Auto-Análise

Tornemos a visitar os irmãos por todas as cidades em que temos anunciado a palavra do Senhor, para ver como vão” (Atos 15:36).

O texto acima contém uma proposta que o Apóstolo Paulo fez a Barnabé depois da primeira viagem missionária deles. Ele propôs revisitar às igrejas que eles fundaram para ver como estavam indo. Seus membros continuavam firmes na fé? Eles estavam crescendo na graça? Eles estavam se desenvolvendo ou continuavam no mesmo nível? Eles estavam prosperando, ou regredindo? Tornemos a visitar os irmãos e ver como vão.

Esta era uma proposta sábia e útil. Vamos propô-la ao nosso coração, e aplicá-la a nós mesmos neste século. Vamos atentar para nossos caminhos, e descobrir o que permanece entre nós e Deus. Vamos ver como estamos indo.

Eu peço a todo leitor deste volume que comece sua leitura, atentamente, juntando-se a mim numa auto-análise. Se alguma vez o exame sobre religião foi necessário, foi nos dias de hoje.

Nós vivemos em uma época peculiar de privilégios espirituais. Desde o início do mundo nunca houve tais oportunidades para a alma de um homem ser salva quanto nos dias de hoje. Nunca houve tantos indícios religiosos na terra, tantos sermões pregados, tantos cultos nas igrejas e capelas, tantas Bíblias vendidas, tantos livros e tratados religiosos impressos, tantas Sociedades Evangelizadoras sendo apoiadas. Coisas estão sendo feitas em todos os lugares nos dias de hoje as quais cem anos atrás se pensava ser impossível. Há uma movimentação em torno da religião nos dias atuais diferente de tudo que vimos desde que a Inglaterra tornou-se nação, que até os mais céticos e infiéis não podem negar.

Se Romaine, Venn, Berridge, Rowlands, Grimshaw e Hervey tivessem sido informados que tais coisas sucederiam cem anos após a morte deles, eles seriam tentados a dizer como o samaritano Ainda que o Senhor fizesse janelas no céu poderia isso suceder?” (2 Rs. 7:19). Mas o Senhor abriu as comportas do céu. Nos dias de hoje na Inglaterra, existe mais ensino do verdadeiro Evangelho e do caminho da salvação pela fé em Jesus Cristo em uma semana, do que houve em um ano na época de Romaine. Seguramente tenho o direito de dizer que vivemos em uma época de privilégios espirituais. Mas isto nos fez melhores? Numa era como esta é bom perguntarmos como vamos indo em relação as nossas almas?

Vivemos numa época de perigos espirituais. Talvez nunca, desde que o mundo começou, existiu um montante tão grande de meros professos religiosos como nos dias de hoje. Dolorosamente, grande parte das congregações na Terra consistem de pessoas não convertidas, que não sabem nada da verdadeira religião, nunca participam da mesa do Senhor e nunca confessam a Cristo na sua vida diária. Miríades daqueles que estão sempre correndo atrás de pregadores e aglomerando-se para ouvir sermões especiais não são nada melhores do que metais ou címbalos que retinem, sem um pouquinho do Cristianismo real e vital em suas casas. (É curioso e instrutivo observar como a História se repete e quanta semelhança existe no coração humano em todas as épocas). Mesmo na Igreja Primitiva, Cônego Robertson diz: Muitas pessoas vão à Igreja nas grandes cerimônias cristãs e nos teatros, ou mesmos nos templos para os espetáculos pagãos. O ritual da Igreja era visto como um espetáculo teatral. Os sermões eram ouvidos como exibições retóricas; e eloqüentes pregadores eram saudados com salvas de palmas e de batidas de pés, movimentação de lenços, gritos de ortodoxo, 13º apóstolo, e demonstrações deste tipo, as quais mestres como Crisóstomo e Agostinho tentaram restringir, bem como tentaram persuadir seu rebanho a ouvir de maneira mais produtiva. Alguns iam para a Igreja apenas para ouvir o sermão, alegando que poderiam orar em casa. E quando as partes mais atrativas do culto terminavam, a grande maioria retirava-se sem participar da eucaristia” — Robertsons Church History BII, cap. VI, pág. 356.

