anticristo pela espada e pelo fogo. [3]

NERO.

A primeira dessas perseguições imperiais resultou no martírio de Pedro e Paulo conforme a tradição eclesiástica teve lugar no décimo ano do reinado de Nero, 64. d. C. e, a perseguição pela veio por Nero, o mesmo imperador a quem Paulo recorreu, como cidadão romano num tribunal judaico.

No entanto, não era apenas uma perseguição religiosa, como outras perseguições feitas por Nero; sua origem está na calamidade pública da administração romana em que os cristãos foram culpados por tudo o que de ruim acontecia em Roma.

Não se consegue imaginar o contraste enorme entre um Paulo, puro e nobre e Nero, um dos maiores vilões e tiranos de todas as eras. Os cinco primeiros anos do reinado de Nero (54-59) foram sob a orientação sábia de Sêneca e Burro e contrastam enormemente com os outros nove anos de seu reinado (59-68). Lemos sobre a vida de Nero com uma mistura de sentimentos, bons e maus, por haver terminado seu governo num reino de horrores e de iniquidade. Para o imperador, o mundo era uma comédia e uma tragédia em que ele era o ator principal. Ele possuía uma insana paixão por aplausos do povo; dedilhava a lira e entoava seus odes durante o jantar. Guiava sua carruagem nos circos, era imitado nos palcos e exigia que os homens do mais alto escalão o representassem em dramas ou em apresentações obscenas da mitologia grega.

Mas a comedia superou a tragédia. Cometeu crimes e mais crimes até que seu nome se tornou sinônimo de monstro e iniquidade. O assassinato de seu irmão Britânico; de sua mãe, Agripina, suas esposas Otávia e Pompéia, de seu mestre Sêneca e de muitos romanos eminentes terminou com seu próprio suicídio aos trinta e dois anos de idade. Com ele pereceu toda a dinastia de Júlio César, e o império se tornou um troféu a ser perseguido por seus soldados e aventureiros. [4]

A conflagração em Roma

Para esse demônio em forma humana, o assassinato de uma multidão de inocentes cristãos não passava de um esporte, de um passatempo. O espetáculo infernal dói num tempo de grande conflagração de Roma, a mais destrutiva e desastrosa a ocorrer em toda a história romana.

O inferno ocorreu na noite entre o dia dezoito e dezenove de julho, [5]entre as lojas de madeira na parte sudoeste, junto ao grande circo, próximo da montanha Paladina. [6]

As labaredas de fogo levadas pelo vento não puderam ser controlada pela brigada anti-incêndio nem pelos soldados, e ficou queimando sete noites e seis dias. [7] E o fogo recomeçou em outra parte da cidade, próximo ao campo de Marte e em três dias devastou dois outros distritos da cidade. [8] Os prejuízos eram incalculáveis. Somente quatro das 14 regiões em que a cidade era dividida permaneceu incólume. Três áreas tornaram-se apenas ruínas, do interior do grande circo até o monte Esquilino. As sete áreas restantes ficaram mais ou menos destruídas. Templos veneráveis, edifícios monumentais do governo, desde a República até o Império, as grandes obras da arte grega que haviam sido coletadas durante séculos ficaram em cinzas e poeira. Homens e animais pereceram nas chamas, e a metrópole do mundo assumiu uma aparência de túmulo com milhões de pessoas se lamentando pela perda irreparável de seus tesouros.

Esta terrível catástrofe deveria estar na mente de São João no Apocalipse quando escreveu o funeral e queda da Roma imperial (Ap 18).

A causa dessa conflagração permanece envolvida em mistério. Havia rumores entre o povo de que Nero pusera fogo na cidade, que queria se alegrar com o espetáculo de uma Troia em fogo, e para satisfazer sua ambição de reconstruir Roma numa escala monumental e chamá-la de Nerópole. [9]

Quando o fogo irrompeu pela primeira vez Nero estava nas praias de Antio, lugar de seu nascimento. Ele retornou quando o fogo estava devorando seu palácio; fez enorme esforço para permanecer ali e reconstruir o que restara até sua morte. Mas, não esqueceu de reconstruir sua residência temporária antes de morrer, (domus transitoria) chamando de “Casa de ouro” (domus aurea), como marco de sua obra magnificente e extravagante.

Perseguição aos cristãos

Para evitar a suspeita geral de que era um incendiário, e ao mesmo tempo querendo divertir o povo com sua diabólica crueldade, Nero colocou a culpa do incêndio de Roma sobre os cristãos, pois, desde a época do julgamento público de Paulo e de seu incansável trabalho em Roma, Paulo era diferenciado dos judeus como o genus tertium, ou como o mais perigoso rebento da raça judaica. Certamente, os cristãos desprezavam os deuses romanos e eram leais a um rei mais elevado que César, por isso, eram falsamente acusados de crimes cometidos em secreto. A polícia e o povo, sob a influência do pânico terrível causado pela calamidade estavam dispostos a crer em qualquer coisa e procuravam por culpados.

Que esperar de uma multidão ignorante, quando até mesmo os mais cultos romanos como Tácito, Suetônio e Plínio, estigmatizavam os cristãos como vulgares e pestilentos supersticiosos?

Para os romanos o cristianismo era pior que o judaísmo, porque o judaísmo, pelo menos era uma religião antiga, enquanto o cristianismo era algo novo, separado de qualquer nacionalidade em particular e buscava um domínio universal. Alguns cristãos foram presos, confessavam sua fé e “eram tão convictos”, afirma Tácito, “nem tanto pelo crime de incendiários como também de odiar a raça humana”. Sua origem judaica, sua indiferença pela política e assuntos públicos, seu desprezo aos costumes pagãos, culminaram num “odium generis humani,“, e por isso tentaram destruir a cidade, uma prova plausível, o suficiente para justificar um veredito de culpa. Uma multidão furiosa não para pra pensar e arrazoar e tem a tendência de cometer asneiras.

Acusados de incendiários, apoiados por uma falsa acusação de misantropia e vícios impróprios, deram início a um festival de sangue, que até mesmo os romanos pagãos nunca haviam presenciado. [10] Era a resposta dos poderes do inferno à poderosa pregação de dois apóstolos que haviam sacudido o centro do paganismo. “Uma grande multidão” de cristãos foi morta de maneira chocante. Alguns foram crucificados, provavelmente como zombaria a punição sofrida por Cristo, [11] outros foram colocados dentro de peles de animais selvagens e expostos à voracidade das feras da arena.

A estratégia satânica alcançou seu clímax durante a noite nos jardins imperais na colina do Vaticano (que abarcava, supõe-se, o lugar onde hoje está a igreja de São Pedro): Homens e mulheres, cristãos, cobertos de piche, óleo ou resina foram pregados em postes de madeira, ateados fogo e queimaram como tochas para divertimento da multidão, enquanto Nero, vestido de realeza, apareceu montado num cavalo de raça e demonstrava sua habilidade artística como cavaleiro. Queimar as pessoas vivas era a punição que mereciam os incendiários, mas apenas a engenhosidade deste monstro cruel, sob a inspiração do diabo poderia inventar tão terrível sistema de iluminação pública.

