Oração Pública

Seria muito desejar que nossos corações fossem, de tal forma, movidos pelo senso das coisas divinas e tão intimamente empenhados quando adoramos a Deus, que pequenas circunstâncias não tivessem o poder de nos interromper ou desconcentrar, ou de nos fazer achar o culto enfadonho e o tempo que empregamos nele, tedioso. Mas, como nossas debilidades são grandes e muitas, e o inimigo de nossas almas é vigilante para nos descompor, se aqueles que dirigem as reuniões de oração não tomarem cuidado, elas poderão tornar-se um peso e uma ocasião de pecado.

A Duração das Orações Públicas

A principal falta de algumas boas orações é que elas são muito longas; não que eu ache que devemos orar pelo relógio e limitar-nos precisamente a um certo número de minutos, mas é melhor que os ouvintes desejem que a oração seja mais longa, do que passem metade do tempo desejando que ela acabe.

Isto freqüentemente se deve a uma delonga desnecessária sobre cada circunstância que se apresenta, bem como repetições das mesmas coisas.

Se tivermos nos estendido nas súplicas por bênçãos espirituais, é melhor ser breve e sumário na intercessão por outros. Ou se a disposição de nossos espíritos, ou as circunstâncias nos conduzam a ser mais extensos e minuciosos em expor os casos de outros perante o Senhor, deveríamos nos lembrar desta intenção, no início da oração.

Existem, sem dúvida, épocas em que o Senhor se agrada em favorecer aqueles que oram, com peculiar liberdade. Eles falam porque sentem. Eles tem um espírito lutador e tem dificuldades para desistir.

Quando este é o caso, aqueles que se juntam a eles raramente se cansam, apesar da oração exceder os limites usuais. Mas eu creio que algumas vezes acontece, tanto na oração quanto na pregação, de nos prolongarmos quando na realidade temos pouco a dizer.

Orações longas deveriam ser, de maneira geral, evitadas, especialmente onde muitas pessoas orarão sucessivamente, do contrário, mesmo ouvintes espirituais não conseguirão manter sua atenção. E aqui eu gostaria de notar uma impropriedade que nos defrontamos: quando uma pessoa dá a expectativa que está para concluir sua oração, e alguma coisa, não considerada no devido tempo, ocorre naquele instante a sua mente, e o conduz como se começasse de novo. Mas, a menos que seja um assunto de singular importância, seria melhor que fosse omitido.

Pregando nas Orações Públicas

As orações de alguns bons homens são mais como pregações do que orações. Eles antes expressam a mente do Senhor para o povo, do que os desejos do povo para o Senhor. Na verdade, isto dificilmente pode ser chamado oração. Poderia, em outra ocasião, fazer parte de um bom sermão, mas proporcionará pouca ajuda àqueles que desejam orar com seus corações.

A oração deve ser concisa e composta de suspiros ao Senhor, tanto de confissão, petição como de adoração. Não deveria ser somente bíblica e evangélica, mas experimental; expressão simples e natural dos desejos e sentimentos da alma. Assim será se o coração estiver vívido e envolvido no dever. Deve ser assim, se a edificação de outros é o alvo em vista.

Método nas Orações Públicas

Muitos livros tem sido escritos para assistir no dom e exercício da oração, e muitas sugestões úteis podem ser obtidas deles. Mas uma cuidadosa atenção ao método neles recomendados, transmite um ar de estudo e formalidade, e ofende aquela simplicidade tão essencialmente necessária a uma boa oração, cuja falta nenhum grau de habilidade pode compensar. É possível aprender a orar mecanicamente e por hábito; mas dificilmente é possível fazer isto com aceitação e benefício de outros

Quando as muitas partes de invocação, adoração, confissão, petição, etc., seguem-se numa ordem estabelecida, a mente do ouvinte geralmente vai antes da voz do orador, e podemos formar uma suposição razoável do que se seguirá.

