Cartas de Herodes a Pilatos e de Pilatos a Herodes

Documentos que ligam a história romana com a morte de Cristo em Jerusalém.
Introdução:
(Estas cartas aparecem nos manuscritos siríacos do sexto e sétimos séculos e estão atualmente no Museu Britânico. O Dr. Tischendorf declara em seu Apocalypses Apocryphae que ele tem uma cópia dessas cartas em grego de um manuscrito de Paris, do qual afirma: “scriptura satis differt, nom item argumentum.” Acompanham essas cartas alguns dados que podem ter sido acrescentadas por algum copista ainda que acompanhem a mesma declaração das cartas de Pilatos. É supostamente através de Justino que entendemos Justo de Tiberíades do qual Josefo aborda em seu livro de história. Não nos aventuramos em dar uma opinião favorável quanto a veracidade desses extratos, porque Pótio (Potius) afirma que Justo não menciona a Cristo. É através de Teodoro que entendemos o imperador Tibério. A pergunta e a resposta concorda em sentido com o que lemos em Anáfora ou resposta de Pilatos).
Carta de Herodes a Pilatos, o governador
Herodes a Pôncio Pilatos governador de Jerusalém: Paz.
Estou em grande ansiedade e expectativa. Escrevo-lhe estas coisas para que quando você ficar ciente de tudo consiga ter pena de mim. Minha filha Herodias, a quem muito estimo, estava brincando em um lago congelado que se rompeu debaixo dela e afundou na água e sua cabeça foi cortada ficando boiando na superfície de gelo. Sua mãe ficou segurando sua cabeça entre os joelhos e toda minha casa entrou em pânico. E eu, ao ouvir de um homem chamado Jesus, queria muito ir até aí para vê-lo sozinho e ouvir suas palavras se era realmente como os filhos dos homens.
E devido a tudo de mal que eu fiz a João, o Batista e por haver zombado de Cristo, recebo assim a recompensa [1] da justiça porque derramei muito sangue de outras crianças sobre a terra. [2] Portanto, os juízos de Deus são corretos, e cada homem é recompensado conforme seus pensamentos (e obras). Mas, já que você teve o privilégio de ver o Deus-homem, quero, portanto, que você ore por mim.
Meu filho Azbonio está também agonizando às portas da morte.
Eu também me sinto aflito e em grande tribulação porque tenho hidropisia [3] o que me deixa desanimado, porque eu persegui aquele que introduziu o batismo em águas, que foi João. Por isso, meu irmão, os juízos de Deus são verdadeiros.
E, minha esposa, outra vez, com toda essa tristeza pela minha filha está ficando cega de seu olho esquerdo, porque desejamos cegar os olhos dos justos. Não haverá paz para os olhos dos justos, diz o Senhor. [4] São grandes as aflições que têm vindo sobre os sacerdotes e escribas da lei, por haver entregue a você o Justo. Porque esta é a consumação do mundo, pois permitiram que os gentios se tornassem seus herdeiros. Porque os filhos da luz serão cortados,[5] por não haverem obedecido ao que foi anunciado a respeito do Senhor e a respeito de seu Filho. Portanto, vocês devem se cingir com as vestimentas da justiça,[6] você, juntamente com sua esposa lembrem-se de Jesus noite e dia, e o Reino será dos gentios, porque nós, o povo escolhido zombamos do Justo.
Agora, se você considerar nosso pedido, ó Pilatos, porque naquele tempo estávamos revestidos de poder, sepulte minha família cuidadosamente, porque é justo que sejamos sepultados por você, e não pelos sacerdotes, sobre quem, depois de algum tempo, como dizem as Escrituras, a vingança sobre eles cairá.
Adeus! Despeço-me de você e de Procla sua esposa.
Envio-lhe também os brincos de minha filha e meu próprio anel, que estejam com você como memorial de minha partida. Porque já os vermes começam a comer o meu corpo, [7] e eis que estou recebendo meu juízo temporal, e tenho medo do juízo final que me sobrevirá. Pois em ambos ficamos em pé diante do Deus vivo, mas este juízo que é temporal, dura pouco, mas o último será eterno.
