Pluralidade da Fé

Sempre me perguntei o que queria Jesus dizer ao afirmar: “Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?” (Lc 18.8). Hoje quando reflito sobre a igreja, seu testemunho no mundo e sua mensagem, não tenho dúvidas de que Jesus estava apontando para nossos dias.

Sempre que lia este texto – quando eu era um jovem ministro – imaginava o comunismo e outras ideologias dominadoras sufocando a fé das pessoas. Ao longo dos anos descobri que os sistemas de governo, sejam eles de esquerda ou de direita, inda que inibidores do pensamento humano, isto é, que não aceitam o livre-pensamento e idéias das pessoas que não as do partido, não são inibidores da fé das pessoas. Está comprovado que o evangelho cresceu forte e vigoroso nos países de regimes totalitários como na ex-União Soviética, na China e em Cuba.

Também pensei que as filosofias, os pensamentos, sofismas e a ciência fossem os elementos que minassem a fé das pessoas e, que, na volta de Cristo ele não encontraria fé na terra. Estava enganado. As teorias da evolução, os valores que a ciência tanto preza, o avanço da tecnologia, por fim, dobram-se diante da soberania e poder de nosso Deus e do evangelho de Cristo. O evangelho cresceu, apesar da filosofia dos gregos, da mão de ferro dos romanos e se espalhou pelo mundo todo. A Albânia que se considerava o baluarte do comunismo e que se gloriava de ali não haver Bíblias nem cristãos, caiu com grande estrondo e seu líder Enver Hoxa, à semelhança de outros déspotas afogou-se na arrogância que seus lábios proferiram contra Deus.

Hoje percebo que a fé verdadeira vem se perdendo sistematicamente dentro de seu próprio terreno que é a igreja. Um dos comentaristas falou sobre este texto cerca de duzentos anos atrás: “Já não existirá a doutrina da fé, haverá menos da graça da fé, e muito menos o exercício da fé, especialmente na oração e em relação à vinda de Cristo. As pessoas pouco se importarão se ele virá ou não” (John Gill).

E é fácil perceber a diluição da verdadeira fé e a pluralidade de fé na igreja. Basta ouvir os pregadores e o que eles têm a dizer. Ou exortam à prática da fé voltada para usos e costumes, coisa comum em certos segmentos pentecostais ou à prática da fé que inclui sacrifícios – dispensando a graça, isto é, em que o crente precisa “pagar” para receber as bênçãos. Vive-se hoje na igreja a pluralidade da fé, que dá às pessoas a opção de escolher a igreja, não pela essência da fé que prega, mas pelas gratificações que os pregadores prometem aos fieis.

Pode-se confirmar o que estou dizendo acessando diariamente os vários canais de tevê em que pregadores, evangelistas, pastores e igrejas anunciam o evangelho. Raramente ouvimos programas em que a verdadeira ortodoxia é pregada e em que o ouvinte é levado a confrontar seu estilo de vida com as exigências da fé e da graça. Basta também visitar os cultos de algumas igrejas e observar que a mensagem pregada sempre visa agradar o ouvinte e o seu bem-estar – especialmente nesta época em que as mensagens e os livros de auto-ajuda têm grande sucesso. Assim, pregadores como eu que creem na graça e na fé e que creem que o evangelho de Cristo traz em seu escopo a prosperidade para os que fielmente servem a Cristo, e que se recusam a trilhar pelo caminho da auto-ajuda não são muito bem ouvidos.

No aconselhamento pastoral de todas as semanas as pessoas procuram soluções rápidas, e opções que lhes agradem. Assim como vão ao meu gabinete procurando ajuda, passam por uma mão-cheia de gabinetes de outros pastores e até de seitas religiosas querendo encontrar a melhor solução para resolver seus problemas. Quando lhes apontamos o caminho da verdadeira fé, rejeitam-no porque exigirá delas um maior comprometimento com o Senhorio de Jesus Cristo em suas vidas.

Esta pluralidade de fé ou de uma fé vazia e sem fundamento vem levando um sem-número de pessoas, membros de nossas igrejas à busca frenética de divãs psiquiátricos, e a terapia em grupo em hospitais. Afora os que vivem sob medicação tarja-preta, porque acreditaram numa fé sem essência, numa fé que tem aparência de ser verdadeira, mas é enganosa. A verdadeira essência da fé, Jesus, não é bem recebida quando faz demandas e exige compromisso com sua mensagem e com o reino.