Este é o registro dos maiores historiadores pagãos, os mais completos que existem – assim como a melhor descrição da destruição de Jerusalém vinda da pena de sábios escritores judeus. Desta forma, os próprios inimigos foram testemunhas da verdade do cristianismo. Tácito, incidentalmente menciona neste contexto a crucifixão de Cristo sob Pôncio Pilatos, durante o reinado de Tibério. Com o desprezo que este romano tinha pelos cristãos a quem conhecia apenas por rumores e leituras, Tácito se convenceu da inocência deles de que eram os culpados pelo incêndio de Roma. Apesar de frio estoicismo, não pôde reprimir o sentimento de piedade por eles, porque foram sacrificados não pelo bem do povo, mas pela ferocidade de um tirano perverso.

Alguns historiadores duvidam não da terrível perseguição, mas de que os cristãos e não os judeus ou os cristãos sozinhos foram os que sofreram. É difícil entender que inocentes cristãos, que escritores contemporâneos como Sêneca, Plínio, Lucas e Pérsio ignoram, enquanto têm conhecimento dos judeus, poderiam ser tão repentinamente os elementos de tanta indignação popular. Supõe-se que Tácito e Suetônio, que escreveram cerca de cinquenta anos depois dos acontecimentos, poderiam ter confundido os cristãos com os judeus, que eram repudiados pelos romanos e justificaram a suspeita de serem os judeus os incendiários, pelo fato de que o distrito onde residiam não pegou fogo.[12]

Mas, a atrocidade era pública e não deixa margem para erros. Tanto Tácito quando Suetônio distinguem bem as duas religiões, apesar de conhecerem tão pouco sobre eles, sabiam que os cristãos eram assim chamados por serem seguidores de Cristo, a nova religião. Além de que, Nero, conforme foi observado anteriormente não tinha aversão pelos judeus, e sua segunda esposa Pompeia Sabina, um ano antes da conflagração, havia demonstrado apreço especial em favor de Josefo e o encheu de presentes. Josefo fala dos crimes de Nero, mas nada diz sobre qualquer perseguição aos seus irmãos judeus. [13] Este fato, isoladamente pode ser conclusivo. Não é de se duvidar que neste episódio (como nas perseguições anteriores e depois), os fanáticos judeus, enraivecidos pelo rápido crescimento do cristianismo, ansiosos de se livrarem de suspeitas, levantaram a turba contra os odiados galileus, e que os pagãos romanos caíram com redobrada fúria sobre esses supostos meio-judeus, levados por seus irmãos estranhos. [14]

A extensão provável da perseguição

Os historiadores pagãos, se os julgarmos por seu silêncio, parecem confinar a perseguição à cidade de Roma, mas escritores cristãos tempos depois ampliam-na para as províncias. [15]

O exemplo dado pelo imperador na capital não deixaria de influenciar as províncias, e seria a justificativa para o levante do ódio popular. Se o Apocalipse foi escrito na época de Nero, ou logo após sua morte, o exílio de João em Patmos deve estar ligado a esta perseguição. O Apocalipse menciona os irmãos presos em Esmirna, o martírio de Antipas e fala do assassinato dos profetas e santos e de todos os que foram mortos na terra. [16]

A epístola aos hebreus 10.32-34, que foi escrita na Itália, provavelmente no ano 64 também faz alusão à perseguição sangrenta, e a soltura de Timóteo da prisão (13.23). E Pedro em sua primeira epístola, que pode ser datada no mesmo ano, imediatamente depois que a perseguição começou, e pouco antes de sua morte, alerta os cristãos da Ásia Menor do fogo da perseguição (tribulação) que virá sobre eles e dos sofrimentos que já enfrentaram ou suportaram, não por terem cometido crimes, mas pelo bom nome dos cristãos.[17]

O cristianismo que acabara de alcançar a idade de seu fundador, parecia aniquilado em Roma. Com a morte de Pedro e Paulo a primeira geração de crentes foi sepultada. As trevas devem ter caído sobre os discípulos temerosos e a prepotência do poder deve tê-los afundado no pó como na noite da crucificação trinta e quatro anos atrás.

Mas, a manhã da ressurreição não estava distante, e o ponto onde Pedro foi martirizado se tornaria o local da maior igreja do cristianismo e a residência de seus sucessores. [18]

O Apocalipse resultante da perseguição de Nero

Nenhum dos apóstolos permaneceu vivo para registrar o terrível massacre, a não ser João. Ele deve ter recebido notícias dessa perseguição em Éfeso ou deve ter acompanhado Pedro a Roma e escapado da terrível morte nos jardins de Nero, se dermos crédito à tradição antiga de que ele foi miraculosamente preservado de ser queimado vivo com os demais cristãos naquela infernal iluminação sobre o monte do Vaticano. [19] De qualquer maneira ele também foi vítima da perseguição pelo Nome de Jesus e descreve o horror do que teria visto no exílio na isolada ilha de Patmos na visão do Apocalipse.

Este livro misterioso – tenha ele sido escrito entre os anos 68 e 69 ou sob o reino de Domiciano em 95 – foi sem dúvida escrito para a igreja daquela época e também para as gerações futuras, e deve ter sido adaptado às condições em que viviam os cristãos sob o domínio romano, fornecendo conforto substancial aos cristãos em tempos de perseguição. Devido a proximidade desses eventos, os cristãos daqueles dias devem ter entendido claramente seu conteúdo, diferentemente das gerações posteriores. João firma seu ponto de vista na fundação histórica do velho império romano no qual ele vivera, da mesma maneira como os profetas de Israel baseavam suas profecias a partir da visão que tinham do reino de Davi e do cativeiro da Babilônia. João descreve a Roma pagã daqueles dias como “a besta que sobe do abismo” e “como a besta que emerge do mar, tendo dez chifres e sete cabeças (reis e imperadores), e a descreve também como a grande meretriz que se assenta sobre muitas águas”.

Descreve Roma “como uma mulher vestida de escarlate, cheia de nomes de blasfêmia, tendo sete cabeças e dez chifres”. Esta é a “Babilônia, a grande, a mãe de todas as meretrizes e das abominações da terra”. [20] O vidente deve ter em mente a perseguição de Nero, a mais cruel de todas as perseguições, quando ele viu a mulher “embriagada com o sangue dos santos e dos mártires de Jesus” [21], e profetizou sua queda como de grande alegria para “os santos, apóstolos e profetas”. [22]

Comentaristas mais recentes encontram uma alusão direta a Nero, como expressada em letras hebraicas (Neron Kesar), o número misterioso 666 sendo este a quinta das sete cabeças da besta que foi esmagada, mas que retornaria novamente do abismo na forma de anticristo. Mas, esta interpretação pode não estar correta, e em nenhum caso pode-se atribuir a João a crença de que Nero se ergueria literalmente dos mortos como o anticristo. Ele quis dizer que Nero, o perseguidor da igreja era (como Antíoco Epifânio), o precursor do anticristo que seria inspirado pelo mesmo espírito sanguinário das profundezas do inferno. Num sentido similar Roma era uma segunda Babilônia, e João Batista outro Elias.

Notas

  1. Os registros da perseguição de Nero. 
  2. A) Registros de historiadores pagãos.

Existem praticamente dois registros da primeira grande perseguição imperial. O registro feito por Tácito, que nasceu cerca de oito anos antes do evento e possivelmente tenha vivido até o tempo de Trajano (morto em 117), e de Suetônio que escreveu sua obra XII. Caesares um pouco mais tarde, cerca de 120 d. C. Dion Cassio, nascido cerca de 155 d. C. em sua História de Roma. A descrição de Tácito em seu estilo gráfico e longe de ser suspeito de interpolações deixa alguns pontos obscuros. Aqui está o registro do que ele fez em Anais, XV. 44.