Por conta disso, freqüentemente achamos que pessoas incultas, que tiveram pouca ou nenhuma ajuda de livros, ou antes, não foram agrilhoados por eles, podem orar com unção e aroma, num modo impremeditado, enquanto que as orações das pessoas de mais habilidades, talvez mesmo os próprios ministros, são, apesar de acuradas e regulares, tão secas e formais, proporcionando pouco prazer ou proveito para a mente espiritual. O espírito de oração é o fruto e o sinal do espírito de adoção.

Os discursos estudados com os quais alguns se aproximam do trono da graça, nos lembram o exemplo de um estranho que chega a porta de um homem importante. Ele bate e espera, entrega seu cartão e passa por uma seqüência cerimonial antes de conseguir entrada, enquanto que uma criança da família sem cerimônia alguma, entra livremente, quando deseja, porque sabe que ele está em casa.

É verdade que devemos sempre nos aproximar do Senhor com grande humilhação de espírito e um senso de nossa indignidade. Mas este espírito não é sempre melhor expresso ou promovido por uma enumeração pomposa dos nomes e títulos de Deus, ou pela fixação em nossas mentes, de antemão, da ordem exata que propusemos arranjar as diversas partes de nossa oração.

Alguma atenção em relação ao método pode ser apropriada, com o objetivo de nos prevenir das repetições, e pessoas simples podem ser defeituosas nisso, às vezes; mas este defeito não será tão cansativo e desagradável quanto uma precisão estudada e artificial.

Peculiaridades de Maneira na Oração Pública

Muitas pessoas, talvez a maioria que oram em publico, tem alguma palavra ou expressão favorita a qual recorre, muito freqüentemente, em suas orações, e a usam, repetidamente, como uma mera expletiva, não tendo, necessariamente, conexão com o sentido daquilo que elas estão falando.

A mais desagradável é quando o nome do bendito Deus, em adição a um ou mais epítetos, tais como Grande, Glorioso, Santo, Todo-Poderoso, etc., é introduzido, com tal freqüência e desnecessariamente que, nem indica uma justa reverência na pessoa que faz uso dela, nem estimula reverência naqueles que a ouvem.

Eu não direi que isto é tomar o nome de Deus em vão, no sentido usual da frase. É, entretanto, uma grande impropriedade e deveria ser evitada. Seria bom se aqueles que usam expressões redundantes, tivessem um amigo que lhes avisassem para que pudessem, com um pouco de cuidado, serem restringidos; e dificilmente alguém percebe as pequenas peculiaridades que podem, inadvertidamente, adotar, a menos que sejam avisados sobre elas.

Do mesmo modo, existem muitas coisas no que se refere a voz e a maneira de orar, que uma pessoa pode, com a devida atenção, corrigir em si mesma, e que, se corrigidas de modo geral, poderiam tornar reuniões de oração mais agradáveis do que algumas vezes são.

Falar muito alto é uma falta, quando o tamanho do lugar e o número de ouvintes não o requeiram. O objetivo de se falar em publico é ser ouvido, e quando para se conseguir este objetivo é necessário uma elevação do tom de voz, é, freqüentemente, prejudicial ao orador e é mais provável que confunda o ouvinte do que atraia sua atenção. Considero porém que deva ser levada em consideração a constituição física, bem como o fervor, que dispõe algumas pessoas a falar mais alto do que outras. Apesar disso, elas farão bem em conterem-se tanto quanto puderem. Pode parecer indicar grande zelo e um coração zeloso, contudo, geralmente são fogo falso. Pode imaginar estar falando “com poder”, mas uma pessoa que é favorecida com a presença do Senhor pode orar com poder numa voz moderada; por outro lado, pode-se ter muito pouco poder do Espírito, apesar de se poder ouvir a voz na rua e na vizinhança.

O outro extremo, de falar muito baixo, não é tão freqüente, mas se não somos ouvidos, devemos mantermos calados

Fatiga o espírito e enfada, estar ouvindo, por qualquer tempo, uma voz muito baixa. Algumas palavras ou sentenças serão perdidas, o que tornará aquilo que é ouvido, menos inteligível e deleitável. Se o orador pode ser ouvido pela pessoa que está mais distante dele, o resto o ouvirá com certeza.