Temo que a vida de muitas pessoas religiosas nesta época, nada mais é do que um contínuo aperitivo espiritual. Elas estão sempre buscando, morbidamente, o mais novo estímulo e pouco se importam sobre o que aconteceria se tão somente o conseguissem. Toda pregação parece ser a mesma para elas e parece que são incapazes de ver diferenças contanto que escutem aquilo que é mais brilhante, tenham seus ouvidos agradados e estejam no meio de uma multidão. O pior de tudo é que existem centenas de jovens crentes instáveis, tão infectados com o mesmo amor pelo excitamento, que atualmente pensam ser um dever estar sempre o buscando. Quase insensíveis a si mesmos, assumem um tipo de cristianismo histérico, sensacionalista e sentimental, até que não se contentam mais com as antigas veredas” e, tal como os atenienses, estão sempre correndo atrás de algo novo. Ver um jovem crente propenso à serenidade, que não seja presunçoso, confiante em si mesmo, orgulhoso, e mais apto a ensinar do que aprender, mais contente com um persistente esforço diário, visando o crescimento na semelhança com Cristo e em fazer o serviço de Cristo tranqüilamente e sem ostentação, em casa, está realmente se tornando raridade! Muitos jovens professos demonstram quão pouco profunda é a sua raiz, e quão pouco conhecimento tem de seus corações, através do estardalhaço, assanhamento, prontidão para contradizer crentes idosos e confiança exagerada em sua própria, fantasiosa, sabedoria e firmeza! E assim será para muitos jovens professos desta época, se eles não pararem, depois de terem sido agitados por um tempo e levados ao redor por todo vento de doutrina, por juntar-se a alguma seita mesquinha, tacanha e censuradora, ou por abraçar alguma heresia insensata, ilógica e excêntrica. Certamente, em tempos como este há grande necessidade para a auto-análise. Quando olhamos ao nosso redor, podemos muito bem inquirir como vai nossas almas?

Sobre esta questão, penso que o método mais curto será sugerir uma lista de assuntos para nossa auto-análise e agrupá-los em ordem. Assim fazendo, espero encontrar o caso de cada pessoa que ler este texto. Convido a cada leitor a unir-se a mim numa calma e minuciosa introspecção por alguns minutos. Desejo falar a mim, bem como a vocês. Aproximo-me não como um inimigo, mas como um amigo. Irmãos, o bom desejo do meu coração e a minha súplica a Deus por Israel é para sua salvação Rm. 10: 1.

Suportem-me se digo coisas que a primeira vista parecem desagradáveis e severas. Creiam-me, seu melhor amigo é aquele que lhe fala as maiores verdades.
Em primeiro lugar, deixe-me perguntar-lhes: Alguma vez paramos para pensar sobre nossas almas?

Milhares de ingleses, eu temo, não podem responder esta questão satisfatoriamente. Eles nunca dão lugar em seus pensamentos ao assunto religião. Do início ao fim do ano, eles estão absortos com seus negócios, prazeres, política, dinheiro ou auto-indulgência de um tipo ou de outro. Morte, julgamento, eternidade, céu, inferno e o mundo vindouro, nunca são considerados nem olhados com serenidade. Vivem como se nunca fossem morrer, ou ressuscitar, ou estar no tribunal de Deus, ou receber uma sentença eterna! Não se opõem abertamente a religião, por não terem refletido suficientemente sobre ela, para assim o fazer; mas comem, bebem, dormem, ganham dinheiro, gastam dinheiro, como se a religião fosse uma ficção e não uma realidade. Eles não tem nenhuma religião e não se preocupam em formar opinião sobre isto. Um estilo de vida mais insensato e irracional não pode se concebido. Apesar disto, eles não pretendem logicar sobre isto. Eles simplesmente nunca pensam em Deus, a menos que estejam assustados por alguma doença, morte na sua família, ou tenha acontecido algum acidente com um conhecido e isto por alguns minutos somente. Parecem ignorar a religião por completo, excetuando-se estes vislumbres acima, e prosseguem em seus caminhos frios e imperturbáveis, como se não houvesse nenhum pensamento melhor do que este mundo.

É difícil imaginar uma vida mais indigna numa criatura imortal, do que a vida que acabei de descrever, por reduzir o homem ao nível de uma fera. Mas é literal e verdadeiramente a vida de multidões na Inglaterra. E à medida que vão morrendo, seus lugares são ocupados por multidões iguais a eles. O quadro, sem dúvida, é horrível, preocupante e revoltante, mas infortunadamente é a mais pura verdade. Em cada lugar você encontra pessoas desta classe, que pensam sobre tudo debaixo do sol, exceto sobre uma necessidade real: a salvação de suas almas. Como os judeus antigos eles não consideram seus caminhos, não consideram seu fim, não consideram que fazem mal” (Is. 1:3, Dt. 32.29, Ec. 5:1). Como Gálio eles “não se importavam com nenhuma destas coisas” (At. 18:17). Se prosperarem no mundo e enriquecem, e são bem sucedidos no curso de suas vidas, eles são louvados e admirados por seus contemporâneos. Nada produz mais efeito na Inglaterra do que o sucesso! Mas, apesar disto, eles não podem viver para sempre. Eles morrerão e surgirão diante do Tribunal de Deus e serão julgados; e então como será o fim deles?