“Nem seus melhores homens, tão pouco nos limites do império, nem a propiciação feita aos deuses poderia desculpar Nero da infâmia de haver ordenado a conflagração. Por isso, na tentativa de parar com os rumores e de se livrar da culpa, Nero acusou e puniu pessoas com as piores torturas; pessoas que passaram a ser odiadas por seus crimes, comumente chamadas de cristãos (subdidit reos, et quaesitissimis poenis affecit, quos per flagitia invisos vulgus ’Christianos’ appellabat). O fundador desse nome, Cristus foi condenado à morte (supplicio affectus erat) pelo procurador da Judeia Pôncio Pilatos, durante o reinado de Tibério, mas a superstição perniciosa (exitiabilis superstitio), reprimida por algum tempo, rompeu outra vez, não apenas na Judeia, a fonte do mal, mas também na cidade de Roma, onde todo tipo de vileza e vergonha surge de todos os quarteirões, e são encorajados (quo cuncta undique atrocia aut pudenda confluunt celebranturque).”

Conforme Tácito, “primeiramente foram presos os que confessavam a Cristo. [23] Depois, conforme a informação uma vasta multidão (multitudo ingens), foram condenados não tanto pelo crime de incendiar Roma, mas como pessoas que odiavam a raça humana (odio humani generis). [24] Morriam para divertir seus acusadores, pois este tipo de morte era praticado como um esporte. Os cristãos foram costurados dentro de peles de animais ferozes e devorados em pedaços pelos cães ou crucificados, presos em postes e incendiados, e quando anoitecia era queimados vivos para iluminar a cidade (in usum nocturni luminis urerentur). Nero ofereceu seus jardins – onde hoje está o Vaticano – para este espetáculo e também desfilava numa carruagem de corrida nesta ocasião, vestido com roupas de condutor de carruagem, segurando os cavalos pelas rédeas.”

“Assim, as pessoas começaram a mostrar compaixão pelo sofrimento dos cristãos, apesar de serem odiados, porque notaram que de nada servia ao povo o espetáculo, mas sim, o fato de que eram vítimas da ferocidade de um homem”. Os registros de Suetonio, em Nero c. 16 são curtos e deixam a desejar.  Afflicti suppliciis Christiani, genus hominum superstitionis novae ac maleficaea. Suetônio não liga a perseguição com a conflagração, mas com as leis policiais. Juvenal, o poeta satírico menciona a perseguição, provavelmente como testemunha ocular, à semelhança de Tácito com o sentimento existente de compaixão pelo sofrimento dos cristãos” (Satiricon, I, 155).

“Falas da culpa de Tigelinio?

Também tu brilharás como aqueles que vimos

Pendurados nas estacas com as gargantas cortadas

“Queimando e soltando fumaça.”

  1. B) Registros de cristãos.

Clemente de Roma, quase no final do primeiro século poderia estar se referindo a perseguição dos dias de Nero quando escreve da “grande multidão de eleitos”, que sofreu torturas indignas como vítimas de ciúmes, e das “mulheres cristãs que eram obrigadas a representar “Danaides” e “Dirces”, Ad Corinth., c. 6. Eu não usei esta passagem no texto. (N. T. Mulheres da mitologia grega).

Renan acrescenta e costura todo seu enredo numa descrição gráfica da perseguição (L’Antechrist, pp. 163 ss., repetida quase que literalmente em sua obra Hibbert Lectures). Conforme a lenda, Dirce foi amarrada no dorso de um touro feroz e lançada à morte. A cena está representada nas famosas obras em mármore no museu de Nápoles. Agora, quanto a Danaides ela não fornece um paralelo adequado aos mártires cristãos, a menos, conforme Renan sugere, que Nero tivesse em mente os sofrimentos do Tártaro. Tertulliano (morto ao redor de 220 d. C.) menciona a perseguição nos dias de Nero em Ad Nationes, I. ch. 7: “O nome que cristãos começou a ser conhecido no reinado de Augusto; no reino de Tibério já era ensinado com clareza e publicidade. Sob o reinado de Nero o nome foi desarraigado e condenado (sub Nerone damnatio invaluit), e pode-se pesar seu valor pelo caráter do perseguidor. Se aquele imperador fosse um homem pio, então os cristãos eram perigosos. Se Nero era justo, se fosse puro, então os cristãos eram injustos e impuros. Se Nero não fosse um inimigo do povo, seríamos então inimigos de nosso país: Que tipo de pessoas somos que nosso perseguidor, ele mesmo, puniu os que o hostilizavam? Agora, sendo que todas as demais instituições que existiam no governo de Nero foram destruídas, mas, a nossa permaneceu, – então, comprova que éramos justos, devido as atrocidades do autor das perseguições”.

Suplício Severo em Chron. II. 28, 29, fornece um registro completo, retirado em sua maior parte dos escritos de Tácito. Ele e Orosio (Hist. VII. 7) atestam sem exagero que Nero estendeu a perseguição a todas as províncias romanas.

O retorno de Nero como Anticristo

Nero, devido a sua juventude, beleza e prodigalidade, e a aberrante novela de sua iniquidade (Tácito o chama de “incredibilium cupitor, Anais XV. 42), obteve muita popularidade com a democracia de Roma. Assim, depois de seu suicídio, espalhou-se um rumor de que ele não morrera, mas que fugira para a Pérsia e que retornaria a Roma com um grande exército para destruir a cidade. Três impostores com o nome Nero usaram essa crendice e tiveram apoio durante o reinado de Oto, Tito e Domiciano. Trinta anos depois, Domiciano tremia à menção do nome de Nero. Tacito., Hist. I. 2; II. 8, 9; Suetonio., Ner. 57; Dio Cassio, LXIV. 9; Schiller, l.c., p. 288.

Entre os cristãos esses rumores assumiram proporções hostis a Nero. Lactanio (De Mort. Persecut., c. 2) menciona as profecias sibilinas afirmando que, assim como Nero era o primeiro perseguidor, ele seria também o ultimo e precederia o advento do anticristo. (De Civil. Dei, XX. 19) menciona que durante este tempo duas opiniões eram comuns na igreja a respeito de Nero. Alguns achavam que ele se ergueria de entre os mortos como o anticristo, e outros de que ele não morrera, mas que se retirara para ser revelado para restaurar o seu reino. A primeira hipótese era a mantida pelos cristãos, a segunda pelos pagãos. Agostinho rejeitava ambas opiniões. Sulpício Severo (Chron., II. 29) também menciona a crença (unde creditur) de que Nero fora curado de seus ferimentos, e que retornaria no fim do mundo para se tornar o “mistério da iniquidade” predito por Paulo (2 Ts 2.7).

A revolta dos judeus e a destruição de Jerusalém (70 d. C.).

“Ao sair Jesus do templo, disse-lhe um de seus discípulos: Mestre! Que pedras, que construções! Mas Jesus lhe disse: Vês estas grandes construções? Não ficará pedra sobre pedra, que não seja derribada” (Mc 13.1-2).

Fontes:

Josepho: Bell. Jud., in 7 books; and Vita, c. 4–74. A história da Guerra judaica foi escrita por ele como testemunha ocular cerca de 75 d. C.

Tradições rabínicas em Derenbourg: Histoire de la Palestine depuis Cyrus jusqu’à Adrien. Paris, 1867 (primeira parte de sua L’Histoire et la géographie de la Palestine d’après les Thalmuds et les autres sources rabbiniques), pp. 255–295.