Do mesmo modo, o tom da voz deve ser considerado. Alguns tem um tom de voz, quando oram, tão diferente de seu modo usual de falar, que seus amigos mais próximos, se não habituados a ele, dificilmente os reconheceria por sua voz. Algumas vezes o tom é mudado, talvez mais de uma vez, de modo que se nossos olhos não nos der mais informações do que nossos ouvidos, pensaremos que duas ou três pessoas estão falando por turnos. É uma pena que, apesar de entendermos o que é dito, possamos ser tão facilmente desconcertados por uma entrega inabilitada. Isto é freqüente e provavelmente o será, na presente fraqueza e imperfeição da natureza do estado humano. Lamentamos que cristãos sinceros são algumas vezes forçados a confessar: “Ele é um bom homem, e suas orações, quanto a sua substância, são espirituais e judiciosas, mas há algo tão desagradável na maneira de entregá-la, que fico sempre inquieto ao ouvi-lo”.

Informalidade na Oração Pública

O contrário disto, e ainda mais ofensivo, é o costume que alguns tem de conversar com o Senhor na oração. É a sua voz natural, de fato, mas com expressões que usariam somente em ocasiões mais familiares e triviais. A voz humana é capaz de tantas inflexões e variações, que pode adaptar-se a diferentes sensações de mente, como alegria, tristeza, medo, desejo, etc. Se um homem estiver suplicando por sua vida, ou expressando seu agradecimento a um rei por um perdão recebido, o senso comum e decoro o ensinariam a maneira apropriada; e qualquer um que não entendesse sua língua, saberia pelo som da sua voz, que ele não estaria fazendo uma barganha ou contando uma história. Quanto mais quando falamos com o Rei dos reis, deveria a consideração de Sua glória, de nossa própria vileza e da importância dos assuntos que estivermos tratando diante dEle, nos afetar com um ar de seriedade e reverência e nos prevenir de falar com Ele como se Ele fosse um de nós! A liberdade, a qual somos chamados pelo Evangelho, não nos encoraja a tal atrevimento e familiaridade, da mesma forma que seria impróprio usá-las a um semelhante, que esteja um pouco acima de nós, no que diz respeito a honra do mundo.

Eu me alegrarei se estas sugestões forem de algum serviço àqueles que desejam adorar a Deus em espírito e verdade, e que desejam que qualquer coisa que tenha tendência a sufocar o espírito de devoção, tanto em nós mesmos quanto em outros, deva ser evitada.


Nota sobre o Autor: John Newton,

(1725-1807) Clérigo anglicano e escritor de hinos. Filho de um capitão de mar mercantil, ele teve uma infância insegura e mocidade turbulenta que incluiu vários períodos de intensa experiência religiosa. Ele foi forçado a se unir a Marinha Real, mas tentado escapar, foi preso na África Ocidental, e eventualmente se tornou marinheiro de um navio comerciante de escravos. Em 1747 ele subiu a bordo de um navio para a Inglaterra, mas uma tempestade violenta no Atlântico Norte quase os afundou. Para Newton era um momento de revelação, e ele se voltou para Deus.

Não obstante, prosseguiu no comércio de escravos, mas em 1755 ele deixou o mar. Em Buckinghamshire, ele exerceu um ministério próspero de quinze anos, ajudando o poeta William Cowper e também ficou extensamente conhecido. Os dois produziram os Hinos de Olney dos quais um bom número é ainda usado em geral e incluem “Amazing grace,” “How sweet the name of Jesus sounds” e “Glorious things of thee are spoken”. Em 1779 Newton se mudou para Londres, tornando-se vigário de St. Mary, Woolnoth. A influência dele era sentida amplamente, especialmente no mundo evangélico. “O Messias” de Handel tinha feito um impacto enorme em Londres, e Newton pregou uma série famosa de sermões nos textos que Handel tinha usado como libretto. Depois disto o jovem William Wilberforce buscou aconselhar-se com ele. Nos anos posteriores, Newton tornou-se parte principal na campanha política de Wilberforce que conduziu à abolição do comércio de escravos na Inglaterra.

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