Fim da carta a Pilatos, o governador.
Carta de Pilatos a Herodes
Pilatos a Herodes o Tetrarca: Paz
Saiba que no dia em que você me enviou Jesus para eu decidir sobre o destino dele, fiquei pesaroso e para mostrar meu remorso lavei minhas mãos (mostrando que eu era inocente). Falo de Jesus que ressuscitou dos mortos depois de três dias, aquele que você teve o prazer de condenar, porque você me pediu para me associar com você crucificando-o. Depois ouvi dos executores e dos soldados que vigiavam sua sepultura que ele ressuscitara dos mortos. Eu mesmo comprovei o que me foi dito de que ele apareceu fisicamente na Galileia, do jeito que ele era, com a mesma voz, a mesma doutrina e com os mesmos discípulos, sem haver mudança alguma nele. No entanto, pregava com ousadia sobre sua ressurreição e o reino eterno.
Os céus e a terra se alegram. Veja: Procla, minha esposa crê nas visões que teve naquele dia quando você me enviou Jesus para eu decidir o futuro dele, devendo ou não entregar Jesus para o maligno povo de Israel. Agora, quando Procla, minha esposa ouviu que Jesus ressuscitara dos mortos e que aparecera na Galileia, ela levou consigo Longinius, o centurião e doze soldados, no mesmo dia em que ela foi ao sepulcro, e saiu à procura da face de Cristo, e ela o viu com seus discípulos.
Enquanto estavam ali obcecados mirando-lhe a face, ele olhou para eles e lhes perguntou: Vocês creem em mim? Procla sabia que na aliança que Deus fizera com o povo de Israel, está profetizado que os mortos ressuscitarão. Ele disse: É isto o que vocês veem. Aquele que vocês crucificaram está vivo! Sofri muito e fui sepultado, mas agora, ouçam-me em creiam em meu Pai – Deus que em mim está. Porque arrebentei as correntes da morte e rompi os portões do inferno, e haverei de voltar.
E quando Procla, minha esposa e os romanos ouviram isto, chegaram-se onde eu estava e me contaram tudo. Porque estes também agiram contra Jesus e mereciam o mal por tudo o que lhe fizeram. Por isso, fiquei prostrado na cama, me vesti com panos de saco, lamentei por meus pecados e, tomando cinqüenta soldados me dirigi para a Galileia. E quando estava a caminho testemunhei sobre os fatos, que fui levado a cometer essas coisas influenciado por Herodes, que Herodes se aconselhara comigo e me constrangeu a levantar minha mão contra Jesus; julgar o Justo que é sobre todos os justos. Quando chegamos perto dele, ó Herodes, ouvimos uma voz vinda do céu, como um trovão ameaçador; a terra estremeceu, e sentimos um sabor doce no ar, um perfume como nunca se sentira nem mesmo no templo de Jerusalém.
O Senhor me viu enquanto falava com seus discípulos. Fiquei orando em meu coração porque sabia que ele me libertaria, e que ele era o Senhor e Criador de todas as coisas. Nós, quando o vimos nos prostramos com o rosto em terra diante de seus pés. Eu gritei bem alto: Eu pequei, ó Senhor, por haver julgado o Senhor, que é o Verdadeiro. Sei que o Senhor é o Filho de Deus e que esteve (entre nós) em sua humanidade e não em divindade. Mas, Herodes me constrangeu a lhe fazer mal. Piedade, Senhor! Ó Deus de Israel.

[1] 2 Pe 2.13
[2] Mt 2.16. Nem é preciso dizer que não é o Herodes desta epístola que massacrou os meninos de Belém. Os meninos foram mortos por Herodes, o Grande.
[3] Acúmulo de líquidos anormais serosos nos tecidos.
[4] Is 48.22; 57.21
[5] Lc 16.8
[6] 1 Pe 1.13
[7] Um anacronismo palpável. Atos 12.23.

Traduzido por: João A. de Souza Filho
De: The Lost Books of the Bible

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