Tácito: Hist., II. 4; V. 1–13. Um mero fragmento, repleto de erros e insultos sobre os judeus expulsos de Roma. O quinto livro, exceto este fragmento foi perdido. Enquanto o judeu Josefo admira plenamente o poder e a grandeza de Roma, Tácito, o pagão, trata os judeus e cristãos com ironia e escárnio, e prefere tomar as fontes de suas informações dos egípcios hostis e preconceitos popular do que das Escrituras, não como Filo e Josefo.

São escassos os períodos da história tão cheios de vícios, corrupção e desastres como os seis anos entre a feroz perseguição de Nero aos cristãos e a destruição de Jerusalém. A descrição profética dos últimos dias feitas por nosso Senhor começou a ser cumprida diante da geração a quem ele se dirigiu, “essa geração não passará”, e o dia do juízo parecia haver chegado. Os cristãos criam dessa forma e com razão. Até mesmo para os ímpios pagãos aquele período era de escuridão noturna. Sempre citamos a descrição de Sêneca da terrível depravação moral e queda do reino de Nero com essas palavras: “Continuo a descrever a riqueza dos desastres, cheias de batalhas e de atrocidades, de discórdia e de rebelião, sim, terrível tempo para se obter a paz.

Quatro príncipes [Galba, Oto, Vitélio, Domiciano] foram mortos à espada. Três guerras civis, várias guerras contra os estrangeiros, e algumas dessas guerras eram terríveis. Eventos favoráveis no Leste [a subjugação dos judeus], e infelizmente algumas guerras no Oeste. Ilírico perturbado; a Gália inquieta; a Britânia conquistada e depois perdida; as nações da Samotrácia e Suevia levantando-se contra nós. Os persas exultantes pela decepção do falso Nero. A Itália sofrendo as consequências da seca e das frequentes calamidades. Cidades engolidas, queimadas em ruínas. Roma está devastada pelas conflagrações; os velhos templos queimados, até mesmo o capitólio foi incendiado pelos cidadãos; santuários violados e o adultério correndo solto nas esferas políticas mais altas. O mar cheio de exilados. As ilhas rochosas contaminadas pelos assassinatos. Pior ainda é a fúria na cidade. Nobres, ricos, pessoas de honra, marcadas pelos crimes, pela falta de virtude e destruição” (Hist. I c.2).

O juízo iminente.

O mais desafortunado país desse período era a Palestina, onde uma nação antiga e venerável trouxe sobre si mesma, sofrimento e destruição indescritíveis. A tragédia de Jerusalém prefigura em miniatura o juízo final, e em sua luz vemos representado discurso escatológico de Cristo que previu o fim do começo. A paciência de Deus com o povo da aliança que crucificou nosso Senhor atingiu seu ápice. Muitos se salvaram de maneira especial, mas a massa do povo obstinadamente achou que poderia improvisar. Tiago, o Justo, o homem capaz de reconciliar judeus com os cristãos foi apedrejado por seus compatriotas de coração endurecido, exatamente as pessoas por quem ele intercedia diariamente no templo, e, com ele a comunidade cristã de Jerusalém havia perdido a importância que representava para a cidade. A hora da “grande tribulação” e o medo do juízo se aproximava. A profecia do Senhor se cumpriu literalmente: Jerusalém foi arrasada, seu templo queimado, e não ficou pedra sobre pedra do templo (Mt 24.1-2; Mc 13.1; Lc 19.43-44; 21.6).

Bem antes da rebelião e da guerra judaica, sete anos antes do cerco a Jerusalém (63 d. C.), um campesino de nome Josué, ou Jesus apareceu na cidade e pelas ruas da cidade proclamava noite e dia: ‘Uma voz grita pela manhã, uma voz clama pela noite! Uma voz vem dos quatro ventos! Uma voz de chuvas contra Jerusalém e seu templo! É a voz contra os noivos e as noivas. Voz contra todo o povo! Ai, ai de Jerusalém!’. “Os magistrados petrificados diante de tais palavras, tomaram o profeta como um agente do mal e o açoitaram. Ele não demonstrou nenhuma resistência e continuou a gritar: “Ai”. Levado diante do procurador Abilno foi açoitado até que seus ossos fossem expostos, mas não se defendeu; nem amaldiçoou seus inimigos, e simplesmente exclamava a cada chicotada “Ai, ai de Jerusalém!”.

Diante do governador para onde foi levado, ficou calado e não respondeu nada do que o governador lhe perguntou. Finalmente, deixaram-no ir como um maltrapilho. Mas, ele continuou a clamar por sete anos e cinco meses até que se rompeu a guerra, especialmente clamava durante as três grandes festas, anunciando a chegada da queda de Jerusalém. Durante o cerco daqueles dias ele cantava, junto aos muros seus cânticos de lamentações pela última vez. De repente, gritou: Ai, ai de mim! e, uma pedra lançada pelos romanos atingiu sua cabeça pondo fim a sua lamentação profética. [25]

A rebelião judaica

Sob os últimos governadores da Judéia, Félix, Festo, Albino e Floro a corrupção moral e a dissolução de todos os laços sociais, aliados a opressão e ao jugo romano aumentou a cada ano. Depois que Félix se tornou governador, assassinos, chamados de “sicários” (palavra derivada de sica adaga), portando adagas e cometendo crimes trouxeram perigo na cidade e no campo marchando por toda a Palestina. Além disso, os judeus de espírito abatido, movidos de ódio por causa dos opressores pagãos, tomaram o caminho da insolência política, do fanatismo religioso e foram inflamados por falsos profetas e Messias, um deles, por exemplo, conforme Josefo conseguiu um exército de trinta mil homens. Assim, cumpriu-se a profecia de nosso Senhor: “Levantar-se-ão falsos Cristos e falsos profetas que enganarão a muitos”. Finalmente, no mês de maio do ano 66, sob o reinado do último procurador, Gessio Floro (a partir do ano 65), tirano iníquo e cruel, a quem Josefo diz que, posto como algoz dos que praticavam o mal; uma rebelião organizada se rompeu contra os romanos, mas ao mesmo tempo uma terrível guerra civil irrompeu entre os diferentes partidos dos próprios revoltados, especialmente dos zelotes e moderados, radicais e conservadores.

O partido furioso dos zelotes tinha todo o fogo e energia próprios daquilo que o fanatismo religioso poderia inspirar. Recentemente alguém os comparou aos revolucionários montagnards franceses. À medida em que a guerra avançava os zelotes começaram a dominar, controlaram a cidade e o templo e introduziram um reino de terror. Mantinham acesa a chama da esperança messiânica e viam na destruição o caminho da libertação. Notícias de cometas, meteoros e todo tipo de sinais e prodígios eram interpretados como sinais do Messias e de seu reinado sobre os pagãos. Os romanos reconheceram em Vespasiano e Tito os seus Messias. Desafiar Roma naquela época, sem sequer um aliado, era como desafiar o mundo com as armas. Mas, o fanatismo religioso, inspirado pela lembrança das conquistas feitas pelos macabeus cegou os judeus e eles não viram o inevitável fracasso dessa terrível e desesperada revolta.

A invasão romana

Nero, ao saber da rebelião enviou se melhor general, Vespasiano, com um grande exército para a Palestina. Vespasiano começou sua campanha no ano 67 a partir do porto sírio de Ptolemaico (Acco), e enfrentando dura resistência avançou pela Galileia com um exército de sessenta mil homens. Mas, eventos ocorridos em Roma o impediram de conquistar a vitória e foi solicitado a retornar imediatamente. Nero havia se suicidado. Os imperadores Galba, Oto e Vitélio sucederam a Nero um após o outro em rápidas sucessões. Vitélio foi levado de um canil de Roma totalmente bêbado, arrastado pelas ruas e vergonhosamente morto. Vespasiano, no ano 69 foi proclamado imperador universal e restaurou a ordem e a prosperidade.