Paulo mostrou a causa deste problema aos irmãos colossenses: “Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graças” (Cl 2.6-7).

Para o apóstolo os problemas que temos hoje com a pulverização da crença está na maneira como uma pessoa recebe a Cristo. Se alguém aceita a Cristo apenas como seu ajudador, como seu curador, como solucionador de seus problemas e não como SENHOR, nunca se firmará na fé e terá sempre uma fé diluída. Paulo está mostrando que desde o início a pessoa tem de ser confrontada com o senhorio de Cristo, que é uma mensagem que confronta as pessoas, entre o que ela quer e o que o Senhor Jesus Cristo quer que ela faça.

Talvez aí esteja a razão de termos uma igreja tão fraca, em que os crentes vivem o evangelho que mais lhes agrada e não o verdadeiro evangelho que nos faz tomar o jugo de Cristo sobre nós. A equação é bem simples: quando vivíamos nos prazeres do mundo, nosso chefe era Satanás; agora que vivemos no evangelho de Cristo, nosso chefe é Jesus. Ou estamos sob o jugo do diabo ou sob o jugo de Jesus. A escolha é nossa.

A teologia da igreja está contaminada pela filosofia; seja esta humanista ou positivista. Vê-se com maior intensidade como o humanismo e o positivismo infiltraram-se na doutrina da igreja como se fossem elementos importantes da fé. Tanto o humanismo quanto o positivismo firmam-se na premissa de que o homem pode conseguir realizar o que quiser sem precisar apelar para Deus ou para a fé. A diferença entre o humanismo é que um humanista pode crer em Deus e em Jesus Cristo, mas pode viver independente deles. Já o positivismo vem firmado no ateísmo. E pode se perceber que também, na teologia infiltraram-se elementos ateus, camuflados de fé.

Posso citar como exemplo algumas coisas que são incompreensíveis ao pensamento ocidental, como o ensinamento da 4ª. Dimensão do coreano Paul Young Cho – cuja igreja visitei duas vezes na Coréia – o poder da mente, antigamente preconizado por Norman Vicent Peale e modernamente aceita na igreja de Cristal do Robert Schüller, mas também adaptado à fé positiva (O ministério e a igreja de Schuller desmoronou). Seu aspecto mais popular é da teologia da prosperidade em que a pessoa pode “dar ordens” e tomar “posse” do que Deus tem para ela, independentemente da vontade de Deus. A sutileza entre fé e pensamento positivo, tema que abordo em outro artigo vem desviando as pessoas da verdadeira fé em Cristo Jesus para uma fé mais mental, menos transcendental, fé que exige mais “concentração” mental do homem do que relacionamento com Deus.

Do Pentecostes ao Pluralismo

“No dia de pentecoste as igrejas cristãs de todos os Estados Unidos explorarão e experimentarão outras tradições religiosas… Ficamos perto de Deus, crescemos em compaixão, e entendemos melhor nossa tradição honrando e explorando as religiões mundiais.” (Centro para o progresso do cristianismo in www.tcpc.org).

“Não se trata de tolerância, apenas, ma, sim, em ir além da tolerância, ao princípio do pluralismo. Os fundamentalistas têm uma visão pessimista do futuro, e possuem esta percepção… de que existe um abismo enorme entre o crente e o descrente… Não cremos assim”, afirmou Richard Cizik da Associação Nacional dos Evangélicos. (Em sua palestra no Clinton Global Initiative: Mitigating Religious and Ethnic Conflict).

“Esta é a nova espiritualidade do falso evangelho da unidade. Somos todos um. Nosso caminho não é o melhor; nosso caminho é meramente um outro caminho” (Tamara Hartzell, In the Name of Purpose – Sacrificing Truth on the Altar of Unity).

Não é mais segredo que o sistema mundial atuante é dirigido pela visão da solidariedade global e pelo pluralismo espiritual. Não conhecemos o cronograma de Deus, mas ele nos advertiu anos atrás a que nos preparemos para uma época de declínio da fé, quando as pessoas sentirão comichão nos ouvidos, negociando a fé e rejeitando a sã doutrina. Fomos advertidos a nos protegermos de todo engano. Esta advertência aponta claramente para os nossos dias. (2 Ts 2.1-4; 2 Tm 4.3; Mt 24.25, 42-44; 25.13; Lc 21.34; 1 Co 16.13).