Quando uma grande maioria de pessoas como estas existe no nosso país, nenhum leitor precisa se admirar de eu perguntar se ele pertence a ela também. Se sim, você precisa ter uma marca na sua porta, como a que era usada há dois séculos atrás para identificar uma casa afetada por praga, com as palavras: Senhor tem misericórdia de nós. Olhe atentamente para a classe de pessoas que descrevi, e então olhe para sua própria alma.

Em segundo lugar, deixe-me perguntar: Nós alguma vez fazemos alguma coisa por nossas almas?

Existem multidões na Inglaterra que pensam ocasionalmente sobre religião, mas infelizmente nunca vão, além disso. Após um sermão animador, ou após um funeral, ou sob a pressão de uma enfermidade, ou no domingo à tarde, ou quando as coisas vão mal nas suas famílias, ou quando se deparam com algum livro ou tratado tocante, eles pensarão e até mesmo falarão um pouco, de modo vago, sobre religião. Mas rapidamente param, como se pensar e falar fosse suficiente para salvá-los. Eles estão sempre intencionando, pretendendo, propondo, resolvendo, desejando e nos falando que eles sabem” o que é certo, e esperam” serem achados justificados no fim, mas nunca realizam alguma ação neste sentido. Não existe uma real separação do serviço do mundo e do pecado, não se toma a cruz e segue-se a Cristo, nenhum feito positivo no seu cristianismo. Suas vidas são gastas fazendo a parte do filho a quem o pai disse: Filho vai trabalhar hoje na vinha e ele respondeu: Sim, senhor; mas não foi. (Mt. 21: 28-29). Eles são como aqueles a quem o profeta Ezequiel descreve que gostam da sua pregação, mas nunca praticam o que é pregado: E eles vêm a ti, como o povo costuma vir, e se assentam diante de ti como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois com a sua boca professam muito amor, mas o seu coração vai após o lucro. E eis que tu és para eles como uma canção de amores, canção de quem tem voz suave, e que bem tange; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra. (Ez. 33: 31-32). Nos dias de hoje, quando ouvir e pensar sem fazer é tão comum, ninguém pode se surpreender que eu importune os homens com a absoluta necessidade de auto-análise. Uma vez mais peço aos meus leitores que considerem a questão do meu texto: Como vamos indo em relação as nossas almas?

Em terceiro lugar, pergunto: Estamos tentando satisfazer nossas consciências com uma mera religião formal?

Há miríades na Inglaterra neste momento, que naufragam nesta rocha. Como os antigos fariseus, eles fazem muito rebuliço sobre a parte externa do cristianismo, enquanto que a parte interna e espiritual é totalmente negligenciada. Eles são cuidadosos com a freqüência aos cultos e o uso regular de todas as suas formas e ordenanças. Nunca estão ausentes da comunhão quando a Ceia do Senhor é ministrada. Algumas vezes são severos na observância da Quaresma e atribuem grande importância aos dias santos. Freqüentemente são entusiastas partidários de suas igrejas, seitas ou congregações, e aptos para contender com qualquer um que não concorde com eles. E apesar disto, não há coração em suas religiões. Qualquer um que lhes conheça intimamente pode ver, facilmente, que suas afeições estão voltadas para as coisas terrenas e não nas do alto; e que tentam disfarçar a falta de cristianismo interno, com uma quantidade excessiva de formas externas. E esta religião formal não lhes faz, verdadeiramente, bem nenhum. Eles não estão satisfeitos. Começando com o objetivo errado, fazendo as coisas exteriores primeiro, não conhecem nada da alegria interior e da paz, e passam seus dias num esforço constante, conscientes, secretamente, que existe alguma coisa errada, apesar de não saberem por quê. Bem, depois de tudo, se eles não vão de um estado de formalidade para outro, se desesperam e tomam um mergulho fatal e caem no papismo. Quando cristãos professos deste tipo são tão, dolorosamente, numerosos, preciso exortá-los da grande importância de uma profunda auto-análise. Se você ama a vida, não se satisfaça com uma religião de casca. Lembre-se das palavras do nosso Salvador sobre os judeus da Sua época: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram” (Mt. 15: 8-9). É necessário algo mais do que simplesmente ir a igreja diligentemente e receber a Ceia do Senhor, para conduzir nossas almas ao céu. Meios de graça e formas de religião, são úteis neste caminho e Deus raramente faz alguma coisa para Sua Igreja, sem eles. Mas tomemos cuidado para não naufragarmos no farol que ajuda a mostrar o canal que conduz ao porto. Uma vez mais pergunto: Como vamos indo em relação as nossas almas?