Tito, seu filho, que dez anos depois se tornaria imperador, altamente reconhecido por sua gentileza e filantropia [26] assumiu a liderança da guerra contra os judeus, e se tornou um instrumento nas mãos de Deus para destruir a cidade santa e o templo. Seu exército tinha nada menos que oitenta mil soldados bem treinados, e se acampou no Monte Scopo ao lado do Monte das Oliveiras, tendo diante de si um panorama da cidade e do templo, que eram magníficos olhando-se daquele ponto. O vale do Cedrom separava o exército de Roma e a cidade de Jerusalém.

Em abril do ano 70 d. C., imediatamente depois da Páscoa, quando a cidade de Jerusalém estava repleta de peregrinos o cerco começou. Os zelotes rejeitaram quaisquer tentativas de acordo feitas por Tito e não deram ouvidos as súplicas de Josefo, que acompanhava Tito como intérprete e mediador, e eles ignoravam cada pessoa que falasse com eles em entregar as armas. Os zelotes fizeram investidas pelo vale do Cedrom e pelo sopé do monte infligindo grandes perdas entre as fileiras romanas. Quanto maior as dificuldades, mais coragem os zelotes ganhavam. A crucificação de centenas de prisioneiros (cerca de quinhentos por dia), apenas os encorajavam mais à batalha.

A fome tomou conta da cidade e milhares morriam de fome todos os dias, a ponto de uma mulher assar no forno seu próprio filho.[27] O choro das mães e dos bebês, com toda a miséria que os cercava, não fazia os zelotes desistirem. Não existe registro histórico de tão obstinada resistência diante de tão grande desespero e bravura sabendo da morte iminente. Os judeus lutavam não apenas para obter liberdade civil, vida, e dominar sua própria terra, mas por aquilo que se constituía na glória e orgulho nacional, e que dava sentido à sua história – sua religião, que mesmo diante desse estado caótico degenerativo infundia neles um poder de resistência quase sobre-humano.

A destruição da cidade e do templo

Finalmente, no mês de Julho a fortaleza de Antonia foi invadida durante a noite pegando os judeus de surpresa. Esta conquista aplainou o caminho para a destruição do templo onde a tragédia ocorreu. Os sacrifícios diários cessaram no dia 17 de julho, porque todos os judeus foram convocados para defender o local. O último e mais sangrento sacrifício no altar dos sacrifícios foi a morte de milhares de judeus que para lá acorreram. Conforme o historiador Josefo, Tito queria preservar aquela imponente obra de arquitetura, como troféu de sua vitória, e talvez por ser supersticioso e medroso. Quando as chamas ameaçavam alcançar o Santo dos Santos, Tito passou pelo meio do fogo e da fumaça, passando por cima de corpos mortos e vivos para apagar o fogo. [28]Mas, a destruição já estava determinada por um decreto superior. Seus próprios soldados estavam enfurecidos pela resistência judaica e ambicionavam pegar o ouro do templo, por isso, não puderam ser impedidos em sua fúria por destruição.

Primeiramente as salas anexas ao templo foram incendiadas. Então, surgiu um incêndio na Porta Formosa (Porta de Ouro). Quando as chamas se ergueram, os judeus gritaram em grande lamentação tentando apagar o fogo, agarrando-se na esperança messiânica, confiando na declaração de um falso profeta que afirmara que no meio da conflagração do templo, surgiria um sinal de libertação do povo de Deus. As legiões disputavam uns com os outros quem alimentaria ainda mais as chamas e o povo sentiu a força de sua ira agora extravasada. Logo, toda aquela estrutura prodigiosa estava ardendo em fogo iluminando os céus da cidade. O templo foi incendiado em dez de agosto do ano 70 d. C. no mesmo dia, em que a tradição judaica diz que o primeiro templo foi destruído por Nabucodonosor.  Josefo escreveu: “Ninguém tem ideia do que aconteceu em toda parte ao vir o templo em chamas. Os gritos de vitória e o júbilo dos soldados abafaram a lamentação do povo, agora, cercados por fogo e pela espada por toda a montanha e pela cidade. Dizem que os gritos podiam ser ouvidos na distante Peréia.

No entanto, a miséria era mais terrível que a desordem. O monte onde o templo estava edificado ardia em fogo, e até as estruturas do subsolo queimavam. O sangue derramado superava as chamas, e os que foram mortos superaram em número aqueles que os matavam. O chão onde fora construído o templo podia ser visto coberto de cadáveres, enquanto os soldados perseguiam os fugitivos. Os romanos levantaram suas águias na parte oriental do templo sobre o esqueleto que sobrara e queimaram oferendas aos seus deuses proclamando Tito como Imperador com muita alegria e júbilo. E assim cumpriu-se a profecia a respeito da desolação no lugar santo.  [29]

Jerusalém foi totalmente destruída. Somente três torres do palácio de Herodes – Hipico (ainda em pé) Fasael e Mariamne – juntamente com uma parte do muro ocidental foram deixados como monumentos da força da cidade conquistada. Aquela que era o centro da teocracia judaica e o berço da igreja cristã foi destruída. Dizem que até mesmo Tito, um pagão, declarou que Deus, por uma providência especial ajudou os romanos e expulsou os judeus para longe daquela fortaleza impenetrável. [30]

Flávio Josefo que viu a guerra do início ao fim, primeiramente como governador da Galileia e general do exército judaico e depois prisioneiro de Vespasiano até se tornar companheiro de Tito agindo como mediador entre os romanos e os judeus reconheceu neste trágico evento um juízo divino, e admitiu aos seus degenerados patrícios, a quem antes estava ligado: “Não hesito em afirmar o que me traz tanta dor: Creio que, se os romanos se demorassem em punir esses vilões, a cidade seria engolida pela terra ou desapareceria por um dilúvio ou ainda como Sodoma, consumida com fogo do céu. Sim, porque a geração que vivia ali era mais iníqua do que aquelas que os antecederam no passado. Por sua obstinação toda a nação se tornou em ruínas”. [31]

Assim, portanto, foi preciso que um dos melhores imperadores romanos executasse as ameaças do juízo de Deus, a ponto dos sábios judeus descreverem, mesmo sem muito conhecimento bíblico, que se tratava do cumprimento da profecia da divina missão de Jesus Cristo, cuja rejeição trouxe todo este infortúnio sobre aquela raça apóstata. A destruição de Jerusalém seria um tema valioso para algum cristão, pois foi chamado de “a luta mais sangrenta de toda história antiga”. [32] Mas agora não havia um Jeremias para entoar canções de lamentações sobre a cidade de Davi e de Salomão. O livro de Apocalipse, por certo, já deveria ter sido escrito e predisse que os pagãos “pisarão a cidade santa por quarenta e dois meses”. [33]

Um artista dos tempos modernos, Kaulbach, pintou este tema numa das grandes obras que está no museu de Berlim. Mostra o templo queimando e na parte da frente o sumo sacerdote suicidando-se com sua espada no peito; ao seu redor, cenas de pessoas se lamentando e sofrendo. Logo acima, os profetas antigos mostrando os oráculos que anunciavam este cumprimento. Logo abaixo, Tito, juntamente com o exército romano aparece como o executor da ordem divina. Mais embaixo, à esquerda, Assuero, a figura do judeu andarilho da lenda medieval, fugindo da fúria diante da morte iminente. Logo à direita, um grupo de cristãos partindo em paz da cena da destruição, e os filhos de Israel suplicando-lhes por proteção.