A escritora cristã Tamara Hartzell cita Alice Bailey o ocultista famoso, cuja fonte de inspiração e informação era o seu guia espiritual, um espírito, Djwhal Khul:

“Chegará o dia quando todas as religiões reputarão ou considerarão que emanam de uma única grande força espiritual; todas serão vistas como uma só unidade, mostrando a mesma raiz de onde a religião universal inevitavelmente emergirá. Então, não haverá cristão nem pagão; judeu ou gentio, mas simplesmente um grande corpo de crentes procedentes de todas as religiões atuais. Elas aceitarão as mesmas verdades, não como conceitos teológicos, mas como algo essencial à vida espiritual… Esta religião mundial já não é um sonho, mas algo que definitivamente está se formando hoje” (Alice Bailey & Djwhal Khul, Problems of Humanity, Chapter V – The Problem of the Churches, III. The Essential Truths, 1947 (www.bernie.cncfamily.com).

Tamara afirma que esta foi uma predição psicografada pelo demônio e mentor de Bailey em 1947 bem antes que acontecessem as grandes transformações sociais. As três décadas seguintes trouxeram mudanças radicais. A psicologia humanística, a educação multicultural e o processo dialético e tantos outros esquemas transformadores foram semeados e começaram a frutificar nos laboratórios educacionais da América. Usando tecnologia de ponta criaram meios para manipular as mentes, mudar os valores e minar as verdades bíblicas.

Seminários e universidades abraçaram a nova maneira de pensar e logo a revolução varreu também as igrejas. O pós-modernismo rejeitou a verdade e os valores que fizeram a América – substituído pelo pluralismo. O impensável se tornou a norma.

A hostilidade contra o cristianismo bíblico inflexível rapidamente cresceu, expondo hoje pessoas de mentes duplas que mudam a verdade para agradar as pessoas e ampliar sua influência. Medite nestas três declarações feitas por importantes líderes cristãos. Eles ensinam a verdade divina ou promovem uma distorção popular da pós-modernidade?

1. Billy Graham fez esta declaração em 1997 numa entrevista a Robert Schüller: “Penso que todos os que amam a Cristo, ou o conhecem, estejam estas pessoas conscientes ou não, elas são membros do corpo de Cristo… Ele está chamando as pessoas deste mundo por seu Nome, venham estas do mundo islâmico, do mundo budista, do mundo cristão ou dentre os que não crêem. Estes são membros do Corpo de Cristo, por haverem sido chamados por Deus. Pode ser que nem conheçam o nome de Jesus, mas sabem em seus corações que precisam de algo que ainda não têm, e voltam-se para a única luz que eles têm; e creio que são salvos, e que se encontrarão conosco nos céus. (Billy Graham entrevistado por Robert Schuller em 1997. Postado no site do pastor John McArthur: Billy Graham Believes Catholic Doctrine of Salvation Without Bible, Gospel, or Name of Christ at http://www.biblebb.com/files/tonyqa/tc00-105.htm).
Deus, no entanto, disse: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho” (Mc 16.15). A fé tem de estar alicerçada na verdade, isto é, no Cristo crucificado e ressuscitado (At 4.10-12).

2. Rick Warren disse algo parecido que torce seu compromisso com as Escrituras. Assim se expressou em uma audiência das Nações Unidas e também num programa da CNN: “Você pode ser um católico, protestante, budista, batista, muçulmano, mórmon ou judeu, ou alguém sem religião alguma. Não me interesso por sua religião, porque Deus não criou o universo para quem tivéssemos religião. Veio para que nos relacionássemos com ele. (United Nations, Interfaith Prayer Breakfast, September 2005, transcrito do áudio da mensagem de Rick Warren disponível na Lighthouse Trails Research Project, “The New Missiology — Keep Your Own Religion, Just Add Jesus” no site www. Lighthousetrailsresearch.com/missiology.
“Sei de muitas pessoas que creem no Messias Jesus, não importando a que religião confessam, porque creem nele. Trata-se de relacionamento, não de religião”. (Entrevista com Rick Warren, CNN Larry King que foi ao ar em 2 de dezembro de 2005, transcrito de http://transcripts.cnn.com/TRANSCRIPTS/0512/02/lkl.01.html).