Em quarto lugar, deixe-me perguntar: Recebemos o perdão de nossos pecados?

Poucos ingleses racionais pensariam em negar que são pecadores. Muitos talvez possam dizer que não são tão maus como muitos outros, e que não tem sido tão pecaminosos e assim por diante. Mas poucos, eu repito, diriam que sempre viveram como anjos, e que nunca disseram, fizeram ou pensaram qualquer coisa errada em todos os seus dias. Na verdade, todos nós devemos confessar que somos mais ou menos pecadores” e, como tais, culpados diante de Deus; e, como culpados, precisamos ser perdoados ou estaremos perdidos e condenados por toda a eternidade no último dia. Agora é a glória da religião cristã que provê para nós o perdão que precisamos: completo, gratuito, perfeito, eterno e consumado. É um artigo do conhecido credo que a maioria dos ingleses aprendem quando crianças: Creio no perdão dos pecados. Este perdão dos pecados foi comprado para nós, através dos méritos do Eterno Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, que veio a este mundo para ser nosso Salvador, através de sua vida, morte, ressurreição, como nosso substituto. Ele adquiriu este perdão através do Seu precioso sangue, sofrendo no nosso lugar na cruz, satisfazendo a justiça de Deus. Mas este perdão, grande, completo e glorioso, não se torna propriedade de todo homem ou mulher como um fato natural. Não é um privilégio que todo membro de igreja possui, simplesmente porque é um freqüentador. É algo que cada indivíduo deve receber, através de sua fé, agarrando-o pela fé, apropriando-se pela fé e fazendo-o seu pela fé; ou então, no que lhe concerne, Cristo terá morrido em vão: Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, porém, desobedece ao Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo. 3:36). Nada poderia ser mais simples ou conveniente ao homem. Como o bom idoso Latimer disse sobre a justificação: É só crer e ter. É só a fé que é requerida; e a fé nada mais é do que a humilde e sincera confiança da alma que deseja ser salva. Jesus está pronto e disposto a salvar; mas o homem deve vir a Jesus e crer. Todo o que crer será justificado e perdoado, mas sem a fé não há perdão.

Eu temo que aqui seja o ponto exato onde multidões de ingleses caem, e estão em iminente perigo de estarem perdidos para sempre. Eles sabem que não há perdão de pecados exceto em Cristo Jesus. Eles podem lhe dizer que não há Salvador para pecadores, Redentor, Mediador, a não ser Aquele que nasceu da Virgem Maria, e foi crucificado sob o poder de Pôncio Pilatos, morreu e foi sepultado. Mas aqui eles param e não prosseguem! Eles nunca chegam ao ponto de segurar-se em Cristo pela fé, e tornar-se um com Cristo e Cristo neles. Eles podem dizer, Ele é um Salvador, mas não meu Salvador; um Redentor, mas não meu Redentor; um Sacerdote, mas não meu Sacerdote; um Advogado, mas não meu Advogado; e assim vivem e morrem indesculpáveis! Martinho Lutero disse: Muitos estão perdidos porque não podem usar pronomes possessivos. Quando este é o estado de muitos nos dias de hoje, não se espantem de que eu pergunte se receberam o perdão de seus pecados. Uma eminente cristã uma vez disse na sua velhice: O começo da vida eterna na minha alma foi uma conversa que tive com um idoso cavalheiro que veio visitar meu pai quando eu era criança. Ele tomou-me pela mão um dia e disse: Minha querida criança, minha vida está perto de acabar, e você provavelmente viverá muitos anos depois de minha partida. Mas nunca esqueça de duas coisas. Uma delas é que existe algo como ter seus pecados perdoados enquanto vivemos. A outra é que há algo como conhecer e sentir que estamos perdoados. Agradeço a Deus nunca ter esquecido suas palavras.

Não descansemos até que conheçamos e sintamos como o Livro de Orações diz que estamos perdoados.

Uma vez mais pergunto, na questão do perdão de pecados, Como estamos indo?

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