O destino dos sobreviventes e o triunfo de Roma.

Depois de um cerco de cinco meses toda a cidade estava nas mãos dos vitoriosos. O número de judeus mortos durante o cerco, incluindo aqueles que vieram do campo e se refugiaram na cidade, é exageradamente apresentado por Josefo como sendo de um milhão e cem mil pessoas. Onze mil pessoas morreram de fome depois do cerco. Noventa e sete mil judeus foram levados a cativeiro e vendidos como escravos ou enviados para trabalhar nas minas ou então foram sacrificados nos shows das guerras de gladiadores em Cesareia, Berito, Antioquia e outras cidades. Os homens mais musculosos, fortes e bonitos foram selecionados para desfilarem como cativos na cidade de Roma, e entre os chefes defensores e líderes da revolta estavam Simon  Bar-Giora e João de Giscala. [34]

Vespasiano e Tito celebraram juntamente a vitória, no ano 71. Não foram poupados gastos para a festa. Coroado com lauréis e vestido de roupas carmesins os dois conquistadores andaram vagarosamente em carruagens separadas até o templo do capitólio de Júpiter saudados pelos gritos do povo e da aristocracia romana. Marchavam precedidos dos soldados vestidos elegantemente e atrás deles setecentos cativos judeus. As imagens dos deuses e a mobília sagrada do templo – a mesa dos pães da proposição, o candelabro de sete lâmpadas, as trombetas que anunciavam o ano do jubileu, os incensários e os rolos sagrados da lei – foram apresentados na procissão e depositados no recém construído templo da Paz – exceção à Lei e a cortina cor púrpura do santuário que Vespasiano reservou para o seu palácio. [35]

Simon Bar-Giora foi lançado no despenhadeiro da Rocha Tarpeiana; João de Giscala foi condenado à prisão perpétua. Moedas foram cunhadas com a frase Judaea capta, Judaea devicta. Mas, nem Vespasiano ou Tito usaram o epíteto vitorioso Judaeus; eles desprezavam aqueles que perderam sua terra natal. Josefo viu o espetáculo pomposo da humilhação e da crucificação de sua nação e descreveu o espetáculo sem derramar uma lágrima. [36] Os cristãos ao olharem para aquela representação do templo e os cativos judeus passando pelo arco triunfal de Tito, que ainda está entre o Coliseu e o Foro ficaram pasmados diante do cumprimento da profecia divina.

A conquista da Palestina resultou na destruição da comunidade judaica. Vespasiano se apossou da terra como propriedade particular ou a distribuiu entre seus veteranos de guerra. O povo, depois de cinco anos de guerra ficou reduzido à escravidão e extrema pobreza, deixado sem um magistrado, sem governo, sem templo e sem país. A renovação da revolta sob o falso Messias Bar-Cocheba piorou as coisas trazendo mais destruição a Jerusalém e devastação da Palestina pelo exército de Adriano (132-135).

Mas, os judeus ainda tinham a lei e os profetas e a tradição sagrada nas quais se apegaram com tenacidade indestrutível até o dia de hoje, mantendo acesa a esperança de um futuro glorioso. Espalhados pelas nações da terra, recusando-se a misturar seu sangue com qualquer outra raça, habitando em comunidades diferentes, marcados como povo peculiar por seu estilo de vida em cada rito religioso. Pacientes, sóbrios e criativos, prósperos apesar da opressão, ridicularizados e com medo, roubados e mesmo assim ricos, massacrados, mas ressuscitando novamente, conseguiram sobreviver à perseguição por séculos e viverão ainda nos séculos vindouros. Os judeus são alvos da preocupação mundial – uma maravilha para o mundo.

Efeitos da destruição de Jerusalém sobre a igreja cristã

Os cristãos de Jerusalém, lembrando-se da advertência do Senhor abandonaram a cidade destinada ao juízo e fugiram para a cidade de Pela em Decápolis, do outro lado do Jordão, no norte da Peréia, onde o rei Herodes Agripa II perante o qual Paulo se apresentou lhes ofereceu asilo. Uma antiga tradição afirma que uma voz divina ou um anjo revelou aos seus líderes que deveriam fugir. [37] Ali no meio de um povo gentio, a igreja da circuncisão foi reedificada. Infelizmente pouco se sabe de sua história e estes nunca mais recuperaram sua antiga importância. Quando Jerusalém foi reedificada como uma cidade cristã, seu bispo foi elevado à dignidade de um dos quatro patriarcas do Oriente, mas foi um patriarcado de honra, não de poder, e sucumbiram pela mera sombra da invasão maometana.

A terrível catástrofe da destruição da teocracia judaica deve ter produzido uma profunda sensação entre os cristãos, mas, hoje não se tem ideia do que teria isso significado para eles. [38] Não resta dúvida que para os judeus foi uma grande calamidade, mas que trouxe grandes benefícios ao cristianismo. Não somente deu grande impulso à fé, mas foi um divisor de águas na relação entre os dois grupos religiosos, pois os separou para sempre.

 Obviamente que Paulo já fizera esta separação indireta entre o cristianismo universal e seu sistema de doutrinas. Mas, exteriormente ele sempre permitiu alguma acomodação com o judaísmo, e mais de uma vez visitou o templo de Jerusalém. Ele não queria que pensassem ser ele um revolucionário, nem antecipar o curso natural da história, deixando tudo nas mãos da Providência. [39] Mas, agora, a ruptura foi feita definitivamente pela ação tempestuosa da onipotência divina. Deus mesmo destruiu a casa, onde até a época morara, a mesma casa em que Jesus ensinou e onde os apóstolos haviam orado. Ele rejeitou seu povo peculiar devido a sua obstinação e rejeição ao Messias.

Deus destruiu a fábrica da teocracia mosaica, cujo sistema de adoração, por sua própria natureza estava associado exclusivamente com o primeiro tabernáculo e mais tarde com o templo. Procedendo assim Deus cortou as amarras que prendiam a igreja à economia judaica da velha aliança tendo Jerusalém como seu centro. A partir daí, os pagãos não poderiam mais associar os cristãos ao judaísmo, e sim tratá-los como uma nova religião, também peculiar. A destruição de Jerusalém, portanto, marca aquela crise momentânea na qual a igreja cristã como um todo se desprendeu totalmente da crisálida do judaísmo, amadureceu e se mostrou independente em autoridade e governo diante do mundo. [40]

Esta ruptura do judaísmo e seu formato religioso, contudo, não a separou da revelação do espírito do Antigo Testamento. A Igreja, agora, se tornou participante da herança de Israel. Os cristãos pareciam judeus genuínos, filhos espirituais de Abraão que, seguindo a lei corrente dos judeus e da religião mosaica, encontraram a Jesus que era o cumprimento da lei e dos profetas, o fruto perfeito da velha aliança e o germe vivo de uma nova. O começo e o princípio de uma nova criação moral. Esta foi a obra de João, o apóstolo da completude.