3. George W. Bush, ex-presidente dos Estados Unidos. Ele também fez inúmeras declarações e comentários que transforma a verdade de Deus numa proclamação pluralística. Você duvida, como eu, se ele realmente crê no que diz! Ou estaria ele apenas tentando agradar os cristãos que nele votaram sem ofender os demais? “Numa entrevista exclusiva com Charles Gibson da rede ABC, Bush disse crer que tanto os cristãos quanto os muçulmanos adoram o mesmo Deus. ‘Eu penso que sim. Temos rotas diferentes para chegar ao Todo-Poderoso’, afirmou Bush”. (Bush em Religião e Deus no site: www.biblebb.com/files/tonyqa/tc00-105.htm

4. “O mesmo criador que deu nome às estrelas sabe também os nomes das sete almas que velamos neste dia. A tripulação do Colúmbia não retornou em segurança para a terra, mas podemos orar que eles estão seguros em casa”. (Palavras confortadoras como coisas de fato em www.washingtonpost.com/ac2/wp-dyn?pagename=article).
“Americanos de fé e tradições diferentes compartilham da crença de que Deus (qual Deus?) ouve as preces de seus filhos e se mostra gracioso a todos os que o buscam… Existe poder nestas orações (a deuses diferentes). Peço que os cidadãos de nossa nação agradeçam, cada um conforme sua fé, que orem pela liberdade e pelas bênçãos recebidas, e pela contínua direção, conforto e proteção de Deus”. (Dia nacional de oração – National Day of Prayer, 2007: A declaração do Presidente dos Estados Unidos da América em www.ndptf.org/press
Diana Eck fundadora do Projeto Pluralismo em Harvard não é um modelo de cristianismo perfeito e, contudo, ao promover o domingo pluralista explica seus sentimentos: “Descobri que minha fé não está ameaçada, mas ampliada e aprofundada ao estudar o hinduismo, o islamismo, as tradições da fé Sikh. Descobri que somente sendo uma cristã pluralista poderei me manter fiel ao mistério da presença daquele que chamamos de Deus… Creio que Deus não é limitado por nossas tradições, doutrinas, dogmas ou textos de quaisquer tradições religiosas… Através disto conectamo-nos à mesma infinita Fonte e ficamos todos unidos pelo mesmo Espírito inclusivo. Para nós, o domingo de pentecoste será pluralista. (Diana Eck, Pluralism Sunday at http://suncath.org/sunburst/index.htm#bookmark03 acessado em 16/05/2007) e www.http://allison.zaadz.com/blog/2007/4/celebrate_pluralism_sunday_on_may_27).

É possível que estejamos sacrificando a verdade no altar da unidade. Estamos brincando com uma verdade que pode ceifar a vida de milhões de pessoas levando-as a uma eternidade sem Cristo. Assim, poderemos ter uma verdade, e muitas teologias. Um Deus, e muitos caminhos/uma igreja, e muitas expressões, e uma vida divina, com diferentes Cristos.

Atribui-se a Rick Warren as seguintes declarações:

“A igreja é maior que qualquer organização mundial. Una-se aos muçulmanos, aos hindus, una-se a diferentes religiões e você pode utilizar aquelas casas de adoração como centros distributivos, não apenas para cuidados espirituais, mas como centros de ajuda na saúde. Poderia levar você a milhões de vilarejos… eles vão a alguma igreja. Ou a uma sinagoga. Eles têm alguma coisa. Possuem um local de adoração. E surgiu o que chamo de plano de paz (P.E.A.C.E em inglês). Quando Jesus enviou seus discípulos disse-lhes para entrarem em todas as casas onde houvesse um homem de paz. Agora, esta pessoa não precisa, necessariamente ser um cristão… Você encontra a pessoa da paz e começa o plano. Por que lhes digo isto? Porque vamos a campo em 2006 para mudar o mundo” (Rick Warren).

Em nome da unidade sacrificamos a verdade, quando:

1. O absolutismo é deixado de lado, e o relativismo o supera.
2. A obediência é deixada de lado e o pragmatismo ocupa seu lugar.
3. O ensino é abandonado e o diálogo entra no lugar dele.
4. O “assim diz o Senhor” é banido e o consenso e a opinião tomam o lugar da palavra do Senhor.
5. As escrituras como padrão de julgamento do certo e do errado são deixadas de lado e a tolerância e a unidade têm de ser aceitas a qualquer custo.
6. O caminho deixa de ser estreito e é alargado para que todos entrem nele.