  1. T. Material extraído do capítulo VI Tomo I de Church History de Philip Schaff (pp. 206-240).

Sim, você tem permissão para usar desde que citando o nome do tradutor: João A. de Souza filho

[1] Lange sobre os Romanos, p. 29. “Enquanto a luz e as trevas do judaísmo estava centralizada em Jerusalém, a cidade teocrática de Deus (a cidade santa, a assassina dos profetas), assim era a Roma pagã, a metrópole humanitária do mundo, o centro de todos os elementos de luz e trevas prevalecente no mundo pagão. E assim, a Roma cristã se tornou o centro de todos os elementos vitais da luz e toda as trevas anticristãs da igreja cristã. Então, Roma, como Jerusalém, não apenas possui um sentido histórico significante, mas é o retrato universal da operação de todas as eras. Os cristãos de Roma, especialmente, se põem como luz para as nações, o qual se parece a um ídolo de força e magia àqueles que se submetem às suas leis”.

 

[2] Em e Ts 2.6-7 temos o retrato do império romano em que o imperador era seu supremo representante. Esta interpretação vem da era patrística (dos pais apostólicos) e alguns comentaristas modernos agora reconsideram esta interpretação. As seitas medievais e muitos escritores protestantes achavam que a grande apostasia era o papado e o impedimento da chegada da apostasia no império germânico. Enquanto os comentaristas, por vingança diziam que a apostasia era a Reforma protestante e o fator impeditivo da chegada da apostasia era o papado. Eu creio numa repetição do crescente cumprimento desta e de outras profecias com base histórica na era apostólica e do velho império romano.

[3] Está bem representado em Apocalipse 13-18 depois da perseguição de Nero.

[4] Compare o quadro histórico de Renan sobre Nero. Ele crê que não existe exemplo paralelo para este monstro e o chama de un esprit prodigieusement déclamatoire, une mauvaise nature, hypocrite, légère, vaniteuse; un composé incroyable d’intelligence fausse, de méchanceté profonde, d’égoïsme atroce et sournois, avee des raffinements inouïs de subtilité.”

[5] Tacito (Ann. XV. 41) fornece como data quarto decimo [ante] Kalendas Sextiles quo et Senones captam urbem inflammaverant. A data coincidia com a mesma em que Gálio incendiou Roma (Julho 19, ano 364 ou 453 anos antes), e era considerada um mau agouro. Ocorreu no décimo ano do reinado de Nero, i.é, a.D. 64 Eusébio em sua Crônica de maneira errada aponta o ano do incêndio como o ano 66.

[6] As arquibancadas do anfiteatro eram do comprimento de oito estádios, com acomodação para 150.000 mil pessoas.  Nero o reconstruiu para abrigar 250.000 e sob o governo de Vespasiano a capacidade foi aumentada para sentar 385.000 pessoas. O teatro era cercado por prédios de Madeira que abrigavam lojas (alguns judeus tinham lojas ali), astrólogos, prostitutas e toda sorte de divertimento. Nero era extravagante gastando muito para divertir o povo com Panem et Circenses, cf. palavras de Juvenal.

[7]Per sex dies septemque noctes,” Suetônio. Nero, 38 sex dies,”Tacit. Ann. XV. 4

[8] A duração de nove dias foi comprovada numa inscrição (Gruter, 61.3). O incêndio de Londres em 1666 durou apenas quarto dias e varreu uma area de 436 hectares. O incêndio de Chicago durou apenas trinta e seis horas, nos dias 8 e 9 de outubro de 1871, mas varreu quase toda a cidade (2.114 hectares), e destruiu 17.450 prédios e as casas de 98.500 pessoas.

[9] Tácito XV. 39: “Pervaserat rumor ipso tempore flagrantis urbis inisse eum domesticam scenam et cecinisse Troianum excedium.” Suetônio. c. 38: “Quasi offensus deformitate veterum aedificiorum et angustiis flexurisque vicorum [Nero]incendit Urbem Hoc incendium e turre Maecenatiana prospectans, laetusque flammae,’ut ajebat, ’pulchritudine,Ilii in illo suo scaenico habitu decantavit.” Ladrões e rufiões foram vistos espalhando labaredas pelos prédios, e quando presos afirmaram que obedeciam ordens. Plínio, o Velho, Xiphilinus, e o autor da tragédia Otávia, também acusaram Nero de incendiário.

[10] Não se sabe a data certa do massacre dos cristãos, Mosheim fixou a data em Novembro, Renan em Agosto do ano 64. Várias semanas ou até meses devem ter passado desde o incêndio da cidade. Se a data da crucificação de Pedro estiver correta deveria haver um intervalo de um ano desde a conflagração que teria sido em 19 de julho do ano 64 e o martírio de Pedro no dia 29 de junho.

[11]Crucibus affixi,”, diz Tácito. Isto poderia ser aplicável a Pedro, a quem o Senhor havia profetizado o tipo de morte (Jo 21.18-19). Tertuliano diz: “Romae Petrus passioni Dominicae adaequatur” (De Praescript. Haeret., c. 36; compare Adv. Marc., IV. 5; Scorpiace, 15). Conforme uma antiga tradição, a seu pedido, Pedro foi crucificado de cabeça para baixo, porque não era digno de morrer como foi o seu Senhor. Tal fato é primeiramente mencionado na Acta Pauli, c. 81, por Orígenes (in Eusébio. H. E., III. 1) e de maneira mais clara por Jerônimo (Catal. 1); mas, existem dúvidas se este tipo de crueldade era praticado ocasionalmente, ainda que tais crueldades eram, geralmente praticadas. (Veja Josefo, Bell. Jud., V. 11, 1). A tradição diz que a esposa de Pedro também foi martirizada, que foi incentivada pelo apóstolo enquanto seguia para o lugar de sua execução. Pedro a exortava a que se lembrasse do Senhor na cruz. Clemente de Alexandria, Strom. VII. 11, citado por Eusébio, H. E., III. 30. A execução de Paulo por decapitação indicava que fazia parte do processo legal e regular ou é mais provável que, pelo menos um ano depois, a perseguição de Nero era tão severa que nem mesmo os cidadãos romanos eram poupados.

[12] É o que escreveu Gibbon (ch. XVI.), e mais recentemente Merivale, l.c. ch. 54 (vol. VI. 220, 4a. ed.), e Schiller, l.c., pp. 434, 585, seguidos por Hausrath e Stahr. Merivale e Schiller creem que a perseguição foi dirigida aos judeus e aos cristãos indiscriminadamente. Guizot, Milman, Neander, Gieseler, Renan, Lightfoot, Wieseler, e Keim defendem ou creem como verdadeiro o que escreveram Tácito e Suetônio.

[13] Antologia XX. 8, 2, 3.

[14] Essa é a posição de Ewald. VI. 627, e de Renan, L’Antechist, pp. 159 ss. Renan ingenuamente  conjectura de que os judeus por “inveja” a Clemente de Roma (Ad Cor. 6) traçam a perseguição a essa divisão entre os judeus e os cristãos.

[15] Orosio (cerca do ano 400), Hist., VII. 7: “Primus Romae Christianos suppliciis et mortibus adferit [Nero],ac per omnes provincias pari persecutione excruciari imperavit.” Também Sulpício Severo, Chron. II. 29. Dodwell (Dissert. Cypr. XI., De Paucitate martyrum, Gibbon, Milman, Merivale, e Schiller (p. 438) negam este fato, mas, Ewald (VI. 627, em seu Comentário no Apocalipse) e  Renan (p. 183) decididamente afirmam que a perseguição se estendeu às Províncias do império.  “L’atrocité commandée par Néron,” diz Renan, “dut avor des contre-coups dans les provinces et y exciter une recrudescence de persécution.” C. L. Roth (Werke des Tacitus, VI. 117) e Wieseler (Christenverfolgungen der Cäsaren, p. 11) assume que Nero condenou e proibiu o cristianismo como perigoso para o Estado. Kiessling e De Rossi encontraram uma inscrição em Pompéia que fala da perseguição sangrenta.