Um texto da Wikipédia em inglês define que a fé tem cinco doutrinas ou pilares fundamentais: A veracidade da Bíblia; o nascimento virginal; a ressurreição física; a expiação pelo sacrifício da morte de Jesus Cristo e a segunda vinda de Jesus. E que o pluralismo constitui também uma relação de paz entre as diferentes religiões.

O pluralismo religioso pode ser entendido como o ponto de vista universal de que nenhuma religião pode ser considerada como fonte exclusiva da verdade, reconhecendo que alguns níveis da verdade e de valores existem também nas outras religiões.

O pluralismo religioso é um termo usado como sinônimo de ecumenismo que promove a unidade, trazendo cooperação entre as igrejas ou melhorando o entendimento entre as diferentes religiões ou denominações dentro da mesma religião.

Como sinônimo de tolerância religiosa, que é a condição para uma coexistência pacífica entre os membros das diferentes religiões ou denominações. Esta reconhece que as diferentes religiões fazem declarações de fé diferentes, e que cada religião é verdadeira até certo ponto.

À luz do que disseram esses líderes americanos não é de estranhar também a declaração de Leonardo Boff: “Seria também interessantíssimo identificar a experiência espiritual que atua por trás das religiões afro-brasileiras, participadas por milhões e milhões de pessoas em nosso país. É uma experiência profundamente ecológica, ao redor da realidade do axé, que corresponde mais ou menos ao que é o Shi para os orientais ou o Espírito Santo para a tradição judaico-cristã: uma energia cósmica que penetra todo o universo e impregna toda a realidade, concentrando-se no ser humano, fundamentalmente mais na mulher do que no homem, e fazendo com que toda realidade seja irradiante e viva. O exu não é o demônio que devemos expulsar, mas o portador por excelência do axé, como força de irradiação, como abertura para captar mais energias e colocá-las a serviço dos demais” (Boff, Leonardo, Espiritualidade, Editora Sextante, pp 63-64 edição de 2001).

Discernir a verdade da fé cristã e separá-la das influências filosóficas é tarefa para os profetas e apóstolos de hoje.

Às vezes uma dúvida me assombra como uma nuvem com seu espectro negro estendendo sua sombra em minha mente: Estou tão ignorante das verdades bíblicas que não enxergo o pluralismo como alvo bom e relevante à fé cristã ou realmente estou certo quando defendo a fé simples e objetiva das escrituras sagradas?
Ainda volto ao tema sobre o verdadeiro pluralismo bíblico.

Paulo apresentou em suas epístolas a possibilidade de se viver uma vida cristã com práticas alternativas, mas não se pode confundir seus ensinamentos com pluralidade da fé, como falei nos dois artigos anteriores. Pluralidade da fé é quando os ensinamentos básicos da fé cristã sofrem transformações decorrentes da filosofia e dos ensinamentos de homens. Tratei disto com muita seriedade no artigo anterior. Escrevendo aos gálatas, o apóstolo é bastante claro:

Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema (Gl 1.6-9).

Além do pluralismo teológico que infectou a verdadeira doutrina da fé, outro tipo de pluralismo vem açoitando os crentes nos dias de hoje: a prática de costumes e leis de homens e a volta ao judaísmo. Os líderes evangélicos, em sua maioria, desconhecem o que significa “graça de Deus”. Para alguns, graça de Deus é tudo de que se precisa para poder suportar os legalismos, desmandos e leis que os homens criam, tornando o caminho ainda mais estreito do que Jesus deixou.

Os homens criam leis, regras religiosas, determinam o que deve e o que não se deve usar; o que deve e o que não se deve comer, onde ir e onde não ir; o que fazer e o que não fazer; determinam o que é certo e errado no aconchego do casal no lar e prendem com as algemas da ignorância os que querem usufruir da verdadeira liberdade do evangelho da graça de Deus.

Os irmãos da Galácia haviam recebido um evangelho puro sem os ingredientes do judaísmo. Não era necessário manter as práticas judaizantes, como o guardar as festas, dias de luas, abstinência de alimentos nem a circuncisão.