[16] Veja Ap 2.9, 10, 13; 16.6; 17.6; 18.24.

[17] 1 Pe 2.12, 19, 20; 3.14-18; 4.12-19.

[18] “Os pesquisadores”, afirma Gibbon (Capítulo XVI), “que possuem um olho nas revoluções da humanidade podem observar que os jardins e circos de Nero no Vaticano, poluídos com o sangue dos primeiros cristãos, foram contemplados pelo triunfo e abuso da religião perseguida. No mesmo ponto, um templo foi erigido pelos cristãos que sobrepuja as glórias antigas da capital, que, por si mesmo proclama o domínio de um simples pescador da Galileia, estabelecendo leis aos bárbaros romanos e estendendo sua jurisdição espiritual da costa do mar Báltico ao Oceano Pacífico”.

[19] Tertuliano menciona essa conexão com a crucifixão de Pedro e a decapitação de Paulo como ocorrendo no mesmo período. De Praescript. Haer., c.36: “Ista quam felix ecclesia (a igreja de Roma) cui totam doctrinam apostoli sanguine suo profuderunt, ubi Petrus passioni Dominicae adaequatur, ubi Paulus Joannis exitu coronatur, ubi Apostolus Joannes, posteaquam in oleum igneum demersus nihil passus est, in insulam relegatur.” Compare com Jerônimo, Adv. Jovin., 1, 26, e em Mat 22.23; e Eusebéio, História Eclesiástica, VI.5., H. E., VI. 5. Renan (p 196) conjectura que João estava destinado a iluminar os jardins de Nero, e já estava coberto de óleo na estaca, mas que teria sido salvo por um acidente ou capricho. Thiersch (Die Kirche im Apost. Zeitalter, p. 227, terceira edição, 1879) também aceita a tradição de Tertuliano, mas afirma que ocorreu ali uma libertação sobrenatural.

[20] Ap 11.7; 13.1; 17.1, 3, 5. Compare com a descrição feita por Daniel da quarta besta (romana) “terrível, espantoso e sobremodo forte”, com os “dez chifres”  (Dn 7.7 e ss.).

[21] Ap 17.6.

[22] Ap 18.2. Compare também Ap 6.9-11.

[23] Confessaram o quê? Possivelmente que eram cristãos, que eram tidos pelo império como um tipo de crime. Se eles se declararam culpados pelo incêndio, devem ter sido fracos e neófitos que não aguentavam a dor da tortura.

[24] Esta expressão deve ser entendida como inimigos da humanidade que é a maneira como Tácito acusa os judeus nos mesmos termos. (Adversus omnes alios hostile odium,Hist. V. 5). E se cumpre a Escritura de “Sereis odiados de todos por causa do meu nome” (Veja Mt 10.22).

[25]  Josué, B. Jud., VI. 5, 3 ss.

[26] As pessoas o chamavam de Amor et Deliciae generis humani. Ele nasceu no dia 30 de dezembro do ano 40 d. C. e morreu no dia 13 de setembro do ano 81. Subiu ao trono em 79, no mesmo ano em que as cidades de Herculano e Pompéia foram destruídas. Seu reino foi marcado por muitas calamidades, entre as quais a conflagração em Roma que durou três dias, e uma praga que deixou milhares de vítimas. Fez o possível para reparar os danos, e costumava dizer quando nada acontecia naquele dia, “Amici, diem perdidi.” Veja Suetonio, Titus.

[27] Josefo  VI. 3, 4, fornece um registro complete desses episódios terríveis.

[28] Josefo não é muito consistente neste ponto. Primeiramente afirmou que Tito percebendo que a preservação do templo colocaria em risco a vida de seus soldados, ordenou que os portões da cidade fossem incendiados. (VI. 4, 1) e, então, no dia seguinte deu ordens para que apagassem o fogo. (§ 3, 6, e 37). Sulpício Severo (II. 30) culpou Tito pela destruição, que achou que fazendo assim poria fim a religião judaica e ao cristianismo. Este ponto de vista é defendido por Stange, De Titi imperatoris vita, P. I., 1870, pp. 39-43, e posto em dúvidas por Schürer, l.c. p. 346. Renan (511 ss.), seguido por Bernays, Ueber die Chronik des Sulpicius Sev., 1861, p. 48, que crê que Sulpicio escreveu usando uma parte da  Histories de Tácito, e que Tito não teria dado ordens proibindo que o templo fosse incendiado, e sim, que o deixou à sua própria sorte, quem sabe por algum motivo. Veja também Thiersch, p. 224.

[29] Daniel 9.27; Mateus 24.15; c/ Lucas 21.20; Josefo B. Jud., VI.

[30] B. Jud., VI. 9, 1. Dizem que Tito aprovou esta declaração (Jos. Vita, 65).

[31] B. Jud., V. 13, 6.

[32] Merivale, l.c., p. 445.

[33] Apocalipse 11.2; c/ com Lucas 21.24. Em Daniel 7.25; 9.27; 12.7, a duração da opressão sobre o povo judeu é dada como três anos e meio (= 42 meses).

[34]  B Jud. VI. 9, 2-4. Milman (II. 388) faz uma somatória das declarações dispersas de Josefo e chega à cifra de mortos, desde o começo até o fim da guerra a 1.356.460, e o número total de prisioneiros de 101.700.

[35] O Templo da Paz mais tarde foi incendiado por Comodus e não se sabe o que aconteceu com os objetos que foram para lá levados.

[36] B. Jud., VII. 5, 5-7. Josefo foi ricamente recompensado por sua traição ao povo judeu. Vespasiano deu-lhe uma casa em Roma, uma pensão anual, a cidadania romana e grandes possessões na Judéia. Tito e Domiciano continuaram a favorecê-lo. No entanto, seus compatriotas amaldiçoaram sua memória. Jost e outros historiadores judeus falam muito bem dele. O rei Agripa, o último dos soberanos indumeus viveu e morreu como humilde vassalo de Roma até o terceiro ano de Trajano, ao redor do ano 100. Sua irmã Berenice, uma pervertida sexual por pouco escapou do destino de uma segunda Cleópatra. O conquistador Tito foi conquistado por seu charme e sensualidade, e queria elevá-la ao trono do império, mas a insatisfação do povo o forçou a desistir da ideia. “invitus invitam.” Suetônio, Tit. 7. C/ com Schürer, l .c. 321, 322.

[37]  Citado por Eusébio, H. E., III. 5

[38] Menção deste fato pode ser vista na epístola de Barnabé, capítulo 16.

[39] Compare 1 Co 7.18 ss.; At 21.26 ss.

[40] O Dr. Richard Rothe (Die Anfänge der Christl. Kirche, p. 341 ss.). Thiersch (p. 225), Ewald (VII. 26), Renan (L’Antechr., p. 545), e Lightfoot (Gal., p. 301) atribuem este mesmo sentido quanto a destruição de Jerusalém.

Church History – Philip Schaff

Tradução de João A. de Souza Filho

fonte: http://querigmavirtual.blogspot.com.br/2015/08/church-history-philip-schaff-traducaode.html

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