Receberam um evangelho cuja única condição era de serem fiéis a Jesus Cristo e por ele darem suas vidas, no entanto, os irmãos judaizantes ali chegaram exigindo dos novos crentes obediência às leis religiosas dos judeus.

A mesma coisa aconteceu quando os irmãos judeus de Jerusalém foram a Antioquia e se depararam com uma comunidade gentílica que recebeu a graça e a fé em Cristo Jesus. Para aqueles judeus, os novos irmãos deveriam obedecer os ritos judaicos, especialmente o da circuncisão. Paulo teve coragem e ousadia como frutos da revelação que de Deus recebera de abolir a circuncisão, uma prática milenar dos dias de Abraão e bateu de frente com os apóstolos que estavam em Jerusalém, especialmente Pedro.

Hoje, se Paulo visitasse as igrejas do Ocidente se depararia com novos ritos judaizantes e novas práticas religiosas, repetindo novamente que estamos nos desviando da simplicidade do evangelho de Cristo.

Para Paulo, a vida cristã deveria ser vivida de maneira alegre, inda que em meio as muitas tribulações. Nada de proibições e legalismos frutos da filosofia dos homens, diria Paulo.

Os pastores que hoje se corromperam com a política, que adulteram, que roubam de outros e da igreja, que não têm ética ministerial nem vida com Deus, Paulo nem os consideraria irmãos em Cristo. Quanto a isto ele é claro:

Na outra carta que escrevi a vocês, eu recomendei que vocês não tivessem nada a ver com gente imoral. Eu não quis dizer que neste mundo vocês devem ficar separados dos pagãos que são imorais, avarentos, ladrões ou que adoram ídolos. Pois, para evitar essas pessoas, vocês teriam de sair deste mundo. O que eu digo é que vocês não devem ter nada a ver com ninguém que se diz irmão na fé, mas é imoral, ou avarento, ou adora ídolos, ou é bêbado, ou difamador, ou ladrão. Com gente assim vocês não devem nem comer uma refeição (1 Co 5.9-11 – NTLH).

Paulo encontraria milhares de pastores que são avarentos, beberrões, imorais – no sexo e nos negócios – que processam seus pares nos tribunais de justiça e que estão sendo perseguidos pela Polícia Federal, não porque pregam o evangelho, mas porque são ladrões! Alguns têm o amparo da lei porque são deputados federais imunes a processos judiciais comuns. Privilegiados.

Em Romanos 14 Paulo aborda as questões da vida cristã ensinando que os irmãos devem aprender a liberdade que cada pessoa tem em Cristo. No entanto, ele é rígido e consistente com a vida de santidade exigindo que os irmãos abandonem a prostituição, a vida de adultério, de mentira e que tenham vida honesta em seus negócios.

Você é vegetariano? Ou você gosta de comer carne? Viva como você gosta de viver, afirma Paulo. E mesmo que a carne tenha sido sacrificada a ídolo, vá em frente, consagre a carne e coma-a com alegria e ações de graças! (Veja 1 Coríntios 8). Que é o ídolo? Para o que ainda adora ídolo ele representa alguma coisa, mas para o que não adora ídolos, a carne sacrificada a ídolos pode servir de alimento!

Você gosta de guardar o sábado? Guarde-o. Prefere o domingo? Está bem. Gosta de celebrar as fases da lua? Faça-o.

Você acha que não tem sentido alguma celebrar as festas da lua? Está bem. Podemos viver em harmonia, praticando a vida cristã com liberdade, sem proibições. Viva como puder. Observe, no entanto, a lei do evangelho de Cristo!

Esta é, em síntese, a pluralidade da prática da vida cristã que Paulo apresenta como solução aos conflitos da vida; aos conflitos relacionais, à perfeita convivência entre os irmãos.

Simples, não é? No entanto, os judaizantes ressuscitaram o judaísmo e voltaram a impor práticas da lei aos gentios que creram em Cristo Jesus. Hoje, quando visitamos as igrejas deparamo-nos com réplicas da arca da aliança; do candelabro e até de representações de animais sendo sacrificados… material decorativo, dizem alguns, mas que na realidade refletem o espírito do judaísmo que voltou a entrar na igreja de Cristo Jesus.

 

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